Vikings derretiam moedas do Islã para criar o próprio dinheiro
Pesquisa revela que as primeiras peças de prata nórdicas vinham da reciclagem de moedas árabes trazidas por rotas de comércio globais

Um estudo recente publicado na revista científica Archaeometry trouxe à tona uma descoberta fascinante sobre a economia da Era Viking na Dinamarca. Os pesquisadores identificaram que a prata usada para fabricar as primeiras moedas nórdicas não era extraída de minas locais, mas sim obtida através do derretimento de moedas vindas do distante mundo islâmico.
Essa descoberta prova que os vikings estavam conectados a redes comerciais de longa distância, reciclando metais preciosos do Oriente para estabelecer seu próprio sistema monetário na cidade de Ribe, que era um importante centro comercial da época.
O tesouro de Damhus
A evidência para essa conclusão veio do chamado tesouro de Damhus, um conjunto de 226 moedas encontrado em 2018 na Península da Jutlândia. Datadas entre os anos 830 e 850 d.C., essas peças são alguns dos exemplos mais antigos de moedas vikings conhecidos até hoje.
O arqueólogo Thomas Birch, que atua como pesquisador no Museu Nacional da Dinamarca, explicou ao Live Science que, embora sejam chamadas tecnicamente de “pennies” ou centavos, elas possuíam um valor de compra muito alto no século 9, sendo suficientes para adquirir produtos essenciais como ferramentas ou alimentos.
Tecnologia e química avançada
Para desvendar a origem exata do metal, os cientistas utilizaram a técnica de fluorescência de raios X para analisar os isótopos de prata presentes nas peças. Conforme o estudo liderado por Birch, os resultados indicaram que mais da metade da composição de várias moedas vinha de “dirhams”, que eram as moedas de prata padrão do mundo islâmico na Idade Média.
O processo envolvia derreter essas moedas estrangeiras em grandes potes para criar lingotes de prata, que depois eram batidos com moldes para criar as novas moedas nórdicas com símbolos locais.
Deuses e símbolos nórdicos
As moedas produzidas em Ribe exibiam símbolos culturais fundamentais para os povos escandinavos da época. Em um dos lados, as peças mostram uma face estilizada que representa Odin, a principal divindade da mitologia nórdica, enquanto o outro lado retrata a figura de um cervo.
A produção em larga escala dessas peças demonstra como o fluxo de prata islâmica foi vital para sustentar a economia viking muito antes da unificação da Dinamarca por Harald Bluetooth, o rei famoso por converter os dinamarqueses ao cristianismo.
*Sob supervisão de Éric Moreira