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Novo estudo contesta história medieval da disseminação da Peste Negra na Ásia

Estudo contesta história medieval cuja interpretação equivocada enganou gerações de historiadores sobre a disseminação da Peste Negra pela Ásia

'A Peste em Ashdod', de Nicolas Poussin / Crédito: Getty Images

Um estudo recente questiona a narrativa amplamente divulgada sobre a propagação da Peste Negra pela Ásia no século 14, sugerindo que uma das descrições mais influentes do movimento da pandemia nunca foi destinada a ser interpretada como um relato histórico preciso. Os pesquisadores defendem que essa narrativa tem raízes em um gênero literário popular, em vez de se basear em relatos de testemunhas oculares. Essa confusão, por sua vez, moldou as interpretações sobre as origens e a trajetória da peste por séculos.

A Peste Negra, causada pela bactéria Yersinia pestis, devastou regiões da Eurásia Ocidental e do Norte da África entre 1346 e 1350. Nos últimos anos, pesquisas científicas têm rastreado as prováveis origens da cepa responsável pela pandemia até a Ásia Central.

Apesar disso, muitos historiadores e cientistas continuam a apoiar a ideia de que a doença se espalhou rapidamente de forma terrestre da Ásia Central até o Mar Negro em menos de uma década. Essa versão dos eventos, frequentemente chamada de “teoria do trânsito rápido“, tem sido amplamente referenciada tanto na literatura histórica quanto científica.

Detalhes do estudo

O novo estudo revela que essa narrativa depende fortemente de um único texto: Risālat al-nabaʾ ʿan al-wabāʾ, escrito entre 1348 e 1349 pelo estudioso Ibn al-Wardi. Esse texto foi muitas vezes tratado como um relato de primeira mão sobre a disseminação da peste ao longo das rotas comerciais, conforme descrito em comunicado da Universidade de Exeter.

No entanto, os autores do novo estudo, publicado na Journal of Arabic and Islamic Studies, demonstram que a obra de Ibn al-Wardi é, na verdade, uma maqāma — uma forma literária altamente estilizada popular no mundo islâmico medieval, caracterizada por rimas e jogos de palavras, frequentemente envolvendo narrativas fictícias. Muitas maqāmas apresentavam uma figura de trapaceiro errante que viajava por diferentes regiões, encontrando eventos dramáticos ao longo do caminho.

No contexto da obra de Ibn al-Wardi, o “trapaceiro” é a própria peste, personificada como uma força errante que se desloca de terra em terra ao longo de aproximadamente quinze anos. O estudo indica que Ibn al-Wardi não foi o único autor desse tipo de narrativa; pelo menos outros dois escritores da mesma época também compuseram maqāmas com temas relacionados à peste. Todos eles usaram narrativas metafóricas para expressar o terror, a incerteza e o caos emocional vividos durante uma epidemia catastrófica.

A confusão começou quando historiadores do século 15 trataram a narrativa metafórica de Ibn al-Wardi como um fato literal; suas interpretações foram posteriormente absorvidas pela erudição europeia e, eventualmente, discutidas na historiografia moderna sobre a peste. Por conta disso, o conceito de uma rápida e coordenada propagação da doença por milhares de quilômetros se consolidou sem evidências históricas que o sustentassem, conforme repercute o Archaeology News.

Reconhecer essa obra como literatura e não como reportagem permite aos estudiosos revisitar surtos de peste ocorridos anteriormente e em outras localidades, como Damasco e Kaifeng. Além disso, possibilita o estudo de padrões mais graduais e complexos de transmissão de doenças, influenciados por fatores ecológicos, climáticos e sociais. Para os autores deste estudo, esses relatos literários são significativos não para mapear o caminho da pandemia, mas como um meio para entender como as sociedades medievais lidaram com o medo e a perda.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.