Vítor Soares / Holocausto

Simon Wiesenthal: Sobrevivente do Holocausto e caçador de nazistas

Sobrevivente do Holocausto, Simon Wiesenthal ficou especialmente famoso pós-Segunda Guerra com seu trabalho na perseguição e captura de nazistas

Simon Wiesenthal / Crédito: Getty Images

Entre 1939 e 1945, o mundo foi palco da Segunda Guerra Mundial, o maior conflito armado visto até hoje, e de todos os horrores promovidos em parte da Europa pela Alemanha Nazista. Na época governada pelo Führer Adolf Hitler, a Alemanha era parte do Eixo — ao lado da Itália e do Japão —, e foi responsável por perpetrar o Holocausto, a perseguição sistemática e genocídio de judeus, que eram enviados aos campos de concentração; e, em muitos casos, nunca deixaram estes locais com vida.

Segundo a Enciclopédia do Holocausto, mais de seis milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas e seus aliados nesse período — além de outras milhões de pessoas não-judias —, através de técnicas brutais que iam desde fuzilamento em massa e privações deliberadas, até as câmaras de gás.

Felizmente, em certo ponto as tropas do Eixo foram perdendo para os Aliados — uma coalizão formada pelo Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética —, e os campos de concentração foram libertados um após o outro, permitindo que os judeus não fossem completamente exterminados.

Porém, mesmo com a eventual derrota dos nazistas e demais forças do Eixo — afinal, a Alemanha saiu de jogada com a morte de Hitler, em abril de 1945, mas os japoneses seguiram com a guerra até agosto —, ainda havia males a serem combatidos. Muitos criminosos nazistas da época conseguiram escapar da justiça, mudando de identidade e vivendo em outros lugares do mundo, inclusive por aqui, na América do Sul.

Simon Wiesenthal

Uma figura central na perseguição e captura de nazistas no pós-Segunda Guerra foi Simon Wiesenthal. Nascido no dia 31 de dezembro de 1908 na cidade de Buczacz, no atual território da Ucrânia, ele era judeu e teve uma vida comum em seus primeiros anos, estudou arquitetura e vivia na cidade de Lviv, quando começou a guerra.

Porém, com a chegada do nazismo, foi forçado a trabalhar em campos de concentração durante a guerra, passando pelos campos de Janowska, Kraków-Płaszów e Mauthausen-Gusen. Felizmente, ele conseguiu sair do aprisionamento com vida após a libertação do campo em que estava; e até então ele ainda nem havia iniciado o que o tornou famoso na história.

Isso porque, após a libertação, ele trabalhou para a Seção de Crimes de Guerra do Exército dos Estados Unidos, e em 1947 abriu o Centro de Documentação Histórica Judaica na Áustria. Nas décadas que se seguiram, ele se dedicou principalmente a conscientizar o público sobre a necessidade de caçar e processar os nazistas que conseguiram escapar da justiça, e pressionou governos ocidentais a localizar esses criminosos.

Quando a história olhar para trás, quero que as pessoas saibam que os nazistas não foram capazes de matar milhões de pessoas e escapar impunes”, já disse Simon Wiesenthal.

Simon Weisenthal em seu escritório / Crédito: Getty Images

O enorme empenho de Wiesenthal por rastrear esses criminosos inspiraram vários outros sobreviventes do Holocausto durante décadas e, após uma vida inteira de ativismo, o caçador de nazistas faleceu, de causas naturais, em 20 de setembro de 2005, há exatos 20 anos. Confira a seguir alguns dos principais nazistas que Wiesenthal ajudou a capturar:

1. Adolf Eichmann

Adolf Eichmann durante julgamento / Crédito: Getty Images

O processo de genocídio de judeus foi chamado pelos nazistas de “Solução Final da Questão Judaica“. E um dos arquitetos dessa medida foi o alemão Adolf Eichmann, que atuou como comandante da SS e foi figura de confiança de Hitler. Ele liderou pessoalmente um ataque a escritórios da Comunidade Cultural Judaica e organizou um Escritório Central para a Emigração Judaica.

Após a eclosão da guerra, ele também organizou a primeira tentativa real de deportação em massa do Reich Alemão; o que foi apenas o começo, visto que ele foi responsável pela deportação de milhões de judeus de toda a Europa para centros de extermínio.

Sendo um “peixe grande”, após o fim da guerra Eichmann estava inicialmente sob custódia dos Estados Unidos, mas acabou conseguindo escapar em 1946, e fugiu para a Argentina com a ajuda de autoridades da Igreja Católica. Lá, ele viveu sob vários pseudônimos, dos quais o mais famoso foi Ricardo Klement.

Ele foi encontrado graças às buscas de Wiesenthal e, em 1960, foi sequestrado por agentes do Serviço de Segurança de Israel, que o levaram até o país para ser julgado. O processo chamou grande atenção internacional na época, e em dezembro de 1961 Eichmann foi considerado culpado, e enforcado à meia-noite entre 31 de maio e 1º de junho de 1962.


