Macacos estão se automedicando para digerir comida dos turistas em ilha
Convivência com visitantes alterou profundamente o padrão alimentar dos macacos-de-gibraltar, que agora estão se "automedicando" para amenizar os efeitos dos ultraprocessados

No alto do Rochedo de Gibraltar, um dos destinos turísticos mais conhecidos da Península Ibérica, um comportamento aparentemente simples tem despertado a atenção de cientistas: macacos selvagens consumindo terra.Essa prática, chamada de geofagia, pode funcionar como uma estratégia de sobrevivência diante de uma dieta cada vez mais influenciada pela ação humana.
Um estudo conduzido pela Universidade de Cambridge e publicado na revista Scientific Reports sugere que esses primatas estão, na prática, se “automedicando” para amenizar os efeitos de alimentos ultraprocessados obtidos com turistas, seja por oferta direta ou por furtos.
Os macacos-de-gibraltar (Macaca sylvanus), vale destacar, tradicionalmente se alimentam de folhas, sementes, ervas e insetos. No entanto, a convivência intensa com visitantes alterou profundamente esse padrão alimentar.
Hoje, itens como chocolates, salgadinhos, sorvetes e biscoitos passaram a fazer parte relevante da dieta desses animais. Estima-se que produtos ultraprocessados correspondam a cerca de 18,8% do consumo diário. “O que eles estão comendo agora é extremamente rico em calorias, açúcar, sal e laticínios”, explica o antropólogo biológico Sylvain Lemoine, responsável pela pesquisa, segundo o portal Galileu. “Isso é completamente diferente dos alimentos normalmente consumidos pela espécie.”
Essa mudança traz consequências fisiológicas importantes. O excesso de açúcar e gordura pode afetar a microbiota intestinal e provocar problemas digestivos, como náuseas e diarreia.
É nesse cenário que a geofagia ganha sentido. O estudo registrou, em média, 12 episódios semanais de ingestão de terra, um número elevado, comparável ao observado em outros primatas que utilizam essa prática para neutralizar toxinas ou complementar nutrientes.
Segundo os pesquisadores, o solo ingerido fornece minerais e microrganismos benéficos ausentes nos alimentos industrializados, além de formar uma espécie de barreira protetora no sistema digestivo. Os dados indicam que os macacos recorrem à terra de forma deliberada para compensar os impactos negativos da dieta artificial. “Nossos resultados corroboram essa hipótese de proteção”, afirma Lemoine. “O solo ingerido atua como uma barreira no trato digestivo, limitando a absorção de compostos nocivos. Isso pode aliviar sintomas gastrointestinais.”
Um comportamento social
Mais do que uma resposta biológica, o comportamento também parece ter se tornado social. Em cerca de 89% dos casos observados, outros indivíduos estavam presentes, e quase um terço das ocorrências envolvia consumo coletivo de terra. Além disso, diferentes grupos demonstram preferências por tipos específicos de solo, sugerindo o surgimento de tradições locais. “O surgimento desse comportamento nos macacos é tanto funcional quanto cultural”, observa o pesquisador.
Os dados revelam ainda uma forte relação entre presença humana e geofagia. Macacos que vivem em áreas com maior fluxo turístico têm 2,5 vezes mais probabilidade de consumir alimentos inadequados e concentram mais de 70% dos episódios de ingestão de terra.
Durante o verão — o período de maior visitação — tanto o consumo de ultraprocessados quanto a geofagia aumentam significativamente. Já grupos com pouco ou nenhum contato com turistas não apresentam esse comportamento.
Para os cientistas, Gibraltar funciona como um verdadeiro “laboratório natural” para estudar os impactos da presença humana na vida selvagem. A diversidade de interações entre turistas e diferentes grupos de macacos oferece uma oportunidade única para compreender como ambientes modificados pelo homem influenciam comportamento e cultura animal.
Um ciclo preocupante
Os macacos são um símbolo local e uma das principais atrações do território. Apesar das proibições, muitos visitantes continuam a alimentá-los — ou acabam tendo comida roubada —, perpetuando um ciclo preocupante: quanto maior a dependência de alimentos humanos, maiores os danos fisiológicos e maior a necessidade de compensação comportamental, como a ingestão de terra.
Embora a geofagia possa trazer algum alívio, ela também evidencia um desequilíbrio mais profundo. Ao ajustar seus hábitos para lidar com uma dieta artificial, os macacos de Gibraltar expõem não apenas sua capacidade de adaptação, mas também o alcance da influência humana sobre ecossistemas aparentemente preservados — transformando um comportamento curioso em um alerta sobre os efeitos silenciosos do turismo na fauna selvagem.