O navio que levou a seleção brasileira para a primeira Copa do Mundo
No ano de 1930, a seleção brasileira embarcou em um navio 'lotação' rumo ao Uruguai; viagem foi marcada por treinos no convés e fake news envolvendo jogador romeno

Brasil. Certamente quando um estrangeiro ouve falar em nosso país as primeiras imagens que vêm à mente envolvem as praias, o carnaval do Rio e, é claro, o futebol. E não é sem motivo: afinal o Brasil é o maior campeão das Copas do Mundo e participou de todas as edições do torneio — isso sem contar a enorme paixão do brasileiro pelo esporte.
A primeira das edições se deu em 1930 e, como você deve imaginar, a realidade era muito diferente àquela altura. Para início de conversa, voos internacionais não eram frequentes naquela época. Por isso, o caminho até o torneio começava em alto-mar.
Lotação para a Copa
Quanto a isso, destaquemos um detalhe curioso. A copa daquele ano se deu no Uruguai, certo? Mas apesar disso, e do fato da preparação da equipe brasileira ter se dado no Rio de Janeiro, a história da viagem rumo ao Mundial começou na Europa, no dia 20 de junho de 1930, quando o luxuoso transatlântico Conte Verde deixou o porto de Gênova, na Itália.
O navio partiu levando apenas a delegação da Romênia, mas sua missão não parou por aí. Como as viagens aéreas transatlânticas ainda eram raras e extremamente caras, quatro seleções decidiram compartilhar o mesmo transporte. Em Villefranche-sur-Mer, na França, embarcaram os jogadores franceses, além de árbitros, dirigentes da Fifa, o então presidente Jules Rimet e a própria taça que levava seu nome. Depois, em Barcelona, foi a vez da Bélgica subir a bordo.
Após escalas em ilhas portuguesas e espanholas para reabastecer, o Conte Verde enfrentou sete dias seguidos de travessia pelo Atlântico até chegar ao Rio de Janeiro. Foi ali que, conforme informações do portal O Globo, a delegação brasileira embarcou para completar a viagem rumo a Montevidéu.
Uma longa viagem
Ao todo, o transatlântico navegou durante cerca de duas semanas até atracar na capital uruguaia em 4 de julho, apenas nove dias antes do início da Copa. Durante todo esse período, os jogadores ficaram sem contato com um campo de futebol. Como fizeram para manter o preparo físico? As fotografias da época registraram treinos improvisados no convés do navio, onde atletas corriam entre cadeiras, utilizadas como obstáculos, mesmo com o balanço do mar.
Mas mesmo com tanta sede de vitória, aquele não foi um bom ano para as seleções a bordo do Conte Verde, já que nenhuma delas conseguiu avançar de fase, nem mesmo o Brasil, que estreou com derrota para a Iugoslávia e ganhou apenas da Bolívia. No torneio de 1930, o título ficou com o Uruguai, anfitrião da competição, que derrotou a Argentina por 4 a 2 na decisão.
Fake news na volta
A viagem de volta do Conte Verde foi conturbada. Após deixar o Rio de Janeiro, o jogador romeno Alfred Feraru contraiu pneumonia em pleno Atlântico e, quando o navio retornou a Gênova, precisou permanecer na Itália para tratamento, enquanto seus companheiros seguiram de trem para a Romênia.
Sem notícias do atleta, espalhou-se o boato de que ele havia morrido. A informação ganhou tanta força que sua própria família chegou a organizar um velório. Segundo relatos preservados ao longo das décadas, Feraru reapareceu justamente na manhã do funeral, o que gerou espanto entre os presentes. Anos mais tarde ele representaria mais uma vez a Romênia, desta vez nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1936, em Berlim, na patinação artística.
O Conte Verde e a Segunda Guerra
O Conte Verde continuaria navegando por mais alguns anos, até que o mundo se deparou com a Segunda Guerra. Durante o conflito, a embarcação seria utilizada por milhares de refugiados que fugiam da perseguição nazista rumo à América do Sul e à Ásia. Mas quando, em 1943, a Itália se rendeu aos Aliados, veio fim de suas atividades.
O transatlântico se encontrava ancorado em Xangai quando foi afundado pelos próprios italianos, a fim de evitar que a embarcação caísse nas mãos dos japoneses. Tempos depois, o navio foi recuperado para que o porto fosse liberado, em uma operação que levou três meses. Mas sua sobrevida não duraria muito, já que logo seria alvo de um bombardeio, afundando novamente no mesmo local.
Mesmo com o fim guerra, ainda levaria um tempo para que as Copas voltassem a ocorrer (a última edição havia ocorrido em 1938). O retorno do torneiro se deu em 1950, e foi realizado em solo brasileiro. Naquele ano, nossa seleção não venceu por pouco, perdendo em uma virada histórica do Uruguai no Maracanã. Nosso legado em Copas começaria a ser escrito em 1958, quando o primeiro título foi conquistado. Depois viriam mais quatro, em 1962, 1970, 1994 e 2002.