Museus europeus se recusam a mostrar que os vikings eram mais que saqueadores barbudos
Construção de identidade nacional deixa de lado que os vikings eram mais que saqueadores barbudos; os museus ficam entre a verdade e o mito

Em toda a Europa, mas principalmente na região da Escandinávia, se você encontrar uma exposição de vikings verá grandes embarcações, armas, escudos, armaduras e demais instrumentos de guerras e assaltos. Contudo, mais que saqueadores barbudos, os vikings também eram agricultores, negociantes, cristãos e possuíam classes sociais e econômicas.
Desde o Museu de História Nacional em Copenhague ao novo Museu da Era Viking em Oslo, que será lançado em 2027, todos os principais museus do mundo constroem uma ideia sobre ser viking, que não necessariamente remonta a um passado histórico. Mas sim, à imaginação dos historiadores e estadistas dos últimos 2 séculos que queriam construir uma identidade nacional.
Assim, em vez de que mostrar as ferramentas de campo, as trocas comerciais com os muçulmanos, entre outras questões, os museus se restringem a mostrar saqueadores barbudos que creem em um panteão específico e pouquíssimo diverso.
Mais que saqueadores barbudos
Diferentemente do que se imagina, os povos vikings são muito mais do que homens altos, de ombros largos, com corte de cabelo moderno, tatuagens e sempre equipados para a guerra. Na verdade, muitos dos verdadeiros indivíduos da Escandinávia podiam morrer sem pegar numa espada, visto que tinham mais aptidão para o campo.
Não obstante, ainda perdura a imagem de uma sociedade em que somente os homens batalhavam nas guerras, sendo as mulheres relegadas a meras escudeiras ou assistentes. Contudo, há resquícios arqueológicos mais que suficientes para provar que as mulheres vikings estavam na frente do campo de batalha também.
Nas exposições da Escandinávia, nos deparamos com mitos, deuses nórdicos, espadas e navios. Ou seja, aquilo que se construiu e se popularizou dos vikings. Apenas nos cantos, em descrições menores, se pode ver explicações de vikings passando os dias trabalhando na terra.
Embora realmente tenha sido um grupo que tenha feito assaltos em toda a Europa, a imagem que se construiu se assemelha em muito àquela tida pelos reis feudais, de povos exóticos, pagãos, bárbaros e sujos.
O período que conhecemos
Assim, pouco se fala sobre a importância dos muçulmanos nos processos de troca e comércio com os vikings, sobre como as culturas se misturaram. Ou então sobre a cristandade de muitos desses reinos. Por exemplo, ainda que Harald Bluetooth tenha construído um reinado, seu neto Canuto, o Grande, se converteu ao cristianismo. Ou seja, a era “viking” pagã, durou muito pouco.
Desse modo, o que conhecemos sobre os vikings é uma extensão e construção de um mundo que na realidade não passou de 70 anos. De qualquer maneira, os museus vivem em um dualismo entre o que aconteceu e o que as pessoas querem ver. Ao mesmo tempo que se esforçam para mostrar que a “identidade viking” era muito mais complexa do que conhecemos.
Conforme a revista Phys, a frequente aparição dessas conceituações e imagens nos museus se pauta na “ânsia de apresentar representações do passado que têm mais a ver com o estado atual da sociedade do que com o que se sabe sobre o mundo viking”.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes