Como as diferentes religiões comemoram a Páscoa?
Embora seja tradicionalmente associada à ressurreição de Jesus Cristo, a Páscoa também atravessa outras crenças e tradições religiosas

A Páscoa ocupa um lugar central no imaginário religioso e cultural de diversas sociedades ao redor do mundo. Embora, no senso comum, a data seja imediatamente relacionada ao cristianismo e à ressurreição de Jesus Cristo, seu significado ultrapassa fronteiras confessionais e se manifesta, com diferentes símbolos e rituais, em outras tradições religiosas. Em comum, permanece a ideia de passagem, transformação e renovação espiritual.
A Páscoa como ressureição
No calendário cristão, a celebração representa um dos momentos mais importantes do ano litúrgico. O Domingo de Páscoa marca a ressurreição de Jesus, fundamento da fé cristã e símbolo máximo da vitória da vida sobre a morte. A data também inaugura o chamado Tempo Pascal, período de 50 dias que se estende até Pentecostes. Para católicos, protestantes e grande parte das igrejas cristãs ocidentais, trata-se de uma celebração que sintetiza a esperança da redenção e da vida eterna.
Apesar disso, as origens históricas e simbólicas da Páscoa estão profundamente ligadas ao judaísmo. A tradição cristã herda elementos fundamentais do Pessach, a Páscoa judaica, que celebra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. O próprio termo “Páscoa” remete à ideia de passagem. No judaísmo, essa passagem é a travessia do Mar Vermelho e a mudança de um estado de opressão para a liberdade. O rito tem forte dimensão familiar e memorial, reforçando a importância da transmissão da história entre gerações.
No cristianismo, esse conceito é ressignificado: a passagem deixa de ser apenas histórica e coletiva para ganhar um sentido espiritual, relacionado à superação da morte e à promessa de salvação. O simbolismo do cordeiro, por exemplo, é um elo direto entre as duas tradições, assumindo novos contornos na figura de Cristo como o “Cordeiro Pascal”.
A celebração também assume particularidades importantes na tradição ortodoxa. As igrejas ortodoxas seguem o calendário juliano, diferente do gregoriano adotado pela Igreja Católica e por grande parte do Ocidente. Isso faz com que, frequentemente, a data da Páscoa ortodoxa não coincida com a celebração ocidental. O cálculo leva em conta critérios astronômicos específicos e preserva uma tradição histórica que remonta aos primeiros séculos do cristianismo.
Outros olhares
Outras religiões não celebram a Páscoa nos mesmos moldes, mas compartilham com o período valores semelhantes. No espiritismo, por exemplo, a data não é oficialmente comemorada como festa litúrgica, embora a mensagem de Jesus e a ideia de renovação interior estejam presentes durante todo o ano. A ênfase não está em um evento pontual, mas na vivência contínua dos ensinamentos cristãos como transformação moral e espiritual.
No islamismo, a Páscoa também não é celebrada da mesma forma, mas o período frequentemente dialoga, no imaginário inter-religioso, com o Ramadã, mês sagrado marcado pelo jejum, pela purificação e pela reflexão. Embora as bases teológicas sejam distintas, a noção de disciplina espiritual e renovação aproxima simbolicamente as duas experiências religiosas. Para os muçulmanos, Jesus é reconhecido como profeta, mas não como filho de Deus, o que afasta a celebração pascal do centro da fé islâmica.
As religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda, também vivem esse período de forma singular. Durante a Quaresma e a Semana Santa, muitos terreiros adotam práticas específicas, como a suspensão temporária de algumas atividades ritualísticas. Em algumas tradições, o período se relaciona ao Lorogun, entendido como um tempo de recolhimento, descanso e preparação espiritual. Ao final desse ciclo, inicia-se um novo ano litúrgico, reforçando novamente a ideia de recomeço.
O que une essas diferentes manifestações religiosas é menos a uniformidade dos ritos e mais a permanência de um símbolo poderoso: a passagem de um estado a outro. Seja da escravidão à liberdade, da morte à vida, do pecado à redenção, ou da impureza à purificação, a Páscoa — ou os períodos espiritualmente equivalentes em outras tradições — continua sendo um tempo de reflexão profunda sobre mudança, memória e esperança.
Em um mundo marcado por diferenças culturais e religiosas, a data revela como distintas crenças podem convergir em valores universais. Renovação, esperança e transformação permanecem como elementos comuns, capazes de aproximar visões de mundo diversas e de lembrar que, em muitas tradições, a espiritualidade se manifesta justamente na possibilidade de recomeçar.