Nova espécie de macaco com lábios alaranjados é descoberta em floresta no Congo
Identificado na República Democrática do Congo, o Colobus congoensis se destaca por possuir lábios alaranjados e emitir rugidos característicos

Pesquisadores identificaram uma nova espécie de macaco nas florestas tropicais da República Democrática do Congo (RDC). Batizado cientificamente de Colobus congoensis, o primata chama a atenção pela coloração alaranjada ao redor da boca e do nariz, além de emitir vocalizações compostas por rugidos profundos e sons semelhantes a bufos. A descrição oficial da espécie foi publicada em 15 de julho na revista PLOS One.
Segundo os cientistas, trata-se de apenas a quinta nova espécie de macaco descoberta na África nos últimos 75 anos. A descoberta também reforça a possibilidade de que outras espécies de primatas ainda permaneçam desconhecidas nas florestas da região.
“Isso é notável porque não é muito comum hoje em dia encontrar uma nova espécie de primata nunca antes documentada, muito menos uma espécie de macaco relativamente grande”, afirmou Joshua Linder, antropólogo, presidente e cofundador do The Forest Collective, organização voltada à conservação e restauração de florestas tropicais.
Descoberta
Os primeiros registros do animal ocorreram em 2008, quando ambientalistas fotografaram um macaco desconhecido no Parque Nacional de Lomami, embora parte do corpo estivesse encoberta. Anos depois, em 2018, um novo vídeo mostrou um primata semelhante, levando o pesquisador Junior Amboko, do Parque Nacional de Lomami e da Universidade Atlântica da Flórida, a iniciar uma série de expedições para localizar o animal.
Além das buscas em campo, os pesquisadores apresentaram fotografias da espécie para moradores de 52 aldeias próximas ao parque. Apenas habitantes de oito comunidades reconheceram o macaco, principalmente caçadores pertencentes ao grupo étnico Balanga.
“Essas pessoas realmente conhecem a fauna e a flora da floresta”, explicou Amboko ao Live Science. “Em apenas oito aldeias, as pessoas conheciam o macaco — e esses eram caçadores, que sabem o valor econômico dos animais ou quanta comida cada animal pode fornecer, mas mesmo eles não sabiam muito.”
Entre os Balanga, o primata é conhecido como “likweli”, embora o significado do nome permaneça desconhecido. Já em comunidades da região de Mituku, ele recebe a denominação “kasaba nkoni”, expressão que significa “aquele que sacode os galhos”, em referência ao modo como esses macacos se deslocam rapidamente entre as árvores.
Entre 2018 e 2022, a equipe registrou 114 avistamentos da espécie em uma área estimada de aproximadamente 1.700 quilômetros quadrados, localizada entre os rios Lomami e Lualaba. Os animais foram observados vivendo em grupos que variavam de um a vinte indivíduos.

Colobus congoensis
O Colobus congoensis possui pelagem predominantemente preta, contrastando com a pele alaranjada exposta ao redor da boca e do nariz e uma área acinzentada nas maçãs do rosto, que lembra uma máscara. Outra característica marcante é uma mancha de pelos brancos próxima ao ânus.
“Estamos considerando o rosto e a garupa como as duas características distintivas”, explicou a antropóloga Kate Detwiler, da Universidade Atlântica da Flórida. “Se você olhar para o rosto, verá essa pele nua única, de cor creme alaranjada. E se você olhar por trás, verá essa mancha branca.”
Os pesquisadores também destacaram que as vocalizações ajudam a diferenciar a espécie de outros macacos do gênero Colobus.
A confirmação de que se tratava de uma espécie inédita veio após análises genéticas realizadas a partir de amostras coletadas de animais abatidos por caçadores e destinados ao comércio ilegal de carne de caça. O DNA foi comparado com registros genéticos, crânios, dentes e peles preservados em coleções científicas e museus.
“Meu laboratório recebeu a amostra de tecido e realizou a análise genética, e ficamos chocados com o quão divergente era a área chave do genoma mitocondrial em comparação com outros macacos colobus”, afirmou Detwiler.
Embora compartilhe habitat com o colobo-de-angola (Colobus angolensis), a nova espécie revelou ter parentesco mais próximo com o colobo-preto (Colobus satanas), encontrado cerca de 1.200 quilômetros a oeste, em Camarões, Gabão e na Ilha de Bioko.
“O fato de os resultados mostrarem que o parente vivo mais próximo dessa nova espécie é o colobo-preto, localizado a 1200 km de distância, na África Ocidental, é igualmente notável”, observou Linder.
Com base nas análises genéticas, os pesquisadores estimam que essas duas espécies tenham se separado entre 5,78 milhões e 3,44 milhões de anos atrás, representando a maior divergência conhecida dentro do gênero Colobus.
A descoberta está reformulando nossa compreensão da evolução dos macacos africanos”, afirmou Detwiler.
Considerando sua distribuição geográfica restrita, o baixo número de registros e a crescente perda de habitat, os autores defendem que o Colobus congoensis seja classificado como espécie em perigo na Lista Vermelha da IUCN.
A descoberta também reforça a importância do Parque Nacional de Lomami para a conservação da biodiversidade. O local já havia se destacado anteriormente pela identificação do lesula (Cercopithecus lomamiensis), outro macaco descrito pela ciência em 2012.
Para Amboko, a floresta tropical congolesa, considerada a segunda maior floresta tropical do planeta, ainda pode esconder muitas espécies desconhecidas. “É um paraíso para a biodiversidade”, afirmou o pesquisador, acrescentando: “Se conseguirmos descobrir duas novas espécies de primatas, quem sabe quantas outras espécies de mamíferos, peixes, répteis ou plantas podem existir?”