Matérias / A Guerra de Todos

Aussies: o papel da Austrália na Segunda Guerra Mundial

Austrália foi protagonista em campanhas no Pacífico, Norte da África e Europa, sofreu ataques em seu território conviveu com tensões entre aliados

Austrália Segunda Guerra capa
Ataque australiano na praia de Balikpapan, em Bornéu (1945) - Getty Images

A Austrália desempenhou um dos papéis mais abrangentes entre os países aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Integrante da Commonwealth e governada à época pelo primeiro-ministro John Curtin, do Partido Trabalhista, a nação mobilizou suas Forças Armadas em diferentes frentes de combate, apoiou logisticamente os Aliados, fortaleceu sua produção agrícola e industrial e ainda precisou defender seu próprio território da expansão japonesa no Pacífico.

Conhecidos como Diggers — apelido herdado da Primeira Guerra Mundial devido à habilidade na construção de trincheiras —, os militares australianos participaram de algumas das campanhas mais importantes do conflito. Além de recrutar e treinar soldados oriundos de pequenas ilhas da Oceania, o país enviou tropas para diversos teatros de operações.

A campanha da Austrália

No Pacífico, os australianos estiveram presentes em combates em Nova Bretanha, Salamaua-Lae, na Trilha de Kokoda e em outras regiões da Papua-Nova Guiné, onde registraram seu maior volume de enfrentamentos. Também participaram das batalhas das Ilhas Salomão, incluindo os três confrontos em Guadalcanal, além de operações em Timor-Leste, Mar de Java, Filipinas, Japão, Mar de Coral, Amboino, Estreito de Sunda, Maluku, Palimbao, Península de Huon e Midway. A atuação estendeu-se ainda ao Oceano Índico, especialmente durante a Batalha de Madagascar.

Na frente africana, soldados australianos combateram o Afrika Korps alemão comandado por Erwin Rommel. A participação incluiu a longa Batalha de Tobruk, em 1941, além das campanhas de El Alamein, no Egito, e da Tunísia. Paralelamente, a Austrália manteve um importante sistema de abastecimento para as forças aliadas espalhadas pelo mundo.

Oficiais australianos em inspeção de tanque – Getty Images

Apesar da intensa atuação ofensiva, o país também foi alvo direto da guerra. O episódio mais marcante ocorreu em 19 de fevereiro de 1942, quando Darwin, importante porto no norte australiano, sofreu o maior ataque aéreo já realizado contra o território nacional.

Temendo que a cidade representasse um obstáculo para as operações japonesas no Sudeste Asiático, o almirante Isoroku Yamamoto autorizou o envio de uma poderosa força aérea composta por 188 aeronaves, número superior ao utilizado no ataque a Pearl Harbor. Sob comando de Mitsuo Fuchida, os japoneses receberam a missão de destruir as instalações portuárias, afundar embarcações e comprometer toda a infraestrutura militar da cidade.

O bombardeio afundou oito navios, entre eles o destróier americano USS Peary, danificou outras 35 embarcações e provocou cerca de 250 mortes entre civis e militares, além de aproximadamente 400 feridos. Segundo o relato apresentado na obra, o governo australiano ocultou inicialmente a dimensão das perdas para evitar pânico na população e também porque não teria respondido adequadamente aos alertas prévios vindos das ilhas Melville e Bathurst.

Darwin continuaria sendo bombardeada ao longo de 1942 e 1943, embora a Real Força Aérea Australiana (RAAF) tenha obtido sucessos defensivos, como a interceptação de uma formação japonesa na qual derrubou 14 aeronaves inimigas utilizando caças Spitfire.

Problemas internos

Entretanto, os desafios australianos não se limitaram aos confrontos contra o Japão. A presença de centenas de milhares de soldados americanos no país gerou crescentes tensões entre os dois aliados. Diferenças salariais, acesso privilegiado dos militares dos Estados Unidos a bens de consumo, maior poder aquisitivo e disputas pela atenção das mulheres australianas alimentaram ressentimentos entre as tropas.

Esses atritos culminaram no episódio conhecido como “Batalha de Brisbane“, em novembro de 1942. Embora versões populares tenham difundido histórias envolvendo soldados australianos retornando feridos e confrontando americanos por causa de mulheres locais, o texto aponta que o conflito teve origem após australianos tentarem invadir uma loja militar americana (PX), sendo impedidos por soldados dos Estados Unidos. A situação deteriorou inclusive a relação entre os generais Douglas MacArthur e Thomas Blamey.

As disputas políticas e estratégicas prosseguiram até o fim da guerra. Segundo o texto, MacArthur excluiu forças britânicas e australianas da campanha de reconquista das Filipinas em 1944 para garantir protagonismo exclusivamente americano, enquanto Reino Unido e Austrália buscavam preservar sua influência diante da crescente liderança dos Estados Unidos no pós-guerra.

Além da atuação militar, a Austrália destacou-se pelo apoio econômico aos Aliados. O país tornou-se o terceiro maior exportador mundial de produtos agropecuários durante o conflito, respondendo por cerca de 9% das exportações globais do setor, impulsionado principalmente pela produção de trigo, milho e carnes. Também ocupou a terceira posição mundial nas exportações de carne, com participação de aproximadamente 15% do mercado, além de figurar como o sétimo maior importador de petróleo para sustentar sua frota aérea e naval.

Outra característica marcante foi o tratamento dispensado aos prisioneiros de guerra. Mais de 2.200 japoneses, além de marinheiros mercantes japoneses, alemães e italianos capturados, receberam alimentação adequada, assistência médica, roupas para o inverno e incentivo à prática de exercícios físicos. Esse tratamento permaneceu inalterado mesmo após a divulgação das condições extremamente precárias enfrentadas pelos cerca de 21 mil australianos presos pelos japoneses, dos quais mais de 8.200 morreram em cativeiro.

O esforço australiano teve um elevado custo humano. Em uma população estimada em sete milhões de habitantes, aproximadamente 39 mil pessoas morreram durante a guerra, entre militares e civis. As perdas refletiram a amplitude da participação do país em operações realizadas muito além de suas fronteiras, consolidando a Austrália como uma das nações aliadas mais ativas e comprometidas ao longo do conflito.


++ Saiba mais detalhes deste período histórico na coleção apresentada por Aventuras na História: “A Guerra de Todos”. Dividida em oito livros escritos pelo jornalista Edgardo Martolio, a coletânea ajuda a entender a magnitude do conflito e também conta tudo aquilo que ainda pouco conhecemos da Segunda Guerra Mundial.
O primeiro livro da coleção “A Guerra de Todos”, com o título “O Eixo: Agressores, Iludidos e Anexados” já está em pré-venda. Mais detalhes clicando aqui!