A epidemia que quase parou uma posse presidencial nos EUA
Surto misterioso atingiu centenas de pessoas em um luxuoso hotel de Washington às vésperas da posse de James Buchanan

Em março de 1857, enquanto Washington se preparava para a posse do presidente eleito James Buchanan, um acontecimento inesperado ameaçou transformar uma cerimônia histórica em uma crise nacional. Um surto misterioso de doença espalhou-se pelo elegante National Hotel, um dos mais prestigiados estabelecimentos da capital americana, adoecendo centenas de hóspedes e deixando dezenas de mortos.
O episódio ficou conhecido como “National Hotel Disease” e permanece, até hoje, como um dos mistérios médicos mais intrigantes da história dos Estados Unidos. Embora pesquisadores modernos tenham formulado hipóteses plausíveis para explicar a epidemia, a ausência de evidências biológicas definitivas impede uma conclusão absoluta sobre sua origem.
Surto na posse de Buchanan
Na época, o National Hotel ocupava uma posição privilegiada entre a Casa Branca e o Capitólio. Frequentado por políticos influentes, empresários e membros da elite americana, o local tornou-se o centro das atenções quando hóspedes começaram a apresentar sintomas severos de forma repentina. Entre os afetados estava o próprio Buchanan, que havia chegado à cidade para os preparativos de sua posse presidencial.
Os relatos descrevem um quadro alarmante. As vítimas sofriam com vômitos intensos, diarreia, cólicas violentas, fadiga extrema e desidratação. Em muitos casos, os sintomas persistiam por semanas ou retornavam após períodos aparentes de recuperação. Buchanan ficou tão debilitado que compareceu à cerimônia de posse visivelmente enfraquecido. Seu sobrinho e secretário particular, Elliot Eskridge Lane, não teve a mesma sorte e morreu em decorrência da enfermidade.
A situação rapidamente alimentou especulações. Como o país atravessava um período de profunda polarização política em torno da escravidão, surgiram rumores de que o presidente eleito teria sido alvo de uma tentativa de assassinato. Alguns jornais e autoridades levantaram a hipótese de envenenamento por arsênico, substância amplamente disponível na época e utilizada inclusive no combate a ratos. Os sintomas apresentados por diversas vítimas possuíam semelhanças com casos conhecidos de intoxicação, o que fortaleceu a teoria.
Teorias sobre a doença
Outros médicos apontaram explicações diferentes. Alguns acreditavam que a doença fosse uma forma de cólera, disenteria ou febre tifoide. Havia ainda quem atribuísse o problema aos chamados “miasmas”, vapores considerados nocivos que, segundo uma teoria médica amplamente aceita no século XIX, seriam responsáveis pela propagação de enfermidades. A ciência da época ainda desconhecia o papel das bactérias e dos microrganismos na transmissão de doenças, o que dificultava enormemente a identificação da causa real.
Enquanto especialistas discutiam diagnósticos, os tratamentos frequentemente agravavam o estado dos pacientes. Alguns médicos receitavam compostos à base de mercúrio para induzir mais vômitos, acreditando que isso ajudaria a expulsar substâncias nocivas do organismo. Outros utilizavam preparações contendo álcool e ópio para aliviar os sintomas. Muitas dessas intervenções acabavam enfraquecendo ainda mais os doentes.
As investigações posteriores apontaram para um problema muito mais mundano — e igualmente perigoso. O inverno rigoroso de 1857 teria congelado parte da precária infraestrutura sanitária de Washington. Com a chegada do degelo, resíduos acumulados em canos, fossas e sistemas de drenagem passaram a infiltrar-se no hotel. Inspeções encontraram sinais de forte contaminação e até ratos mortos em reservatórios utilizados pelo estabelecimento. A deterioração das condições sanitárias teria favorecido a disseminação de agentes infecciosos por alimentos e água.
Atualmente, muitos historiadores e especialistas em saúde pública consideram a possibilidade de febre tifoide, causada pela bactéria Salmonella typhi, uma das explicações mais prováveis para o surto. Outros pesquisadores defendem que a doença possa ter sido uma forma de disenteria associada ao sistema de esgoto inadequado da cidade. Como não existem amostras biológicas preservadas, entretanto, nenhuma hipótese pode ser confirmada definitivamente.
Mais de 160 anos depois, a chamada National Hotel Disease continua despertando o interesse de historiadores, epidemiologistas e entusiastas de mistérios históricos.