Uma fotografia angustiante, tirada durante a ocupação nazista na Ucrânia em 1941, há décadas serve como símbolo da brutalidade do Holocausto: nela, um soldado alemão com óculos aponta uma arma para a cabeça de um homem ajoelhado diante de uma vala comum, enquanto outros militares observam.
A imagem ficou conhecida como “O Último Judeu de Vinnytsia”, embora estudos recentes indiquem que o assassinato tenha ocorrido em Berdychiv, no dia 28 de julho de 1941, durante uma ação do Einsatzgruppe C — uma das unidades móveis nazistas responsáveis por execuções em massa de civis judeus.
Após anos de pesquisa em arquivos, o historiador alemão Jürgen Matthäus chegou à hipótese de que o homem com a arma é Jakobus Onnen, ex-professor que ingressou no Partido Nazista ainda nos anos 1930 e atuou em operações de repressão nos territórios ocupados do Leste Europeu. A pista surgiu quando um descendente identificou semelhanças entre o rosto do soldado e o de um parente em fotografias antigas da família Onnen.
Carrasco nazista
Para verificar a hipótese, Matthäus contou com o apoio da organização de jornalismo investigativo Bellingcat, que utilizou técnicas de análise facial com auxílio de inteligência artificial. O sistema comparou a imagem histórica com retratos do suspeito e indicou alta correspondência entre os rostos.
Ainda assim, o historiador enfatiza que a IA é apenas um instrumento complementar: “Não é uma bala de prata — o fator humano continua essencial. A tecnologia auxilia, mas é o cruzamento de documentos e o contexto histórico que confirmam as conclusões”, explicou em entrevista à imprensa local.
Jakobus Onnen morreu em combate em 1943, sem jamais ter sido formalmente acusado por aquele crime. Ele não chegou a ocupar cargos de destaque no regime nazista, o que leva os pesquisadores a acreditar que o episódio retratado na foto tenha resultado de uma ação de campo, marcada por improviso e demonstração de lealdade ideológica.
O trabalho de Matthäus, porém, não se limita ao carrasco. O historiador também tenta descobrir a identidade do homem ajoelhado, cuja expressão de resignação e medo tornou-se um símbolo das vítimas do Holocausto. Em colaboração com estudiosos ucranianos, ele analisa registros soviéticos, mapas locais e possíveis retratos para tentar reconstruir a vida da vítima anônima, apagada pela violência sistemática dos nazistas.
A descoberta, segundo Matthäus, carrega um significado simbólico poderoso. Ao revelar o nome de um dos executores, a foto deixa de ser apenas um registro anônimo de barbárie e passa a representar a concretização da responsabilidade individual.
Por trás de cada atrocidade havia um rosto, uma decisão, uma escolha. Identificar o assassino é devolver à história a dimensão humana — tanto da vítima quanto do algoz”, afirmou o pesquisador na mesma ocasião.
Mais de oito décadas depois, a imagem que simboliza o extermínio dos judeus na Europa ganha uma nova camada de sentido. A tecnologia moderna, somada à investigação histórica, permite não apenas identificar um criminoso, mas reafirmar a necessidade de lembrar, com precisão e nome, cada gesto que construiu o horror. A fotografia, que por tanto tempo condensou o anonimato do sofrimento, passa agora a representar também o poder da memória ativa — uma tentativa de impedir que o esquecimento, aliado silencioso da violência, volte a triunfar sobre a verdade.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli