Tadeusz Pietrzykowski: o prisioneiro de Auschwitz que sobreviveu lutando boxe
Preso no campo de concentração de Auschwitz, o polonês Tadeusz Pietrzykowski conseguiu privilégios e conseguiu sobreviver lutando boxe; confira!

Entre 1939 e 1945, a humanidade presenciou um momento especialmente brutal de sua história: a Segunda Guerra Mundial, que ia muito além dos próprios combates político-militares, como também espalhava o nazismo e o horror do Holocausto em grande parte da Europa.
O Holocausto foi a perseguição sistemática promovida pela Alemanha Nazista de judeus. Segundo a Enciclopédia do Holocausto, mais de seis milhões de judeus foram assassinados na época — sendo este considerado o maior genocídio do século 20 —, enquanto muitos outros mais, de todas as idades e gêneros, foram presos e torturados nos campos de concentração.
Um dos campos de concentração mais conhecidos foi o de Auschwitz, localizado no sul da Polônia ocupada, e que recebeu mais de 1,1 milhão de judeus atrás de suas grades. Mas, mesmo em meio aos horrores ali vividos, um dos primeiros prisioneiros do local não se deixou quebrar, e conseguiu sobreviver de uma forma bastante inusitada: com o boxe. Este é Tadeusz “Teddy” Pietrzykowski, também conhecido na prisão como Prisioneiro 77.

Ascensão no boxe
Nascido no dia 8 de abril de 1917 em Varsóvia, capital da Polônia, Tadeusz Pietrzykowski chegou a ver — embora fosse jovem demais para lembrar — os últimos momentos da Primeira Guerra Mundial, mas a maior parte de sua juventude foi focada em esportes. Ainda na adolescência ele se interessou por futebol, e algum tempo depois demonstrou grandes habilidades como boxeador.
Conforme repercute o All That’s Interesting, ele treinou com um homem chamado Feliks Stamm, que supervisionou dezenas de outros jovens boxeadores na época. Mas Pietrzykowski definitivamente era um talento proeminente, e levava o treinamento a sério — embora seus familiares alegassem que seus talentos residiam ainda mais na arte que nos esportes.
Desde bastante jovem, Pietrzykowski se mostrou promissor no esporte, e competiu em lutar que o colocaram entre os melhores, em sua categoria de peso. Ele poderia não ter um porte digno de um peso pesado, mas era técnico o suficiente para ser um lutador formidável. Em 1939, ele era um talento a ser observado, mas com a invasão da Alemanha à Polônia e início da Segunda Guerra, em setembro daquele ano, ele precisou pendurar as luvas e se juntar à luta.
Ele se juntou a um regimento de artilharia leve, e inclusive defendeu Varsóvia contra os nazistas. No entanto, a cidade caiu, e Pietrzykowski tentou fugir para a França, para se juntar a um novo exército polonês comandado pelo General Władysław Sikorski.
Porém, Pietrzykowski não conseguiu cumprir essa missão. Com apenas 23 anos, ele foi preso pela Gestapo na fronteira entre a Hungria e a Iugoslávia, e pouco depois foi um dos primeiros a ser enviado ao recém-criado campo de concentração de Auschwitz, sendo marcado lá com o número 77.
Lutar para sobreviver
Inicialmente, Pietrzykowski foi designado para trabalhar em uma carpintaria em Auschwitz, o que, embora fosse pesado, ele conseguiu suportar graças à sua aptidão física. Porém, em um domingo de 1941, por acaso, ele descobriu algo que mudaria toda a sua jornada no campo de extermínio.
Certo dia, ele notou uma grande multidão se formando próximo às cozinhas do campo; e de lá saiu uma pessoa e o chamou. “Um deles correu em minha direção e gritou: ‘Teddy, se você quer um pedaço de pão, venha rápido. Há um boxeador alemão entre nós. Estou procurando alguém para lutar com ele e vencê-lo. O vencedor será recompensado com pão‘”, relembrou Pietrzykowski anos depois.
Eu pesava 42 kg, mas decidi lutar imediatamente. Vi um loiro de constituição física perfeita, segurando luvas que usávamos no inverno, durante o trabalho. Quando me viram, a multidão riu porque eu era muito magro”, prosseguiu.
O oponente em questão era Walter Düning, um kapo alemão (basicamente, um prisioneiro que supervisionava outros prisioneiros) que, antes da guerra, havia sido um boxeador de sucesso. Mas mesmo sendo um oponente formidável, Pietrzykowski não só o enfrentou, como conquistou a vitória. E com isso até mesmo conseguiu alguns privilégios em Auschwitz.
“Em dado momento, Walter Düning abaixou as luvas”, recordou Pietrzykowski. “Ele parou de lutar e, percebendo minha vantagem sobre ele, perguntou em qual comando eu gostaria de trabalhar. Respondi ‘Tierpfleger’ [tratador de animais], sabendo que poderia haver comida adicional, como bagaço, nabo e cenouras”.
Pouco a pouco, Pietrzykowski ficou conhecido até entre os guardas como boxeador, e era frequentemente inscrito pelos nazistas em outras lutas, em que os guardas faziam apostas sobre os resultados. As lutas eram às vezes contra guardas, ou contra outros detentos, então, na prática, elas apenas continuavam servindo como exercícios de crueldade.
Cada vitória geralmente rendia a Pietrzykowski rações extras de comida, ou até um tratamento um pouco menos brutal dos guardas. Foi só com isso que ele conseguiu escapar de agressões e da inanição, por exemplo, que mataram muitos outros por lá.
Em Auschwitz, Pietrzykowski lutou entre 40 e 60 combates, e é dito que perdeu apenas uma vez. Mas mesmo que, para isso, às vezes precisasse vencer outros prisioneiros, ele também se tornou um símbolo de esperança para os demais.

