Novo estudo aponta como Chernobyl se tornou santuário de animais
Pesquisa mostra que a fauna prosperou na Zona de Exclusão e superou reservas naturais em diversidade e frequência de espécies; entenda!

Quatro décadas após o acidente nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986, a região ao redor da usina se transformou em um importante refúgio para a vida selvagem. Um novo estudo publicado em 20 de maio na revista Proceedings of the Royal Society aponta que a fauna prosperou na Zona de Exclusão de Chernobyl (CEZ), superando inclusive áreas oficialmente protegidas para conservação.
Para investigar o estado atual da biodiversidade local, pesquisadores instalaram armadilhas fotográficas em uma área de 60 mil quilômetros quadrados no norte da Ucrânia. O monitoramento abrangeu a Zona de Exclusão de Chernobyl, quatro reservas naturais próximas e outras áreas sem proteção oficial, com registros realizados ao longo de 2020 e 2021.
Os resultados surpreenderam os cientistas. Das 31.200 detecções de 13 espécies de animais silvestres registradas durante o estudo, 19.832 ocorreram dentro da área afetada pelo desastre nuclear. Os números não representam indivíduos específicos, mas ocorrências de espécies, permitindo avaliar a diversidade e a frequência de presença da fauna em cada região analisada.
Segundo os pesquisadores, os modelos estatísticos elaborados a partir desses dados mostraram que a diversidade, a densidade e a frequência de detecção dos animais foram significativamente maiores dentro da Zona de Exclusão do que nas reservas naturais utilizadas para comparação.
Animais de Chernobyl
Entre as espécies observadas estão cavalos-de-przewalski, linces, alces, cervos-vermelhos, cães-guaxinins e ursos-pardos. O estudo indica que espécies raras apresentaram recuperação expressiva na região, enquanto alguns animais considerados mais comuns e adaptáveis não alcançaram os níveis de recuperação esperados.
A principal explicação apontada pelos pesquisadores para esse fenômeno é a ausência de atividade humana na área desde a evacuação ocorrida após o acidente nuclear. Sem a presença constante de pessoas, a fauna encontrou condições favoráveis para ocupar e explorar o território ao longo das últimas décadas.
Esse cenário chamou a atenção dos autores da pesquisa. Svitlana Kudrenko, da Universidade Freiburg, na Alemanha, afirmou ao IFLScience que ficou “surpresa com o fato de a diversidade geral de espécies ser menor nas reservas naturais em comparação com a CEZ”.
A pesquisadora destacou ainda que esperava encontrar uma quantidade maior de raposas-vermelhas, conhecidas pela capacidade de adaptação a diferentes ambientes. Em contrapartida, os registros de cavalos-de-przewalski foram considerados uma das descobertas mais positivas do estudo.
Os cientistas contabilizaram mais de mil registros desses animais, que chegaram a ser considerados extintos na natureza durante a década de 1990. Após esforços de recuperação ecológica, a espécie voltou a prosperar em algumas áreas, incluindo a região de Chernobyl.
Embora a pesquisa não tenha sido desenvolvida para medir diretamente os efeitos da radiação sobre os animais, os autores observam que muitas espécies parecem estar se adaptando às condições locais. Eles citam resultados de um projeto realizado em 2024 que analisou lobos-cinzentos da Zona de Exclusão.
Segundo esse trabalho, os animais apresentavam sistemas imunológicos semelhantes aos de pacientes humanos submetidos à radioterapia, além de possíveis mutações associadas à proteção contra os efeitos da radiação.
Apesar dos resultados positivos para a biodiversidade, os pesquisadores defendem a continuidade do monitoramento de longo prazo da região. Para eles, compreender a dinâmica da fauna em ambientes complexos é fundamental para orientar estratégias de conservação, repercute a Revista Galileu.
“Pesquisas precisas e sistemáticas sobre a vida selvagem são vitais para uma gestão eficaz da fauna e flora. Reduzir os padrões e requisitos de pesquisa para áreas complexas é muito tentador, mas deve ser evitado, pois isso poderá levar a uma gestão equivocada. Nosso estudo, assim como muitos outros, forneceu evidências de que áreas protegidas espaçosas são vitais para a sobrevivência a longo prazo de espécies raras”, concluiu Kudrenko.