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O papel da África do Sul e o paradoxo do Apartheid na Segunda Guerra

Aliada do Reino Unido, a África do Sul forneceu recursos estratégicos, enquanto sua história foi marcada pela segregação racial

África do Sul Apartheid
Protesto na África do Sul na era do apartheid - Getty Images

A então chamada União da África do Sul, independente do Reino Unido desde 1931 e integrante da Commonwealth, foi uma das primeiras nações a declarar guerra à Alemanha nazista após a invasão da Polônia, em setembro de 1939. Alinhado à decisão britânica, o país ingressou oficialmente no conflito uma semana depois do início da guerra e passou a desempenhar um papel estratégico para os Aliados, apesar de jamais ter sido invadido ou bombardeado pelas forças do Eixo.

A participação sul-africana tinha raízes em uma relação conflituosa com a Alemanha desde a Primeira Guerra Mundial. Em 1915, tropas do país ocuparam o então Sudoeste Africano Alemão, atual Namíbia, território que permaneceu sob administração sul-africana por mandato da Liga das Nações até conquistar sua independência, em 1990.

Grande parte da influência política e militar da África do Sul durante a guerra esteve associada à figura de Jan Christiaan Smuts. Filósofo, marechal de campo do Império Britânico e duas vezes primeiro-ministro sul-africano, Smuts tornou-se um dos principais conselheiros de Winston Churchill ao longo do conflito. Segundo seu biógrafo, Roots Waverley, sua influência dentro da Commonwealth superava, em muitos momentos, a de diversos políticos britânicos.

Smuts também participou do Gabinete de Guerra Imperial e teve papel relevante na consolidação da Força Aérea Real (RAF). Sua proximidade com Churchill era tamanha que existia um plano, aprovado pelo rei George VI, para que ele assumisse o cargo de primeiro-ministro britânico caso Churchill morresse ou ficasse incapacitado durante a guerra.

Reconhecido por sua capacidade estratégica e por seus estudos sobre o conceito de holismo, Smuts também despertava admiração em outros campos do conhecimento. Albert Einstein chegou a afirmar que ele era um dos poucos homens capazes de compreender plenamente os fundamentos conceituais da Teoria da Relatividade. Embora tenha apoiado a política de apartheid em seus primórdios, há interpretações históricas de que nunca concordou com o grau de rigidez e severidade que o sistema alcançou após sua implementação oficial.

A África do Sul na guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, a União Sul-Africana mobilizou cerca de 300 mil militares, dos quais aproximadamente 11 mil morreram em combate. O país organizou três divisões de infantaria e uma divisão blindada, a 6ª Divisão, que atuaram principalmente nas campanhas do Norte da África e da Itália, incluindo a decisiva Segunda Batalha de El Alamein. A maior parte dos soldados foi incorporada à Oasis Force, composta exclusivamente por militares classificados como não europeus e não canadenses.

As forças sul-africanas também participaram da campanha de Madagascar, em 1942, e sofreram uma de suas maiores perdas durante o cerco de Tobruk, na Líbia, quando a maior parte da 2ª Divisão foi capturada pelas tropas do Eixo. Paralelamente, o país desempenhou importante papel na formação de aviadores da Commonwealth, treinando 33.347 integrantes para a Royal Air Force britânica — número inferior apenas ao registrado pelo Canadá.

Outro aspecto decisivo da contribuição sul-africana foi sua capacidade industrial e mineral. Como maior produtor mundial de cromo na época, o país forneceu aproximadamente 1,4 milhão de toneladas do minério durante os cinco anos da guerra. O material era essencial para a fabricação de aço inoxidável utilizado em motores aeronáuticos, fuselagens, trens de pouso, blindados e armamentos, abastecendo especialmente a indústria bélica dos Estados Unidos.

A institucionalização do Apartheid

Apesar da relevância militar, o fim da guerra marcou o início de profundas transformações internas. O fortalecimento do nacionalismo contribuiu para o distanciamento político em relação ao Reino Unido, enquanto a adoção oficial do apartheid consolidou um dos mais severos regimes de segregação racial do século XX. A legislação passou a separar a população por critérios raciais, restringindo direitos civis, acesso à educação, moradia, saúde e participação social da maioria negra.

A discriminação não se limitava às relações raciais. Durante décadas, mulheres também enfrentaram restrições legais, como a proibição de frequentar bares e clubes desacompanhadas de homens. Somente nos anos 1970 essas normas começaram a ser derrubadas, enquanto leis que proibiam casamentos inter-raciais e relações sexuais entre pessoas de diferentes etnias permaneceram em vigor até meados da década de 1980.

Protestos contra o apartheid no ano de 1959
Protestos contra o apartheid no ano de 1959 – Getty Images

O preconceito também atingiu veteranos da guerra. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o do soldado negro Job Maseko, considerado um herói sul-africano da Segunda Guerra Mundial. Apesar de seus feitos em combate, ele não recebeu a Cruz da Vitória, a maior condecoração militar britânica, exclusivamente por causa de sua cor. Maseko morreu em 1952, aos 36 anos, vítima de um acidente ferroviário, sem o reconhecimento que muitos historiadores consideram merecido.

A participação da África do Sul na Segunda Guerra Mundial, portanto, reúne dois legados profundamente contrastantes. Enquanto o país desempenhou papel estratégico na derrota do nazismo, fornecendo tropas, pilotos, recursos minerais e liderança política aos Aliados, o período pós-guerra consolidou um regime de segregação racial que marcaria sua história por décadas e permaneceria como uma das maiores contradições de sua trajetória no século XX.


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