Cilindros de argila revelam restauração do zigurate de Kish por Nabucodonosor II
Novo estudo apresenta evidências textuais do trabalho de restauração do rei Nabucodonosor II no zigurate de Kish, importante monumento religioso da antiga Mesopotâmia

Uma recente pesquisa realizada por arqueólogos revelou a descoberta de dois cilindros de argila inscritos que fornecem evidências textuais diretas sobre os trabalhos de restauração realizados pelo rei Nabucodonosor II no zigurate de Kish, uma das mais significativas construções religiosas da antiga Mesopotâmia. Esta descoberta oferece uma nova perspectiva sobre a forma como um dos monarcas mais influentes da Babilônia interagia com a arquitetura sagrada anterior e solidificava sua autoridade através da restauração de templos.
Os cilindros foram entregues por residentes locais em dezembro de 2013 ao Conselho Estatal de Antiguidades e Patrimônio do Iraque, após serem encontrados na superfície do Tell al-Uhaimir, que abriga os vestígios da antiga cidade de Kish, localizada no centro do Iraque. Somente após a documentação fotográfica e a tradução das inscrições é que se confirmou que ambos os objetos datam do reinado de Nabucodonosor II, que governou entre 604 e 562 a.C., e pertencem à tradição neo-babilônica de inscrições fundacionais reais. Esses textos eram geralmente colocados em ou perto de grandes obras para comemorar sua construção e dedicá-las aos deuses.
Os cilindros, feitos de argila cozida e moldados em forma de pequenos barris, apresentam inscrições quase idênticas. Seus textos descrevem a restauração do zigurate de Kish, uma imponente torre escalonada dedicada ao deus da guerra Zababa e à deusa Ishtar. As inscrições seguem uma estrutura convencional, iniciando com os títulos do rei e sua apresentação como um governante escolhido pelos deuses Marduk e Nabû para zelar pelos espaços sagrados. Em seguida, abordam a condição do próprio zigurate, explicando que havia sido construído por um rei anterior e reparado por outro, mas que novamente havia caído em sério estado de deterioração devido ao tempo e às intempéries.
As inscrições, conforme descrito no estudo publicado na revista Iraq, afirmam que Nabucodonosor respondeu a esse declínio fortalecendo a estrutura, reconstruindo partes danificadas e aprimorando seu exterior para que pudesse novamente servir como uma morada adequada para suas divindades. Uma oração ao final pede aos deuses que concedam ao rei uma vida longa, vitórias sobre inimigos e contínua favor divino. Apesar da ausência de datas exatas ou detalhes técnicos sobre os trabalhos realizados, sua linguagem cerimonial indica a importância religiosa da restauração em detrimento da administrativa.
Relevância da descoberta
A relevância dessa descoberta é substancial, pois confirma interpretações arqueológicas estabelecidas há muito tempo. Escavações anteriores em Kish, incluindo trabalhos realizados no início do século 20, já haviam demonstrado que o zigurate passou por pelo menos três fases principais de construção e reparo. Tijolos marcados com o nome de Nabucodonosor sugeriam seu envolvimento na obra; no entanto, até agora, nenhum texto fundacional documentava explicitamente seus esforços de restauração no local, repercute o Archaeology News.
Esses dois cilindros representam as primeiras inscrições conhecidas que associam diretamente Nabucodonosor II à reconstrução do zigurate em Kish. Elas reforçam a imagem da realeza neo-babilônica como intrinsecamente ligada ao patrocínio religioso e à arquitetura monumental, ressaltando como os governantes utilizavam a renovação dos templos antigos para se alinhar tanto com os deuses quanto com o prestigiado passado das cidades mais antigas da Mesopotâmia.