Neste dia, há 113 anos, o busto da rainha Nefertiti foi encontrado no Egito
No dia 6 de dezembro de 1912, o egiptólogo alemão Ludwig Borchardt realizou uma das descobertas mais notáveis de sua carreira: o busto da rainha Nefertiti

Uma das primeiras e mais influentes civilizações que o mundo já viu, os antigos egípcios são alvo de fascínio de estudiosos desde a Antiguidade, e até hoje rendem descobertas arqueológicas verdadeiramente impressionantes. Eles são amplamente lembrados pela vasta herança cultural, arquitetônica e científica que deixaram para o mundo antigo; além, é claro, das monumentais pirâmides, de suas múmias e de seus faraós.
Entre os faraós mais notórios, estão Quéops, cujo túmulo nada mais é que a Grande Pirâmide de Gizé; Ramsés II, um dos mais poderosos e que reinou durante muito tempo; Tutancâmon, por sua tumba praticamente intacta descoberta pelo egiptólogo britânico Howard Carter em 1922; e Cleópatra, a última faraó do Egito — e já contemporânea ao Império Romano.
Outra figura bastante notável da antiga realeza egípcia é a rainha Nefertiti, esposa do faraó Akhenaton, que governou no século 14 a.C., e madrasta do já mencionado Tutancâmon. E um dos motivos para ela ser tão memorável está no fato de que, há exatos 113 anos, um busto a representando foi descoberto pelo egiptólogo alemão Ludwig Borchardt, e impressiona com sua coloração preservada e por servir como uma referência dos padrões de beleza de milênios atrás.
Em seu diário, no dia 6 de dezembro de 1912, Borchardt descreveu o “busto pintado da rainha em tamanho natural, com 47 cm de altura. Com a peruca azul de corte reto, que também possui uma fita enrolada na metade da cabeça”. Ele se referiu a ele como uma “obra absolutamente excepcional”, mas cuja “descrição é inútil, precisa ser vista”.
Embora a peça seja certamente um pilar fundamental da história egípcia, hoje aqueles que desejarem seguir o conselho de Borchardt devem viajar até Berlim, na Alemanha, para visitá-la no Neues Museum. E essa escultura, que na época de sua descoberta apenas provocou grande apreciação por sua beleza, rapidamente se tornou um escândalo arqueológico histórico, que levanta debates até hoje.

Descoberta
Toda a controvérsia sobre o busto de Nefertiti já teve início durante as escavações na antiga cidade de Tell el-Amarna — também conhecida como Akhetaton —, localizada às margens do rio Nilo. O local chamou grande atenção da comunidade arqueológica europeia na virada do século 19 para o século 20, pois ela foi nada menos que a capital construída no reinado de Akhenaton, após realizar grandes mudanças culturais no Egito, centrando a vida espiritual do reino em apenas um deus, Aton.
Borchardt conquistou o apoio de James Simon, um rico colecionador de arte e fundador da Sociedade Oriental Alemã em 1911, conseguindo assim financiamento para uma escavação no local em que teria surgido a primeira religião monoteísta do mundo. Vale destacar que a cidade antiga já havia sido mapeada em expedições anteriores, mas foi Borchardt e sua equipe que voltaram a atenção para uma oficina local que ainda estava inexplorada, que pertenceu a um escultor chamado Tutmés.
No dia em que encontraram o famoso busto de Nefertiti, nobres alemães da Saxônia estavam visitando a área, e o egiptólogo se colocou entre os convidados e a escavação. Quando ele foi informado de que “algo bom estava para ser descoberto“, Borchardt se aproximou da oficina e “as ferramentas foram deixadas de lado e as mãos entraram em ação”, conforme ele escreveu em seu diário.
Levou um tempo considerável até que toda a peça estivesse completamente livre de sujeira e entulho”, continuou. Porém, depois que tudo foi removido, “tínhamos em mãos a obra de arte egípcia mais realista que existia”.
Posse do busto
Como os alemães detinham uma licença de escavação do sítio arqueológico, as descobertas ali feitas eram divididas com as autoridades egípcias, como era usual na época. No entanto, uma peça valiosa como o busto de Nefertiti saltou aos olhos dos estrangeiros, que estavam determinados a mantê-lo em suas mãos.
E, conforme foi revelado através da documentação de um acordo feito em 1913 entre as autoridades alemãs e egípcias, a legalidade e a ética por trás da transação da peça é bastante contestável. Isso porque, segundo revelou a revista alemã Der Spiegel em 2009, Borchardt queria guardar o busto para os alemães, e para isso teria mostrado uma fotografia que não valorizava tanto a peça aos inspetores egípcios, além de tê-la mantido guardada dentro de uma caixa, em um espaço pouco iluminado para minimizar sua importância.
Foi dentro dessa caixa que o busto de Nefertiti viajou até a Alemanha, onde, em 1920, se tornou de posse dos Museus Estaduais de Berlim. E, exceto por um período breve durante a Segunda Guerra Mundial, quando foi guardada em uma mina de sal na Turíngia, a peça permaneceu praticamente no mesmo lugar desde sua inauguração em 1923 — mas, hoje, o debate sobre quem deveria ter realmente a posse do busto continua vivo, mesmo após mais de 100 anos.

Repatriação?
Em meio às controvérsias, o Neues Museum, atual casa do busto de Nefertiti, em Berlim, afirma que as transações feitas há um século foram legais, e conduzidas em conformidade com os costumes do início do século 20. No entanto, o arqueólogo egípcio e ex-ministro do Turismo e Antiguidades do Egito, Zahi Hawass, ainda sustenta que o artefato “saiu do Egito ilegalmente“.
Pelo que parece, autoridades alemãs e egípcias negociaram a posse do busto ao longo da década de 1920, e em 1929 tudo parecia prestes a fechar um acordo. No entanto, segundo documentos do Ministério das Relações Exteriores britânico, o líder nazista Adolf Hitler acabou vetando toda a tramitação por conta de sua admiração pela obra.
Nos anos que se seguiram, conforme repercute a Smithsonian Magazine, o Egito chegou a tomar uma série de medidas para tentar pressionar a Alemanha a devolver o busto de Nefertiti, até mesmo negando permissões de escavação a arqueólogos alemães em seu território, bem como a oferta de outras antiguidades em troca da peça.
Ainda hoje, as reivindicações pelo busto de Nefertiti não foram concluídas e seguem causando dor de cabeça às autoridades de ambos os países. Enquanto nada muda, ele continuará solitário em uma sala do museu de Berlim, e a rainha egípcia segue envolta em um grande escândalo, mesmo após milênios.