Estudo sobre o cachorro fantasma da Amazônia revela segredos da espécie
Pesquisa de duas décadas consolida milhares de registros do enigmático animal que depende de florestas preservadas para sobreviver na selva profunda

O cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis), popularmente apelidado de cachorro fantasma devido ao seu comportamento esquivo, teve sua ecologia detalhada em um levantamento científico sem precedentes.
Após 23 anos de monitoramento contínuo na Amazônia, pesquisadores consolidaram um acervo de 4.635 imagens capturadas por armadilhas fotográficas escondidas na selva. O estudo, que representa a maior coleção de registros já reunida para a espécie, revela hábitos diurnos e a dependência absoluta de matas virgens para a sobrevivência deste que é um dos canídeos mais raros do planeta.
Registros de décadas
Conforme o estudo publicado na revista científica Neotropical Biology and Conservation, a análise foi liderada pelo biólogo Robert Wallace, da Wildlife Conservation Society. Entre os anos de 2001 e 2024, a equipe realizou 34 levantamentos intensivos que resultaram em 594 aparições independentes do animal em áreas remotas da Bolívia e do Peru.
Robert Wallace explica que o uso de tecnologia remota foi essencial para coletar dados substanciais sobre uma espécie que até então era cercada por mitos e avistamentos esporádicos, permitindo mapear sua distribuição com precisão inédita.
Adaptações na selva
As fotografias confirmam características físicas singulares, como as patas parcialmente palmadas, uma adaptação única entre canídeos amazônicos que facilita o deslocamento em áreas úmidas e margens de rios. Outra revelação importante diz respeito ao padrão de atividade, pois os dados mostram que o animal é predominantemente diurno, com 72% dos registros ocorrendo durante o dia.

A pesquisadora Renata Leite Pitman, da Universidade Duke, que estuda a espécie há 14 anos, destaca que a timidez extrema do animal e sua preferência por matas fechadas explicam a dificuldade histórica de detecção por humanos.
Proteção do habitat
A sobrevivência do cachorro fantasma está intrinsecamente ligada à manutenção de florestas de terra firme e áreas não alagadas. De acordo com o biólogo Hugo Costa, que realizou um flagrante raro da espécie no Amazonas, o canídeo evita estritamente áreas degradadas ou com presença humana, repercute o g1.
A pesquisa reforça que territórios indígenas e unidades de conservação são refúgios fundamentais para a manutenção de populações viáveis. O veterinário Marco Greminger, da Universidade Autônoma de Beni, ressalta que a proximidade com zonas urbanas traz riscos como doenças transmitidas por cães domésticos, tornando a preservação de grandes blocos de vegetação ainda mais urgente.
*Sob supervisão de Éric Moreira