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Novo documentário controverso promete revelar ‘segredos biológicos’ de Hitler

Novo documentário sugere que o ditador nazista Adolf Hitler sofria com distúrbios hormonais e predisposições psiquiátricas; confira!

Adolf Hitler em meio a multidão em 1933 / Crédito: Getty Images

Um novo documentário que investiga a possível composição genética de Adolf Hitler está gerando debates acalorados na comunidade científica e entre o público em geral. Intitulado ‘Hitler’s DNA: Blueprint of a Dictator‘ (‘O DNA de Hitler: O Projeto de um Ditador’, em tradução livre), a produção britânica da Blink Films estreia no canal Channel 4 neste sábado, 15. A obra promete trazer à luz aspectos biológicos do ditador, baseando-se na análise de seu material genético.

Os realizadores do documentário afirmam ter encontrado indícios de que Hitler poderia ter sofrido da Síndrome de Kallmann, uma condição genética rara que pode impactar o desenvolvimento sexual masculino durante a puberdade, resultando em questões como baixa produção de testosterona, criptorquidia (testículo não descido), alterações na percepção olfativa e micropênis. Confira o teaser do documentário:

Conforme reportado pelo portal Deadline, as revelações foram apresentadas com um tom dramático nas peças promocionais do filme, que também sugere a existência de “pontuações genéticas elevadas” ligadas a neurodivergências. Entre as condições mencionadas estão autismo, esquizofrenia e transtorno bipolar. O documentário ainda refuta teorias anteriores que sugeriam uma ascendência judaica do líder nazista.

A amostra de DNA analisada supostamente provém de um pedaço de tecido ensanguentado retirado do sofá onde Hitler se suicidou em abril de 1945. Este artefato está preservado em um museu militar na Pensilvânia, Estados Unidos, e foi submetido a rigorosos testes em laboratórios especializados por pesquisadores britânicos.

A produtora Lesley Davies explicou ao Deadline que o processo para confirmar a autenticidade da amostra foi extenso e meticuloso. “Quando conseguimos a correspondência e soubemos que era realmente sangue de Hitler, tivemos que confirmar e reconfirmar várias vezes para garantir que o perfil fosse sólido”, recordou.

A confirmação da amostra foi realizada utilizando uma amostra de DNA obtida de um parente distante de Hitler por linha paterna, coletada anos atrás durante uma investigação sobre um suposto filho ilegítimo do ditador. O jornal The Guardian informa que os produtores conseguiram uma correspondência perfeita no cromossomo Y. Contudo, não está claro se houve consentimento para o uso do DNA do parente, levantando questões éticas significativas.

O documentário combina análises laboratoriais com entrevistas a especialistas renomados, como a geneticista Turi King, conhecida por seu trabalho na identificação dos restos mortais do rei Ricardo III, e Alex Kay, historiador da Universidade de Potsdam e especialista na era nazista.

Turi King destaca que a deleção de uma letra no gene PROK2 foi um dos principais indicadores genéticos da Síndrome de Kallmann em Hitler. Essa mutação pode ter impedido o início ou a conclusão da puberdade, corroborando registros médicos de 1923 encontrados nos arquivos da prisão de Landsberg, onde um médico atestou que Hitler apresentava “criptorquidia do lado direito”.

Esse achado fortalece uma teoria antiga que circula desde a Segunda Guerra Mundial, segundo a qual o ditador teria “apenas um testículo”. Essa alegação até inspirou uma paródia musical com o título sugestivo “Hitler Has Only Got One Ball” (Hitler Só Tem Uma Bola), conforme repercute a Revista Galileu.

Kay também sugere que a condição poderia esclarecer aspectos da vida pessoal de Hitler. “Ninguém jamais conseguiu explicar o seu desconforto com as mulheres ou o fato de ele provavelmente nunca ter mantido relações íntimas. Agora, com a Síndrome de Kallmann, essa pode ser a resposta que faltava”, comenta o historiador.

Incerteza

No entanto, o documentário não se limita apenas às questões biológicas; ele busca estabelecer conexões entre a genética de Hitler e transtornos mentais e comportamentais por meio da análise das pontuações de risco poligênico (PRS). Esse método estatístico tenta prever predisposições genéticas baseando-se em múltiplas variantes genéticas.

Os resultados levaram os produtores a afirmar que Hitler tinha alta probabilidade de apresentar autismo, esquizofrenia e comportamento antissocial. Contudo, especialistas entrevistados pelo The Guardian alertam que tais conclusões podem ser cientificamente frágeis. David Curtis, professor do Instituto de Genética da University College London, esclarece que “as pontuações de risco poligênico informam algo sobre a população em geral, não sobre indivíduos”.

A própria Turi King expressou desconforto com as formas como os dados foram apresentados no documentário. “Não podemos afirmar com certeza que Hitler tinha esses transtornos — apenas que ele estava no percentil mais alto para algumas delas”, afirmou. Apesar disso, trechos do filme transformam “acima da média” em “propensão”, levando a conclusões precipitadas sobre diagnósticos.

De acordo com a revista New Scientist, mesmo se esses diagnósticos fossem válidos, eles não deveriam servir como justificativa para qualquer conclusão definitiva. Simon Baron-Cohen, pesquisador da Universidade de Cambridge presente no documentário, argumenta que experiências traumáticas e abusos sofridos por Hitler na infância são “muito mais relevantes para entender por que ele cresceu com ódio e raiva” do que quaisquer condições genéticas possíveis.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.