Páscoa: Entre a memória da libertação e o horizonte da ressurreição

Da libertação narrada no Êxodo à ressurreição de Cristo, a Páscoa percorreu milênios, tradições e sensibilidades

Ressurreição de Cristo, por Rafael Sanzio - Domínio Público

Da libertação narrada no Êxodo à ressurreição de Cristo, a Páscoa percorreu milênios, tradições e sensibilidades. Mais do que uma celebração religiosa, a Páscoa consolidou-se como uma das imagens mais duradouras da experiência humana: a passagem da servidão para a liberdade, da dor para a esperança, da noite para a vida.

++ Como as diferentes religiões comemoram a Páscoa?

Antes do cristianismo, uma memória de libertação

Muito antes de se tornar o eixo do calendário cristão, a Páscoa já ocupava lugar central na tradição judaica. Sua origem remonta ao Pessach, a celebração que recorda a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, conforme preservado no livro do Êxodo, um dos grandes textos fundadores da consciência religiosa e histórica do Ocidente. Ali, a Páscoa surge não como ornamento ritual, mas como memória de uma ruptura decisiva: a passagem da opressão para a liberdade, da sujeição para a dignidade, do medo para a confiança em Deus.

A própria palavra hebraica Pessach significa “passagem”, e talvez poucas ideias tenham atravessado os séculos com tanta força. Na tradição judaica, essa passagem não é apenas lembrada; é atualizada. O pão sem fermento, as ervas amargas, a refeição ritual, a narrativa repetida à mesa, tudo concorre para manter viva a memória de um acontecimento fundador. Não se trata de um passado encerrado, mas de um passado que continua a formar consciências. A liberdade, nesse horizonte, não é um conceito abstrato: é uma herança moral que precisa ser recordada para não se perder.

Essa dimensão histórica é decisiva. Povos que esquecem os seus cativeiros se tornam mais vulneráveis à repetição deles. A Páscoa judaica ensina, com impressionante profundidade, que a memória não é apenas conservação do passado, mas defesa da dignidade. Recordar a escravidão do Egito não significa cultivar a dor; mas sim recusar sua banalização. É também afirmar que nenhuma ordem social pode ser considerada legítima quando converte pessoas em instrumento, naturaliza a humilhação ou se acomoda ao sofrimento dos frágeis.

A matriz judaica da Páscoa cristã

Foi nesse universo simbólico, espiritual e histórico que Jesus viveu. Judeu, formado na tradição de Israel, ele celebrou as festas de seu povo, rezou suas Escrituras e compartilhou sua memória religiosa. Por isso, a coincidência entre a Páscoa judaica e a cristã não é um detalhe do calendário, mas um dado central para a compreensão histórica do cristianismo. Os Evangelhos situam a paixão, morte e ressurreição de Cristo precisamente no contexto pascal, quando Jerusalém revivia a lembrança da libertação do Egito.

Esse ponto é essencial. A morte de Jesus não ocorre num vazio de significados, mas no interior de uma festa que já falava de travessia, libertação e esperança. Para os primeiros cristãos, esse entrelaçamento foi decisivo. Se o Êxodo narrava a libertação de um povo submetido à servidão, a morte e a ressurreição de Cristo passaram a ser lidas como uma nova passagem: agora da morte para a vida, do pecado para a redenção, do desespero para a esperança. A Páscoa cristã nasce, assim, como releitura de uma herança anterior e não como criação desligada de suas raízes.

Compreender isso é mais do que um exercício de erudição; é uma exigência de honestidade histórica. O cristianismo não inventa a Páscoa do nada. Ele a recebe do horizonte judaico e a ressignifica à luz da pessoa de Cristo. Ignorar essa matriz é empobrecer a inteligência da própria tradição cristã.

Cristo e o centro do mistério pascal

A centralidade de Cristo na Páscoa cristã não se explica apenas no plano da doutrina. Ela decorre também da singularidade histórica, moral e espiritual de sua figura. Jesus não marcou a humanidade unicamente pelo modo como morreu, mas pelo modo como viveu. Aproximou-se dos excluídos, acolheu os rejeitados, tocou os feridos, rompeu a indiferença, confrontou a hipocrisia dos poderosos e fez da compaixão não um discurso, mas um gesto concreto.

Sua morte, nesse contexto, não foi interpretada pelos cristãos apenas como um desfecho trágico, mas como o ápice de uma existência inteiramente doada. E a ressurreição passou a ser compreendida como a resposta última à lógica da violência: a afirmação de que a injustiça não triunfa indefinidamente, de que a verdade não se deixa extinguir pelo arbítrio e de que o amor não pode ser definitivamente sepultado.

É por isso que a Páscoa cristã conserva tamanho poder de comoção. Ela não elimina a cruz, não ignora o sofrimento nem suaviza a gravidade da morte. Sua força está precisamente em afirmar que a dor não possui soberania absoluta. A ressurreição, para a fé cristã, não é fuga da história, mas sua transfiguração. Em Cristo, o sofrimento não é glorificado, mas atravessado; a morte não é negada, mas vencida em seu poder último de aniquilação do sentido.

Duas tradições, uma herança de sentido

A relação entre a Páscoa judaica e a cristã exige, portanto, delicadeza intelectual e reverência histórica. Não se trata de dissolver diferenças nem de confundir tradições distintas. O judaísmo preserva, com extraordinária fidelidade, a memória da libertação fundadora de Israel. O cristianismo lê essa mesma lógica de travessia à luz da morte e ressurreição de Jesus. São caminhos próprios, com identidade própria, mas ligados por uma raiz histórica inegável.

