Quem escreveu o Antigo Testamento? Saiba o que dizem os historiadores
Segundo a tradição, os cinco primeiros livros da Bíblia teriam sido escritos por Moisés; mas o que os especialistas dizem sobre isso?

A tradição judaico-cristã diz que o pentateuco, no caso, os cinco primeiros livros da Bíblia (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) foram escritos por Moisés. Conforme a narrativa bíblica, Moisés recebeu a Lei diretamente de Deus no monte Sinai e foi encarregado de registrá-la. Assim teriam surgido os textos sagrados, que narram desde a criação do mundo até a chegada dos israelitas à Terra Prometida. No entanto, os avanços da historiografia levaram a uma origem mais complexa para esses textos.
Mas engana-se quem pensa que as primeiras dúvidas sobre a autoria mosaica surgiram em tempos mais modernos. Na verdade, elas estiveram presentes em meio à comunidade cristã já desde primeiros séculos da religião. Na época, estudiosos apontavam passagens difíceis de conciliar com a ideia de que Moisés teria escrito toda a obra. O exemplo mais conhecido está no capítulo final de Deuteronômio, que relata a morte e o sepultamento do próprio profeta. Outro trecho frequentemente citado aparece em Números, no qual ele é descrito como “o homem mais humilde da face da Terra”, uma afirmação que pareceria irônica se tivesse sido escrita pelo próprio personagem.
Como destaca o porta National Geographic, além dessas passagens, o Pentateuco — também chamado de Torá — contém episódios narrados mais de uma vez, mas com diferenças de detalhes e enfoque. A aliança entre Deus e Abraão, por exemplo, aparece em duas versões distintas. Em uma delas, a circuncisão é apresentada como o sinal que sela o pacto entre Deus e o patriarca. Na outra, esse elemento simplesmente não existe.
O anúncio do nascimento de Isaque também é contado de maneiras distintas: em uma narrativa, Deus comunica diretamente a Abraão que Sara dará à luz o filho prometido; em outra, a revelação acontece por meio de três visitantes celestiais que chegam ao acampamento do casal. Por fim, o relato do Dilúvio também apresenta divergências, tanto em relação ao número de animais levados para a arca quanto à ave enviada por Noé para verificar se as águas haviam baixado.
Mas as diferenças, vale ressaltar, vão além do conteúdo, pois a análise do hebraico original revelou mudanças importantes de estilo e vocabulário. Isso indica que partes da obra foram escritas em épocas distintas, o que, segundo a fonte, fortalece a hipótese de que o Pentateuco seria resultado da combinação de textos produzidos ao longo de vários séculos.
Os questionamentos ganham força
Os questionamentos sobre a autoria da Torá ganharam força a partir do século 17, quando estudiosos começaram a investigar sua origem de forma mais sistemática. O ponto de maior destaque ocorreu em 1878, com a publicação da Hipótese Documental, formulada pelo estudioso alemão Julius Wellhausen. Segundo essa teoria, os cinco primeiros livros da Bíblia não foram escritos por um único autor, mas resultam da combinação de diferentes tradições produzidas em épocas e contextos distintos.
A mais antiga dessas tradições é conhecida como fonte J, de Jahwist, que deriva do uso do termo Yahweh para designar Deus. Os relatos dessa tradição estão ligados principalmente ao Reino de Judá, no sul, especialmente à região de Jerusalém, e dão destaque às doze tribos estabelecidas nesse território. Ela se destaca pelo estilo marcadamente narrativo e por apresentar Deus como alguém bastante próximo dos seres humanos, que dialoga diretamente com os personagens e intervém nos acontecimentos. Os estudiosos acreditam que essa fonte tenha sido escrita entre os séculos 10 e 9 a.C. e que seu autor seria ligado ao Templo em Jerusalém.

