Vítor Soares / Chernobyl

Pé de elefante: O objeto mais radioativo e perigoso de Chernobyl

Formado após o desastre de Chernobyl de 1986, o Pé de Elefante é uma massa cinza altamente radioativa com capacidade de matar em poucos minutos

Fotografia do ‘pé de elefante’ em Chernobyl / Crédito: Divulgação/US Department of Energy

O desastre nuclear de Chernobyl, ocorrido entre os dias 25 e 26 de abril de 1986, há 40 anos, é considerado o mais grave da história. A explosão do reator nº 4 da usina, localizada próxima à cidade de Pripyat, então na Ucrânia Soviética, espalhou material radioativo por uma área estimada em 155 mil km², afetando regiões que hoje pertencem à Ucrânia, Belarus e Rússia. Décadas depois, parte desse território permanece inabitável, com níveis de radiação ainda elevados.

No interior da estrutura danificada, um dos elementos mais perigosos e emblemáticos do acidente ganhou um nome peculiar: o “Pé de Elefante”. Trata-se de uma massa altamente radioativa formada a partir do derretimento do núcleo do reator — um processo conhecido como fusão nuclear.

Durante esse evento, o calor extremo foi suficiente para liquefazer combustível nuclear, concreto e componentes metálicos, criando uma substância semelhante à lava. Com o tempo, esse material esfriou e endureceu, dando origem ao chamado corium, uma das substâncias mais tóxicas já produzidas.

Usina nuclear de Chernobyl algumas semanas após a explosão / Crédito: Getty Images

Massa ultra-radioativa

A massa se depositou no subsolo do reator 4, em um corredor de distribuição de vapor, adquirindo o formato que inspirou seu apelido. Visualmente, lembra uma formação irregular e densa, semelhante a um bloco rochoso, mas sua aparência engana: trata-se de um dos resíduos mais perigosos do desastre.

Logo após o acidente, o “Pé de Elefante” emitia cerca de 10.000 roentgens de radiação por hora — uma dose extremamente letal. Para efeito de comparação, a exposição a 500 roentgens por algumas horas já seria suficiente para causar a morte. Mesmo uma breve permanência próxima à substância poderia provocar sintomas severos, como vômitos, febre e comprometimento cognitivo.

Com o passar dos anos, houve uma redução natural da radiação devido ao decaimento radioativo. Ainda assim, a área permanece altamente perigosa. Em 1986, a exposição direta ao material poderia ser fatal em cerca de 30 segundos. Hoje, embora menos intensa, a radiação ainda pode causar a morte após aproximadamente 300 segundos de exposição contínua.

Registro e estudos

A imagem mais conhecida do “Pé de Elefante” foi registrada em 1996 por Artur Korneyev, um especialista nuclear que participou das operações no local. Sua missão incluía localizar combustível contaminado e medir níveis de radiação dentro da usina. Ao comentar sua experiência, ele afirmou: “Nós fomos os pioneiros. Estivemos sempre na vanguarda”. Em outro momento, fez uma observação marcada por ironia: “A radiação soviética é a melhor radiação do mundo”.

A própria fotografia apresenta uma aparência granulada, possivelmente causada pela radiação intensa que afetou o filme da câmera. Na época, mesmo uma década após o acidente, permanecer na mesma sala que a formação radioativa ainda representava um risco significativo à saúde.

Além do perigo inerente à radiação, o “Pé de Elefante” também impôs desafios práticos aos cientistas que tentaram estudá-lo. Inicialmente, sua estrutura era tão densa que métodos convencionais de coleta de amostras não eram suficientes. Para extrair fragmentos do material, foi necessário recorrer a um fuzil de assalto Kalashnikov, disparando contra a massa para quebrar pequenos pedaços para análise.

Com o tempo, no entanto, a substância passou por alterações físicas. “Agora tem mais ou menos a consistência de areia”, disse Maxim Saveliev à revista Science em 2021, indicando que o material se tornou mais friável.

Fotografia em que é possível ver corium fluindo de reator / Crédito: Divulgação/PNNL Library

“Sarcófago” de Chernobyl

Após o acidente, o reator 4 foi envolto em uma estrutura de concreto conhecida como “sarcófago”, projetada para conter a radiação e os detritos. Apesar dessa contenção, a massa radioativa permanece ativa até hoje, emitindo radiação continuamente. Houve preocupações de que o material pudesse penetrar mais profundamente no solo devido a reações químicas internas e eventualmente alcançar o lençol freático; no entanto, felizmente esses temores não se concretizaram.

A formação do “Pé de Elefante” é um exemplo extremo das consequências de um acidente nuclear de grande escala. Ela sintetiza, em uma única estrutura, o impacto físico, químico e ambiental da explosão de Chernobyl. Ao mesmo tempo, permanece como um símbolo duradouro dos riscos associados à energia nuclear quando falhas de projeto e erros operacionais convergem.

Mesmo após quase quatro décadas, o local continua a atrair interesse científico e histórico. As imagens e relatos associados ao “Pé de Elefante” ajudam a dimensionar a magnitude do desastre e a compreender os desafios enfrentados por aqueles que atuaram diretamente na contenção de seus efeitos.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.