Essa coincidência é, em si mesma, eloquente. Ela mostra que a história das religiões não se faz apenas de rupturas, mas também de continuidades profundas, releituras e heranças. Em tempos marcados por simplificações apressadas, reconhecer a raiz judaica da Páscoa cristã é também um gesto de lucidez. A fé, quando perde a memória de suas origens, corre o risco de se tornar superficial; a história, quando é reduzida a slogans, deixa de iluminar e passa apenas a repetir lugares-comuns.

A atualidade de uma antiga travessia

Seria possível imaginar que a Páscoa pertence apenas ao domínio do passado, circunscrita aos textos sagrados e às celebrações anuais. No entanto, sua permanência histórica se deve justamente ao contrário: ela continua a falar, com surpreendente nitidez, ao presente. Cada época conhece seus desertos. Cada sociedade produz seus próprios cativeiros. E os nossos, muitas vezes, não se apresentam sob a forma visível das correntes, mas em modalidades mais sutis e igualmente corrosivas.

Hoje, a servidão pode assumir a forma da ansiedade constante, da exaustão emocional, da tirania do desempenho, do culto da aparência, da incapacidade de silêncio, da hiperconexão que não evita a solidão, da pressa que impede o luto, da violência verbal convertida em hábito, da indiferença diante da dor alheia. Nunca houve tantos meios de comunicação e, ao mesmo tempo, tamanha dificuldade de encontro. Nunca se falou tanto em liberdade e, paradoxalmente, tantos vivem aprisionados por medos íntimos, ressentimentos persistentes, culpas não elaboradas e uma crescente sensação de esvaziamento interior.

É nesse ponto que a Páscoa deixa de ser apenas memória antiga para se tornar interrogação contemporânea. De que servidões ainda não saímos? O que, em nossa vida pessoal e coletiva, continua a nos prender? Que formas de morte simbólica já se instalaram em rotinas aparentemente normais? Em um mundo que mede o valor humano pela utilidade, pela produtividade e pela visibilidade, a Páscoa restitui à dignidade seu lugar central. Recorda que a vida humana vale antes de qualquer desempenho e que não há liberdade autêntica quando a alma permanece submetida ao medo, à indiferença ou à ausência de sentido.

Para além das fronteiras da fé

Talvez resida aí uma das razões mais profundas da permanência da Páscoa. Embora enraizada em tradições religiosas precisas, sua mensagem ultrapassa a pertença confessional. Para os judeus, ela permanece como memória viva da libertação. Para os cristãos, é o coração da fé no Cristo ressuscitado. Mas, mesmo fora desses horizontes, a estrutura simbólica da Páscoa continua inteligível a qualquer ser humano: todos conhecem, em alguma medida, a experiência da noite, a necessidade da travessia e o desejo de recomeço.

Também por isso a figura de Cristo permanece central não apenas para os cristãos, mas para a própria história moral do mundo. Mesmo quem não o confessa na fé pode reconhecer nele uma das expressões mais altas de compaixão, coragem e densidade humana. Em um tempo ruidoso, impaciente e tantas vezes brutalizado, Cristo continua a impressionar pela serenidade, pela firmeza e pela recusa em fazer da força um critério de grandeza.

A Páscoa, nesse sentido, toca algo que antecede as divisões religiosas: a convicção de que a existência humana não pode ser reduzida ao imediato, ao útil ou ao mensurável. Ela fala da possibilidade de atravessar a dor sem ser totalmente vencido por ela; fala da memória como fonte de consciência; fala da esperança não como ingenuidade, mas como forma elevada de resistência interior.

Mais do que uma festa

No fundo, a Páscoa permanece viva porque exprime uma necessidade permanente da condição humana: a de encontrar sentido quando a noite parece mais espessa. Primeiro, foi a memória da libertação de um povo. Depois, se tornou, para o cristianismo, o anúncio de que a morte não venceu Cristo. Hoje, continua sendo uma das mais poderosas metáforas de renovação que a humanidade conserva.

Num mundo cansado, ferido e tantas vezes incapaz de elaborar as próprias perdas, a Páscoa continua a recordar que há travessias que acontecem em silêncio, longe dos olhos do mundo, mas transformam por inteiro uma existência. Há dores que não desaparecem, mas amadurecem. Há ausências que nunca deixam de doer, mas ensinam a amar de outro modo. Há noites que parecem intermináveis, até que, quase sem perceber, a alma reencontra dentro de si uma fresta de luz.

Talvez seja esse o sentido mais profundo da Páscoa: não a promessa de uma vida sem cruzes, mas a certeza de que nenhuma cruz esgota o destino humano; não a negação das lágrimas, mas a revelação de que elas também podem fecundar a esperança. E, quando tudo parece perdido, quando o tempo se torna pesado e o coração já não sabe como prosseguir, a Páscoa ainda sussurra, com a delicadeza das coisas eternas, que a vida pode recomeçar, que o amor permanece, e que mesmo depois da noite mais escura ainda é possível acreditar na manhã.

Roselle Adriane Soglio. Professora de Direito, Doutora em História da Ciência. Vice- Presidente da ABCCRIM