Confiança, ganância e engano: O crime de estelionato através dos séculos
Da Roma Antiga à era digital, estelionato prospera através da ganância e ingenuidade das vítimas

Roma, século 1 a.C. Entre barracas abarrotadas de grãos e moedas tilintando, um comerciante chamava atenção de todos. Prometia farinha “dourada”, de qualidade superior, capaz de gerar lucros fabulosos a quem investisse em suas fornadas. O segredo? Areia misturada à farinha.
Em poucos dias, ele desapareceu, levando o dinheiro de investidores e comerciantes, além da confiança de toda a cidade. Curiosamente, muitos dos prejudicados haviam sido atraídos pela própria ambição, acreditando que estavam diante de uma oportunidade imperdível de enriquecer rápido.
Crônicas romanas de Publio Cornelio Tacito registram casos como esse, considerados os primeiros estelionatos documentados: a exploração da boa-fé humana para benefício próprio já fascinava e preocupava milênios atrás.
Na Roma Antiga, enganar não era apenas crime; era também espetáculo social. Comerciantes falsificavam moedas, manipulavam contratos e inventavam promessas de lucro impossível. Alguns estelionatários eram obrigados a devolver o dobro do prejuízo ou eram expostos publicamente em praças lotadas, onde a humilhação era quase tão temida quanto a prisão.
E ainda assim, muitos cidadãos continuavam atraídos por promessas de riqueza fácil, como se a ganância tivesse peso maior que o temor da lei.
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O refinamento grego: fraude como arte
Enquanto Roma lidava com farinha e moedas adulteradas, na Grécia, os golpes se sofisticavam. Investidores eram iludidos por sociedades comerciais milagrosas ou empréstimos inexistentes. Contratos fictícios e esquemas elaborados enganavam até cidadãos experientes, transformando o estelionato em uma verdadeira arte da manipulação psicológica.
Em Atenas, alguns golpes envolviam falsas inscrições de propriedade em terrenos ou navios inexistentes, com testemunhas forjadas para dar credibilidade.
Mais uma vez, a ambição da vítima facilitava o crime: muitos participavam voluntariamente do esquema, acreditando que estavam à frente dos demais investidores, sem perceber que eram parte do engano. A ganância, ao lado da ingenuidade, sempre foi uma aliada invisível do estelionatário.
Séculos de adaptação: cheques, ferrovias e contratos falsos
Com a expansão dos bancos e do comércio internacional no século 19, o estelionato ganhou novas dimensões. Cheques falsos, promessas de investimentos milagrosos e contratos fraudulentos chegavam a vítimas a quilômetros de distância. O estelionatário já não precisava se apresentar pessoalmente; bastava convencer alguém por carta de que tudo era legítimo.
Um dos golpes mais famosos envolvia falsos títulos de participação em ferrovias americanas vendidos para investidores europeus. Muitos acreditavam comprar ações legítimas, mas, na prática, adquiriram papéis de empresas que sequer existiam.
Mais uma vez, a busca por lucros rápidos e “oportunidades imperdíveis” tornava a vítima cúmplice involuntária do crime. Essa colaboração silenciosa, fruto da ganância humana, é o que mantém o estelionato tão atual quanto há mais de dois mil anos.
O golpe na era digital
O século 21 transformou radicalmente o campo de atuação do estelionatário. Hoje, ele se esconde em telas de smartphones, e-mails, sites de compras e plataformas digitais de investimento. Aplicativos bancários, golpes em criptomoedas, fraudes de phishing e perfis falsos em redes sociais são apenas algumas das armas modernas do trapaceiro.
Assim como o comerciante romano misturava areia à farinha, o golpista contemporâneo combina verdades e mentiras para criar ilusões quase imperceptíveis.
No Brasil, só em 2025, golpes digitais movimentaram mais de R$ 3 bilhões, incluindo clonagem de cartões, fraudes de Pix e enganos em marketplaces. Muitos usuários caem porque enxergam vantagens irresistíveis ou oportunidades únicas, repetindo padrões milenares de cooperação inconsciente com o crime.
O estelionato como espelho da humanidade
O que torna o estelionato fascinante é sua constância. Ele revela não apenas criatividade e audácia, mas também fragilidades humanas: confiança excessiva, ganância e ingenuidade.
O pão adulterado de Roma, os contratos fraudulentos da Grécia, os cheques falsos do século 19 e as mensagens digitais de hoje compartilham o mesmo núcleo: persuadir, manipular e lucrar à custa do outro, muitas vezes com a própria vítima colaborando, mesmo sem perceber.
Estudar essa trajetória histórica mostra que, embora a tecnologia mude, a vulnerabilidade humana permanece inalterada. O estelionatário moderno pode ser digital, o antigo era de carne e osso; mas ambos dependem da colaboração, consciente ou não, de suas vítimas.
Lições que atravessam milênios
O estelionato é uma viagem pelo tempo. Um crime antigo que se reinventa a cada era, mas mantém a mesma essência: transformar confiança em oportunidade, ingenuidade em lucro.
Do comerciante romano que desapareceu com sua farinha “dourada” às fraudes digitais que chegam a nossos celulares, ele nos ensina que atenção, ceticismo e educação financeira são tão valiosos quanto o próprio patrimônio.
Hoje, diferentemente de Roma ou da Atenas antiga, temos meios de descobrir um engodo antes de cair nele: checagem de informações, registros públicos, análises digitais. Mas muitas vezes escolhemos fechar os olhos, fingir que sabemos tudo, ou acreditar que “dessa vez será diferente”. E é justamente essa escolha consciente de ignorar os sinais que mantém o estelionato vivo, atravessando séculos, como uma sombra que se adapta às nossas vaidades, ganâncias e ilusões.
O estelionato não é apenas um crime; é um espelho da natureza humana. Ele nos mostra que a vulnerabilidade não desapareceu com o tempo, mudou de forma, mas continua ali, escondida atrás da confiança mal calibrada, da ambição e do desejo de vantagem.
O engano existe porque permitimos que exista, e cada promessa de lucro fácil é um convite para que voltemos a ser vítimas, mesmo quando acreditamos estar no controle.