O brutal assassinato do cineasta holandês Theo van Gogh
Bisneto do lendário pintor da 'Noite Estrelada', Theo van Gogh foi morto em 2004 por um islamista radical após lançar filme crítico ao tratamento dado às mulheres no Islã

Em 2 de novembro de 2004, a cidade de Amsterdã foi palco de um crime que marcaria profundamente a sociedade holandesa. Naquela manhã, o cineasta Theo van Gogh foi assassinado a tiros e teve a garganta cortada em plena via pública por Mohammed Bouyeri, um holandês de origem marroquina de 26 anos. O ataque ocorreu após o lançamento do curta-metragem ‘Submissão’, obra que criticava o tratamento dado às mulheres no Islã e que havia provocado forte reação negativa entre setores conservadores da comunidade muçulmana.
Bisneto do pintor Vincent van Gogh, Theo van Gogh nasceu em 23 de julho de 1957, em Haia, e construiu sua trajetória como um diretor conhecido pelo tom provocador. Ao longo da carreira, cultivou a imagem de alguém disposto a confrontar crenças e instituições em nome da liberdade de expressão. Costumava ironizar a própria postura, descrevendo-se como um “idiota da aldeia” capaz de dizer o que outros não ousavam. Em certa ocasião, demonstrando confiança na própria posição pública, afirmou: “ninguém mata o idiota da aldeia”.
Filme polêmico
A convicção de que sua defesa apaixonada da liberdade de expressão o protegeria de represálias mostrou-se equivocada. Em setembro de 2004, van Gogh lançou, ao lado da política holandesa Ayaan Hirsi Ali, o filme de 10 minutos feito para a televisão intitulado ‘Submissão, Parte I’. A obra apresentava mulheres rezando a Alá para que as libertasse de vidas marcadas por abusos físicos e sexuais. De forma controversa, versículos do Alcorão apareciam escritos sobre os corpos de mulheres nuas, como forma de protesto contra as violências retratadas.
Segundo a interpretação do Alcorão feita por van Gogh, um casamento verdadeiramente islâmico exigia submissão total da mulher ao marido, o que, em sua leitura, concederia aos homens o direito de controlar completamente as esposas. O filme foi parcialmente inspirado na trajetória de Hirsi Ali, que fugiu da Somália para escapar de um casamento arranjado e posteriormente abandonou a fé muçulmana. Quando escreveu o roteiro, ela já integrava o Parlamento holandês, e van Gogh, conhecido por suas críticas ao Islã, ao Cristianismo e ao Judaísmo, assumiu a direção.
A recepção foi imediata e controversa. Como esperado, ‘Submissão, Parte I’ não foi bem recebido pela comunidade muçulmana conservadora. Alguns críticos sustentaram que o filme alimentava o sentimento anti-muçulmano que se intensificara após os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos. Questionado sobre suas motivações, van Gogh declarou que “pretendia provocar discussões sobre a situação das mulheres muçulmanas escravizadas” e enfatizou: “é dirigido aos fanáticos, aos fundamentalistas”.

Reação violenta
Entre aqueles que se sentiram atingidos estava Mohammed Bouyeri. Nascido e criado na Holanda em uma família descrita como “tranquila”, ele passou a se aproximar do islamismo radical após a morte da mãe, vítima de câncer, quando tinha 18 anos. O filme o enfureceu profundamente. Embora sua indignação fosse direcionada principalmente a Hirsi Ali, a política encontrava-se sob forte proteção policial devido às ameaças que vinha recebendo. Van Gogh, por sua vez, recusou qualquer escolta, apesar das advertências.
Na manhã de 2 de novembro de 2004, Bouyeri abordou o cineasta em Amsterdã e atirou duas vezes antes de cortar sua garganta. Testemunhas afirmaram mais tarde que a garganta de van Gogh foi “cortada como um pneu”. Antes de deixar o local, o agressor prendeu ao corpo da vítima uma carta com uma faca. No texto, afirmava que suas queixas eram, na verdade, contra Hirsi Ali. Como não conseguira atacá-la diretamente, voltou-se contra o diretor, considerado um alvo mais acessível.
Preso pouco depois do crime, Bouyeri confessou o assassinato e declarou que mataria novamente se fosse libertado, justificando o ato como defesa do nome de Alá. Em 2005, foi condenado à prisão perpétua, repercute o All That’s Interesting.
Comoção
A morte de van Gogh provocou comoção nacional. Hirsi Ali reagiu afirmando: “estou triste porque a Holanda perdeu sua inocência. A ingenuidade de Theo não era que [um assassinato] não pudesse acontecer aqui, mas sim que não pudesse acontecer com ele. Ele dizia: ‘sou o idiota da aldeia, eles não vão me machucar.’” Ela também recordou que o cineasta relutara em buscar proteção policial, observando: “ele frequentemente insistia na necessidade de preservar nossa liberdade de expressão. Ele dizia que só denunciaria as ameaças à polícia.”

O impacto do crime ultrapassou o campo cultural e atingiu o debate político. Apesar de sua tradição liberal, a Holanda viu emergir discussões mais duras sobre imigração e integração. Alguns políticos passaram a defender restrições migratórias, enquanto outros destacaram que os muçulmanos, que representavam 5% da população em 2004, apresentariam taxas de criminalidade superiores às de outros grupos. Ao mesmo tempo, aumentaram as ameaças contra figuras públicas.
O clima de suspeita também afetou cidadãos muçulmanos sem qualquer envolvimento com extremismo. Um adolescente chamado Samir, criado como muçulmano mas que já não frequentava mesquitas, sintetizou o sentimento de estigmatização ao afirmar: “agora somos odiados. Tudo o que fazemos estará errado, tudo o que dizemos estará errado, todos os lugares aonde vamos estarão errados.”
Com o passar dos anos, segundo relatos, muitas personalidades deixaram de abordar o assassinato publicamente, receosas de alimentar tensões políticas ou de serem interpretadas como coniventes com o agressor ao criticar a obra do cineasta. O jornalista Theodor Holman, amigo próximo de van Gogh, por sua vez, condenou o silêncio e a cautela excessiva ao afirmar: “a tolerância transformou-se em covardia”.