Fenômeno que há décadas escapava da observação dos astrônomos pôde ser finalmente registrado por meio do Telescópio Espacial James Webb
Um estudo publicado nesta quarta-feira, 26, na revista Nature Astronomy revelou a presença de auroras em Netuno, um fenômeno que há décadas escapava da observação dos astrônomos. Utilizando os avançados instrumentos infravermelhos do Telescópio Espacial James Webb, os cientistas identificaram essas luzes atmosféricas espalhadas por ambos os lados do equador do planeta – um contraste marcante com as auroras que normalmente brilham nos polos de outros mundos.
A descoberta encerra uma longa busca. “Todos estão muito animados por provar que elas estão lá, exatamente como imaginávamos”, afirmou Rosie Johnson, pesquisadora de física espacial da Universidade de Aberystwyth, no País de Gales, que não participou do estudo. Além de confirmar a existência das auroras, os dados permitirão que os cientistas compreendam melhor a forma do campo magnético do planeta, segundo Carl Schmidt, astrônomo planetário da Universidade de Boston.
Auroras surgem quando partículas energéticas – geralmente vindas do Sol – interagem com gases atmosféricos, produzindo flashes luminosos. Se o planeta tiver um campo magnético, ele direciona essas luzes para regiões específicas. No entanto, diferentemente das auroras da Terra, Marte ou Júpiter, as de Netuno permaneceram invisíveis por muito tempo.
Henrik Melin, cientista planetário da Universidade de Northumbria, explica que astrônomos tentavam detectar esse fenômeno há décadas, sem sucesso. A Voyager 2, única espaçonave a visitar Netuno, registrou indícios de auroras em 1989, mas observações posteriores – incluindo as feitas pelo Telescópio Espacial Hubble – não conseguiram confirmar sua existência. Felizmente, o James Webb o fez.
Heidi Hammel, astrônoma da Associação de Universidades para Pesquisa em Astronomia e coautora do estudo, acompanha Netuno desde os anos 1980. Se o Webb era capaz de enxergar as primeiras galáxias do universo, certamente conseguiria detectar auroras em Netuno, afirmou. “E, por Deus, conseguiu”, destacou.
Os dados capturados pelo telescópio mostram que as auroras neptunianas aparecem em latitudes médias, e não nos polos, devido ao campo magnético desalinhado do planeta, inclinado em 47 graus em relação ao seu eixo de rotação. Além disso, uma descoberta inesperada veio à tona: a atmosfera superior de Netuno está significativamente mais fria do que há 40 anos.
A Voyager 2 registrou, em 1989, temperaturas em torno de 900 graus Fahrenheit (aproximadamente 482°C). No entanto, as medições feitas pelo Webb revelaram que essa temperatura caiu para cerca de 200 graus Fahrenheit (-93°C), tornando as auroras muito mais fracas e difíceis de detectar.
Segundo James O’Donoghue, astrônomo planetário da Universidade de Reading, na Inglaterra, elas estão brilhando com menos de 1% do brilho esperado. “Isso explica por que nunca as vimos antes. No entanto, agora temos um novo mistério: como Netuno esfriou tanto?”, destacou.
Com a detecção desse fenômeno, novas respostas podem surgir. “As auroras são como uma tela de TV”, disse Leigh Fletcher, cientista planetário da Universidade de Leicester. Elas permitem que os cientistas “assistam à dança delicada dos processos na magnetosfera — tudo isso sem precisarmos estar lá.”