Símbolo de resistência
Apesar das lutas contra detentos, muitas vezes os guardas de Auschwitz queriam ver Pietrzykowski lutando com oponentes bem maiores. Por isso, várias vezes, ele foi lutado para lutar contra boxeadores profissionais ou semiprofissionais da Europa ocupada — e, mesmo assim, venceu quase todas as suas lutas.
Por isso, o “Prisioneiro 77” ficou cada vez mais conhecido entre os demais prisioneiros, e suas vitórias não só lhe proporcionavam certo orgulho e esperança — o que era extremamente valioso, em um lugar que tentava lhe tirar toda a dignidade —, além do gosto de sentir que estava derrotando nazistas, mesmo que em Auschwitz.
Mas sua resistência não se limitou à simbólica. Ele também colaborou com Witold Pilecki em um movimento de resistência de Auschwitz. Pilecki era um polonês que se infiltrou voluntariamente no campo de concentração sob um nome falso, e estava lá para reunir evidências dos crimes dos nazistas.
Pietrzykowski também participou de uma tentativa de assassinato do comandante do campo, Rudolf Höss, afrouxando a sela do cavalo dele — o que não foi um completo sucesso, com Höss apenas quebrando a perna —, e até matou o cachorro do comandante, que era treinado para atacar prisioneiros. E ele seguiu fazendo tudo que pôde enquanto aguardava a liberdade.
Liberdade
Em 1943, Pietrzykowski foi transferido de Auschwitz para o campo de concentração de Neuengamme, localizado perto de Hamburgo, na Alemanha, e lá viveu sob condições igualmente brutais. Mas continuou lutando boxe para salvar a própria vida, e lutou em cerca de 20 lutas organizadas pelos guardas.
Pouco depois ele foi enviado para o campo de Bergen-Belsen, e, mesmo passando anos indo de campo em campo, e sofrendo com as brutalidades dos nazistas em todo lugar, conseguiu sobreviver até abril de 1945, quando conseguiu a liberdade. Nesse momento, vale mencionar, Bergen-Belsen se tornou uma verdadeira armadilha mortal de fome e doenças, com várias valas comuns, mas mesmo assim Pietrzykowski conseguiu sobreviver.

Após a libertação, ele retornou à Polônia, mas infelizmente sua carreira no boxe já havia descido pelo ralo, devido à guerra e à sua saúde já debilitada. Mas ele não abandonou o esporte, e tornou-se treinador de boxe e professor de educação física, ajudando a moldar outros lutadores promissores. Ele faleceu no dia 17 de abril de 1991 na cidade de Bielsko-Biała, com 74 anos.