Katharine: Teatro Itália recebe releitura de ‘O Médico e o Monstro’

Uma releitura contemporânea de clássico literário, "Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" propõe reflexão sobre abuso, moralidade e relações de poder no Teatro Itália

Imagem de divulgação de 'Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde' q Crédito: Divulgação

O clássico literário “O Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson, ganha uma releitura contemporânea nos palcos paulistanos com a estreia de “Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde”. O espetáculo inicia temporada no Teatro Itália, no centro de São Paulo, com apresentações aos sábados, às 23h, entre 6 de junho e 25 de julho.

Com dramaturgia assinada por Conrado Paladini e direção de Helena Coutinho, a montagem utiliza como ponto de partida a obra do escritor escocês para discutir temas relacionados às contradições humanas, às relações de poder e aos comportamentos coletivos. A proposta desloca o foco da tradicional oposição entre bem e mal para uma análise das dinâmicas sociais que moldam desejos, violências e formas de convivência.

Detalhes da trama

No palco, a trama se desenvolve a partir da relação entre Katharine, interpretada por Beá Pacheco, e o Dr. Jekyll, personagem vivido por Conrado Paladini, que também assume a figura do Sr. Hyde ao longo da encenação. A narrativa apresenta uma sociedade marcada por hipocrisia, jogos de poder e conflitos que atravessam as relações humanas.

Segundo Paladini, a discussão sobre a dualidade humana permanece atual. “A dualidade é uma das questões mais humanas que existem, por isso está na montagem. Jekyll e Hyde não interessam apenas como figuras fantásticas, mas como expressão de algo que ainda vemos todos os dias: pessoas tentando separar aquilo que mostram daquilo que escondem”, afirma o autor e ator.

Ao longo da história, a peça procura mostrar que os comportamentos violentos e abusivos não surgem apenas de indivíduos isolados, mas também de estruturas sociais que contribuem para sua manutenção. Em vez de tratar a divisão entre bem e mal como um confronto entre extremos opostos, o espetáculo propõe observá-la como um elemento presente na própria condição humana.

A personagem-título é interpretada por Beá Pacheco, que assume o papel nesta temporada após apresentações experimentais realizadas anteriormente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Para Helena Coutinho, a construção da protagonista busca fugir de arquétipos frequentemente associados a personagens femininas.

“Ela foge das simplificações que passaram a dominar personagens femininas. Ela não é a guerreira idealizada que transforma dor em romantização, nem a super-heroína irreal que não precisa de ninguém, não teme, não cai e não deseja ser amparada. Também não é uma figura fraca, passiva ou condenada ao papel de vítima. Katharine é real. Ela sofre, erra, deseja, teme, manipula, resiste e atravessa o inferno sem permitir que aquilo que fizeram com ela determine quem ela é”, explica a diretora.

Vale mencionar que a montagem apresenta cenas de nudez, linguagem verbal explícita, discursos de ódio inseridos em contexto dramático e simulação de violência sexual. Por abordar diretamente questões ligadas a poder, vulnerabilidade e violência nas relações humanas, o espetáculo recebeu classificação indicativa para maiores de 16 anos.

A proposta artística busca provocar o público por meio de situações desconfortáveis, sem oferecer respostas definitivas para os conflitos apresentados. A encenação adota uma abordagem dramática e naturalista, com foco na construção dos personagens, na atmosfera cênica e na intensidade das interpretações.

Além da direção, Helena Coutinho responde pela produção geral da montagem, pelo trabalho corporal e vocal dos atores e pela coordenação das equipes envolvidas no projeto. A diretora divide a criação do espetáculo com Conrado Paladini por meio da produtora Coutinho & Paladini, fundada pelos artistas há sete anos para desenvolver montagens autorais.

O modelo de trabalho adotado pela dupla concentra diferentes etapas do processo criativo, incluindo dramaturgia, direção, figurino, cenografia e concepção estética. Em “Katharine”, Paladini acumula as funções de autor e intérprete, acompanhando também o desenvolvimento artístico da produção.

Para Helena Coutinho, o espetáculo também propõe uma reflexão sobre a construção dos valores morais na sociedade contemporânea. “A peça toca em uma questão cada vez menos percebida: ser bom não é fácil. A virtude não é um estado natural nem uma aparência pública, mas uma escolha difícil, construída no conflito entre desejo, culpa, medo, caráter e responsabilidade. Nossos valores não nascem prontos, precisam ser moldados, trabalhados e colocados à prova ao longo da vida. Em um tempo em que o amoral muitas vezes parece ter se tornado regra, a peça nos lembra que a bondade verdadeira exige esforço, consciência e enfrentamento de si”, analisa a diretora.

Inspirado na estrutura narrativa de “O Médico e o Monstro”, o espetáculo utiliza a relação entre Katharine, Dr. Jekyll e Sr. Hyde para examinar questões ligadas à identidade, à violência e aos mecanismos sociais que influenciam o comportamento humano. A proposta procura transformar a figura do monstro em uma ferramenta para observar contradições presentes na própria sociedade, convidando o público a refletir sobre suas próprias escolhas e responsabilidades.

Informações e serviço

Com duração de 100 minutos, “Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde” será apresentado aos sábados, às 23h, no Teatro Itália, localizado na Avenida Ipiranga, 344, na região da República, em São Paulo.

Os ingressos podem ser comprados online pelo Sympla (clicando aqui). Para mais informações, o contato nas redes sociais é @katharine_jekyllandhyde.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.