Mito ou história? O templo dedicado a Odisseu descoberto em Ítaca, na Grécia
Escavações em Ítaca, na Grécia, revelaram uma antiga estrutura dedicada a Odisseu, herói de "A Odisseia", que agora ganha nova adaptação para o cinema

Nesta quinta-feira, 16 de julho, chega aos cinemas brasileiros o tão aguardado novo filme de Christopher Nolan, “A Odisseia”.
O longa revive nas telonas a saga de Odisseu, o astuto rei de Ítaca que levou duas décadas para retornar ao lar após a Guerra de Troia, enfrentando provações e a ira divina, criaturas mitológicas e o teste constante de sua própria sanidade, para retornar à Ítaca e à Esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco. Veja o trailer:
Contudo, enquanto a ficção científica e o drama psicológico de Nolan redefinem o épico de Homero para as novas gerações, descobertas arqueológicas recentes no mundo real trazem à tona um debate milenar: até que ponto o herói grego existiu fora das páginas da literatura antiga?
Arqueólogos que trabalham na própria ilha de Ítaca, na Grécia, divulgaram nos últimos anos que acreditam ter identificado as ruínas do antigo Santuário de Odisseu. As escavações no topo de um mirante à beira-mar revelaram uma complexa estrutura que inclui dois terraços, uma torre, nascentes naturais e escadarias monumentais esculpidas na encosta da montanha.
O achado, realizado por pesquisadores da Universidade de Ioannina com o apoio do Ministério da Cultura da Grécia, promete lançar nova luz sobre a relação dos antigos gregos com as narrativas homéricas, como a própria Odisseia.
Enigma da “Escola de Homero”
A possível localização do santuário — batizado historicamente como Odysseion — fica no sítio arqueológico conhecido popularmente como “Escola de Homero“, situado nas encostas orientais de Exogi, no norte de Ítaca. O local recebe esse nome devido à sua proximidade geográfica com pontos que a tradição local associa intimamente às andanças e à corte do rei Odisseu.
Embora as escavações na região ocorram desde a década de 1990, os trabalhos de campo ganharam forte intensidade a partir de 2018. Inicialmente, o interesse acadêmico pelo local concentrava-se nas imponentes ruínas da era micênica (datadas aproximadamente entre os séculos 14 e 13 a.C.), período em que a Guerra de Troia teria ocorrido.
No local, os arqueólogos já haviam mapeado muralhas defensivas, uma cisterna subterrânea para captação de água das nascentes locais e as fundações de um edifício de grande porte que se assemelhava a um palácio da Idade do Bronze. Contudo, as escavações mais recentes revelaram que o significado daquele topo de montanha ia muito além de uma simples residência ou fortificação militar.

Culto ao herói lendário
A grande reviravolta na pesquisa científica veio com a identificação de estruturas e artefatos de períodos posteriores. Durante o período helenístico, por volta do século 3 a.C., os terraços naturais do terreno foram drasticamente reestruturados por meio de engenharia civil complexa, com a adição de escadarias de pedra e uma imponente torre. Mas foram as descobertas epigráficas que consolidaram a hipótese de um espaço de adoração.
Os arqueólogos encontraram diversas telhas de argila no terraço inferior que traziam inscrições em grego antigo contendo as expressões ΟΔΥCCEOC (“de Odisseu”) e ΟΔΥCCEI (“a Odisseu”). Para os historiadores, essas gravações são indícios claros de que a estrutura funcionava como um santuário oficial de peregrinação.
Essa teoria ganhou ainda mais força com a descoberta de um busto em miniatura feito de bronze, cujos traços estilísticos se assemelham fortemente às representações de Odisseu cunhadas em moedas antigas de Ítaca.

Além disso, junto à estatueta, foram desenterrados dezenas de fragmentos de oferendas votivas, pesos de tear, fusos e mais de cem moedas que datam do período helenístico até o início do domínio romano, atestando que o local recebeu visitantes e devotos de diversas partes do Mediterrâneo ao longo de séculos, repercute o All That’s Interesting.
Limiar entre literatura e realidade
As evidências de que Odisseu era alvo de veneração religiosa na Antiguidade não são inteiramente novas. Na década de 1930, pesquisadores já haviam encontrado fragmentos de uma máscara de argila com a inscrição “Obrigado, Odisseu” em uma caverna na vizinha Baía de Polis. No entanto, a identificação de um templo formal e estruturado na “Escola de Homero” eleva o debate a um novo patamar científico.
Apesar do entusiasmo que a descoberta gera entre entusiastas da mitologia, os pesquisadores alertam que os artefatos encontrados não comprovam que o herói da Ilíada e da Odisseia tenha sido uma pessoa de carne e osso. Não há, até o momento, registros biográficos contemporâneos à Idade do Bronze que atestem sua existência histórica individualizada.

O que as ruínas do Odysseion revelam, de forma contundente, é o poder da literatura na Antiguidade. A figura de Odisseu era tão marcante para a identidade cultural grega que sua projeção literária ultrapassou as barreiras da ficção para se consolidar como um culto religioso real.
Para os antigos peregrinos que subiam a montanha em Ítaca, o astuto rei não era apenas um personagem de poema, mas uma divindade local ativa, um padroeiro cívico e um símbolo máximo de resiliência humana diante das adversidades do destino.