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Muitos brasileiros não sabem definir o que foi o Holocausto, aponta pesquisa

Nova pesquisa indica que apenas 53,2% dos brasileiros sabe definir o que foi o Holocausto; e 38,5% sequer sabe que Auschwitz foi um campo de extermínio

Crianças sobreviventes no campo de concentração de Auschwitz / Crédito: Getty Images

Um estudo recente revela que 59,3% dos brasileiros afirmam possuir algum conhecimento sobre o Holocausto. Contudo, apenas 53,2% dos entrevistados foram capazes de definir corretamente o evento como “o extermínio sistemático de seis milhões de judeus pelo regime nazista”. Em contrapartida, 31,1% admitiram não saber o que foi o genocídio que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial; e outros 9% descrevem o Holocausto como um “conflito militar com 50 milhões de vítimas”, enquanto 3% acreditam se tratar de um “movimento cultural”. Por fim, 2,9% consideram-no um “episódio isolado de violência não comprovada”.

Os dados são provenientes da pesquisa intitulada “O conhecimento do Holocausto no Brasil“, conduzida pelo Grupo ISPO sob encomenda da Confederação Israelita do Brasil (Conib), do Memorial do Holocausto de São Paulo, do Museu do Holocausto de Curitiba e da ONG StandWithUs Brasil. A apresentação dos resultados ocorreu na manhã da última quinta-feira, 22, no Memorial do Holocausto em São Paulo.

Em um cenário marcado pelo aumento do antissemitismo e pela desinformação, a pesquisa visou avaliar o entendimento dos brasileiros sobre o Holocausto, identificar lacunas no ensino do tema, mapear as principais fontes de informação consultadas e perceber a opinião pública acerca da relevância da educação sobre o Holocausto nas escolas e em locais de memória. O intuito é também fornecer subsídios para a formulação de políticas educacionais focadas na promoção dos direitos humanos e na memória histórica.

Prisioneiros em campo de concentração nazista / Crédito: Getty Images

De acordo com os resultados, o nível de escolaridade se mostrou um fator crucial para o entendimento sobre o Holocausto. Entre aqueles com pós-graduação, 86,2% conseguiram definir corretamente o termo. Em contraste, apenas 27,2% dos participantes com Ensino Médio completo demonstraram saber o que foi o Holocausto. A renda familiar também influenciou: apenas 42,6% das pessoas com rendimento de até dois salários mínimos conheciam a definição correta, em comparação a 87,1% entre aqueles com renda superior a 10 salários mínimos. Além disso, 38,5% da população não reconhece Auschwitz como um campo de extermínio.

As fontes de informação mais citadas sobre o Holocausto foram as escolas (30,9%) e os filmes e livros (18,6%). Museus e casas de memória ocuparam a última posição, com apenas 1,7%. Apesar das limitações no conhecimento sobre o assunto, 64,4% dos entrevistados afirmaram que é fundamental incluir o ensino do Holocausto nas escolas; no entanto, 87,3% nunca participaram de atividades educacionais ou visitas a museus dedicados à preservação dessa memória.

Alerta

Sergio Napchan, diretor-geral da Conib, enfatizou que os dados da pesquisa servem como um “alerta“, pois a falta de conhecimento cria “um terreno fértil para relativizações e negacionismo“. Ele ressaltou a importância de preservar a memória do Holocausto, ressaltando que isso é “uma responsabilidade coletiva, democrática e civilizatória.”

“Memória não se preserva apenas em datas simbólicas, ela se constrói no cotidiano, com informação responsável e ressignificação permanente. Sem memória, não há prevenção. Sem educação, não há democracia. O combate ao antissemitismo não se faz com silenciamento, mas com informação, educação e clareza histórica”, afirmou Napchan. “A mensagem é clara: a memória da Shoah é essencial para a democracia, os direitos humanos e a convivência plural no Brasil. A política também tem o papel de articular, educar e dialogar para que essa memória não seja esquecida, relativizada ou banalizada.”

A pesquisa foi realizada ao longo do ano de 2025 e abrangeu 7.762 entrevistados em 11 regiões metropolitanas brasileiras, incluindo cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Dentre os participantes, 54,2% eram mulheres e 31,4% tinham entre 18 e 29 anos; além disso, 51,8% completaram o Ensino Médio e 54,2% tinham uma renda familiar inferior a dois salários mínimos. As entrevistas ocorreram pessoalmente em locais públicos com grande circulação de pessoas e tiveram uma margem de erro estimada em 4,7%, repercute O Globo.

A apresentação da pesquisa contou com a presença de dois sobreviventes do Holocausto: Hannah Charlier e Gabriel Waldman. Neste domingo, 25, também foi inaugurada no Clube Hebraica em São Paulo a exposição “Sobreviventes”, que exibirá retratos de sobreviventes do Holocausto residentes no Brasil. Além disso, será lançado o livro “Eles se amaram em Auschwitz”, escrito por Karen Blankfeld.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.