Outra tradição importante é a fonte E, de Elohista, que utiliza predominantemente o nome Elohim para se referir a Deus. Embora compartilhe diversos episódios com a fonte J, ela apresenta diferenças em detalhes e na perspectiva dos acontecimentos. Um exemplo clássico é o local da revelação feita a Moisés: enquanto a tradição javista menciona o monte Sinai, a eloísta utiliza o nome Horebe para a mesma montanha. Além disso, seus relatos estão associados ao antigo Reino de Israel, no norte, e refletem tradições ligadas a essa região. Acredita-se que essa fonte tenha surgido no século 9 a.C., provavelmente entre sacerdotes do santuário de Siló, que valorizavam a figura de Moisés.
Após a conquista do Reino de Israel pelos assírios, em 722 a.C., muitos refugiados migraram para Judá levando consigo suas tradições religiosas. Acredita-se que, nesse contexto, escribas de Jerusalém tenham reunido as fontes J e E em um único texto, preservando elementos característicos de ambas.
Novas fontes são adicionadas
A composição da Torá, porém, continuou evoluindo. Em séculos posteriores surgiu a chamada fonte P, de Priesterschrift (“escritos sacerdotais”), produzida por sacerdotes ligados ao Templo de Jerusalém e que dedica especial atenção às leis religiosas, às genealogias, aos rituais e às normas de pureza. É nela que aparecem, por exemplo, distinções entre animais puros e impuros no relato do Dilúvio. Mas há um detalhe importante: embora também utilize o nome Elohim para Deus, a fonte sacerdotal difere da tradição eloísta ao destacar a importância de Arão, em vez de Moisés, e de seus descendentes, o que indica que o autor era, muito provavelmente, sacerdote no Templo e se considerava um descendente de Arão.
Contudo, mesmo após a incorporação das fontes J, E e P, a composição da Torá ainda estava longe de chegar à sua forma definitiva. Um dos momentos decisivos desse processo ocorreu durante o reinado de Josias, no Reino de Judá. Diz a narrativa bíblica que, em 622 a.C., enquanto o Templo de Jerusalém passava por reformas, foi encontrado um antigo livro que continha leis até então desconhecidas pelo rei e por grande parte da população.
Esse texto foi apresentado como uma série de discursos feitos por Moisés pouco antes da entrada dos israelitas na Terra Prometida. E aqui é importante ressaltar que, diferentemente dos demais livros do Pentateuco, nos quais Deus transmite suas instruções diretamente ao líder hebreu, nessa obra é o próprio Moisés quem assume a palavra para ensinar e exortar o povo. Os estudiosos identificam esse documento como a origem do Deuteronômio, conhecido na Hipótese Documental como fonte D.

O texto possui características bastante particulares. Seu autor enfatiza repetidamente a existência de um único Deus, assim como de um único povo escolhido e de um único lugar legítimo para o culto: o Templo de Jerusalém. Para muitos historiadores, essa mensagem estava diretamente ligada à reforma religiosa promovida por Josias, que buscava eliminar os santuários espalhados pelo reino e centralizar as práticas religiosas na capital.
Segundo o relato bíblico, o livro foi lido publicamente diante do rei, dos sacerdotes e da população, sendo que, ao final da cerimônia, todos renovaram o compromisso de obedecer às leis nele contidas. Deuteronômio estava, portanto, consolidado como parte das Escrituras.
Além de suas ideias teológicas, a fonte D apresenta traços literários próprios, como o uso frequente do nome Horebe para designar a montanha da revelação divina e da expressão “Yahweh, teu Deus”, que combina os nomes utilizados pelas tradições javista e eloísta.
A conquista de Jerusalém
Poucas décadas depois, em 586 a.C., Jerusalém foi conquistada pelo rei babilônico Nabucodonosor II. A cidade e o Templo foram destruídos, e parte da população foi levada para o exílio na Babilônia. Muitos pesquisadores acreditam que foi durante esse período — ou logo após o retorno dos exilados, autorizado pelo rei persa Ciro — que ocorreu a edição final da Torá.
Segundo uma hipótese popular entre os pesquisadores, um editor reuniu as tradições J, E, P e D em um único conjunto, preservando versões paralelas e pequenas diferenças entre os relatos em vez de eliminá-las. Esse trabalho é frequentemente atribuído ao escriba Esdras, que, de acordo com a tradição bíblica, apresentou a Lei ao povo em uma grande assembleia descrita no Livro de Neemias. É nesse momento que a Torá se consolida como principal texto sagrado do judaísmo. Nos séculos seguintes, outros livros históricos, proféticos e poéticos seriam incorporados ao cânone, formando o que chamamos de Bíblia Hebraica, que mais tarde serviria de base para o Antigo Testamento cristão.