Matérias / Holocausto

David e Helen: uma história de amor em Auschwitz

Conheça a história real de um casal judaico que se apaixonou em um cenário improvável: no campo de concentração de Auschwitz

Casal Auschwitz
David Wisnia e Helen Spitzer, casal que se apaixonou em Auschwitz - David Wisnia Literary Trust/Michael Berkowitz

No meio dos horrores do Holocausto, dois jovens judeus encontraram amor — e, décadas depois, uma segunda chance. A história de Helen Zipora “Zippi” Spitzer e David Wisnia, que se apaixonaram no campo de extermínio de Auschwitz, é narrada no novo livro Eles se Amaram em Auschwitz: Uma história real, da jornalista Keren Blankfeld, e é uma das mais improváveis e comoventes histórias de amor e resistência humana da Segunda Guerra Mundial.

Auschwitz: terror e morte

Auschwitz-Birkenau, na Polônia invadida, foi o maior campo de concentração e extermínio da Alemanha nazista, onde mais de um milhão de pessoas — em sua maioria judias — foram assassinadas ou morreram em condições de fome, trabalho forçado e violência extrema.

O portão principal de Auschwitz I com a infame inscrição “Arbeit Macht Frei” (“O trabalho liberta”) / Créditos: Getty Images

Helen Spitzer, natural da então Hungria-Eslováquia, foi uma das primeiras mulheres deportadas para Auschwitz em março de 1942. Ao contrário de muitos que eram imediatamente enviados às câmaras de gás, Helen tinha uma formação universitária em design e era fluente em alemão — qualidades que acabaram salvando sua vida inicialmente, pois a SS a colocou em funções administrativas no campo.

David Wisnia chegou cerca de nove meses depois, em 1943, com 16 anos. Também sobrevivente judeu, ele logo chamou a atenção por seu talento como cantor — algo que os guardas usaram para seu próprio entretenimento. Antes disso, ele fora forçado a carregar corpos de prisioneiros que morreram ao colidir com as cercas eletrificadas do campo.

Essas privilegiadas posições, embora severamente limitadas e sempre sob ameaça de morte, permitiram que ambos circulassem por áreas onde outros prisioneiros não tinham acesso e, crucialmente, que seus caminhos se cruzassem.

Amor e Destruição

Os encontros entre Helen e David começaram com olhares furtivos e pequenas conversas. Segundo relatos, eles se conheceram vagamente antes de começar a trocar notas e mensagens por meio de outros prisioneiros, sempre sob extremo risco, já que qualquer desvio das regras nazistas podia significar punição ou morte imediata.

Helen, cerca de nove anos mais velha, parecia usar sua posição para estar em locais onde poderia ver David — incluindo o espaço chamado “Sauna”, onde as roupas dos presos eram desinfectadas e que funcionava como um dos poucos pontos em que eles podiam interagir.

Em um dos encontros mais memoráveis, eles se reuniram entre as pilhas de roupas confiscadas dos prisioneiros — usando as peças para construir uma espécie de saleta onde, por alguns minutos, puderam se ver e conversar sem a vigilância imediata dos guardas. Esses encontros, geralmente uma vez por mês, foram marcados por troca de confidências, toques e cantos compartilhados, incluindo uma canção húngara que Helen ensinou a David.

Para ambos, encontrar amor em um dos lugares mais desumanizadores já criados foi uma forma de resistir — não apenas fisicamente, mas espiritualmente, mantendo viva a esperança e a humanidade em meio ao terror.

Promessas e separações

Durante seus encontros, Helen e David fizeram um pacto: se sobrevivessem, iriam se encontrar novamente após o fim da guerra — em Varsóvia, na Polônia. Esse plano lhes deu esperança, mas o caos do final do conflito acabou os separando.

David foi transferido para o campo de Dachau e, durante uma marcha da morte, fugiu ao ferir um guarda nazista e se esconder até a chegada de soldados americanos. Depois da guerra, ele acabou nos Estados Unidos, onde começou uma nova vida, casou-se, teve filhos e netos, tornando-se um cantor e membro ativo de sua comunidade.

Helen, por sua vez, foi transferida para outros campos e escapou da marcha da morte graças a uma manobra arriscada que a ajudou a se camuflar entre civis. Nos campos de deslocados da zona americana da Alemanha, ela acabou casando com Erwin Tichauer, chefe da polícia de seu campo, e também se estabeleceu nos Estados Unidos, em Nova York.

Infelizmente, os encontros durante a guerra foram sua última conexão até muito depois — e muitos anos se passaram sem que eles conseguissem se encontrar novamente, mesmo mantendo esperança de reencontro.

O reencontro

Décadas depois, as vidas de Helen e David tomaram rumos separados, com famílias e carreiras distintas. Foi só em 2016, cerca de 72 anos após Auschwitz, que os dois voltaram a se encontrar — Helen já viúva e debilitada, e David acompanhado de seus netos.

Nessa reunião, David perguntou a Helen se ela alguma vez havia ajudado a salvá-lo durante a guerra — e ela revelou que, em várias ocasiões, usou sua posição para tirá-lo das listas de prisioneiros que seriam mortos. Para ele, isso respondeu uma pergunta que havia carregado por toda a vida.

Ainda assim, após esse breve reencontro, suas vidas permaneceram distintas: ele continuou compartilhando sua história em palestras e eventos, enquanto ela se manteve discreta em relação à sua experiência além das entrevistas para historiadores.

Uma história extraordinária

A história de Helen Spitzer e David Wisnia é um lembrete poderoso de que, mesmo nos contextos mais brutais e desesperadores, a esperança e a conexão humana podem florescer. Seu amor em Auschwitz não foi apenas uma curiosidade — foi um testemunho da resiliência do espírito humano diante da destruição sistemática. Sendo documentado agora por historiadores e autores, como Blankfeld, o relato ajuda a manter viva a memória dessas vidas extraordinárias e a capacidade de amor, mesmo no antro mais sombrio da história moderna.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.