2. Franz Stangl

Outro criminoso nazista que foi capturado graças a Simon Wiesenthal foi Franz Stangl. Ele foi comandante dos campos de extermínio de Treblinka e Sobibór, na Polônia, e segundo a Enciclopédia do Holocausto até mesmo foi elogiado por seus superiores por fazer “a maior contribuição ao programa de extermínio”.

Após a guerra, ele passou a viver aqui, no Brasil, a partir de 1951, usando inclusive seu próprio nome. Porém, um informante vendeu seu endereço residencial a Wiesenthal em certo momento e, em 1967, ele foi preso ao sair da fábrica automotiva em que trabalhava.

Ele trabalhou durante oito anos na Volkswagen de São Bernardo do Campo, São Paulo, responsável por montar um setor de monitoramento e vigilância — que foi apenas uma fachada para espionar funcionários durante a ditadura militar, segundo revelou a Comissão Nacional da Verdade em 2014.

Um fato curioso é que Stangl teve uma filha, que inclusive teve um relacionamento com Gabriel Waldman, um escritor nascido na Hungria, de família judia e também sobrevivente do Holocausto. Para conhecer mais a história, clique aqui.

Após ser preso, Stangl foi extraditado para a Alemanha Ocidental, e condenado à prisão perpétua pelo assassinato de 400.000 pessoas, após um longo julgamento. No entanto, ele morreu não muito depois, apenas seis meses após a sentença, devido a um ataque cardíaco, no dia 28 de junho de 1971, aos 63 anos.


3. Karl Silberbauer

Uma das vítimas do Holocausto mais conhecidas de todo mundo, cuja história já foi narrada inúmeras vezes — sendo a principal delas em seu próprio diário — foi Anne Frank, uma jovem alemã de origem judia que morreu em fevereiro de 1945, com apenas 15 anos, no campo de extermínio de Bergen-Belsen, e teve o diário publicado postumamente.

A maior tragédia na vida de Anne Frank se deu em 4 de agosto de 1944, quando a SS e a polícia alemã descobriu o esconderijo de Anne Frank, junto a sua família e outros quatro judeus, em um anexo secreto nos fundos dos antigos escritórios da empresa do pai de Anne, Otto Frank, em Amsterdã. Naquele dia, quem chegou ao local para realizar a prisão foi o sargento da SS Karl Silberbauer, acompanhado por outros dois policiais holandeses.

E Karl Silberbauer também foi rastreado após a Segunda Guerra por Wiesenthal. Ele foi preso em Viena, capital da Áustria, em 1963, onde trabalhava como policial. Em uma declaração escrita, na época, ele disse que provavelmente teria se esquecido da prisão de Anne Frank, se o diário não tivesse ficado tão conhecido na posteridade.

Ele foi então levado a julgamento, mas o governo austríaco declarou que a prisão de Anne Frank não justificava a prisão ou julgamento de Silberbauer como criminoso de guerra, e o conselho de revisão policial o exonerou de qualquer culpa oficial. Após isso, ele voltou a trabalhar normalmente na polícia de Viena, e por lá viveu até sua morte, em 1972.


4. Hermine Braunsteiner Ryan

Hermine Braunsteiner enquanto servia nos campos de extermínio nazistas e durante julgamento / Crédito: Domínio Público / Getty Images

Durante os anos da Segunda Guerra, Hermine Braunsteiner Ryan foi responsável por cometer inúmeros horrores em campos de concentração. Ela ficou conhecida por vários prisioneiros por sua crueldade, e era frequentemente referida pelo apelido de “Stomping Mare” (“Égua que pisoteia”, em tradução literal), sendo responsável por matar principalmente mulheres e crianças, deixando as vítimas sem ar pisando em seus pescoços.

No começo de seus trabalhos nos campos de concentração, ela era quem selecionava crianças e mulheres que seriam enviadas às câmaras de gás, e o tempo todo agia com extrema brutalidade. Relatos dizem que ela costumava agarrar crianças pelos cabelos e as jogava nos caminhões que as levariam para a morte certa.

Com o fim da guerra, ela retornou à sua terra natal, Viena, mas a polícia austríaca a prendeu em 1946. Ela foi condenada por tortura, maus tratos e crimes contra a humanidade, mas acabou sendo liberada em 1950, e passou a viver uma vida comum; e até mesmo se casou com um americano chamado Russell Ryan — de quem herdou o sobrenome —, com quem foi viver nos Estados Unidos.

Porém, em 1973, autoridades da Alemanha Ocidental solicitaram sua extradição, acusando-a de ter responsabilidade conjunta pela morte de pelo menos 200.000 pessoas. Ela teve a extradição determinada em 1º de maio de 1973 e, em agosto do mesmo ano, tornou-se a primeira criminosa a atuar na Segunda Guerra a ser extraditada dos Estados Unidos para a Alemanha.

Hermine Braunsteiner foi condenada pela morte de mais de 80 pessoas, além de favorecer o assassinato de 102 crianças, e em 1981 foi sentenciada à prisão perpétua. Eventualmente, devido a problemas relacionados à diabetes, ela precisou amputar uma de suas pernas e, em 1996, foi liberada da prisão feminina de Mülheimer, na Alemanha. Ela faleceu três anos depois, no dia 19 de abril de 1999, aos 79 anos.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.