Império Wari pode ter usado cerveja psicodélica para consolidar poder
Cerveja misturada com psicodélicos pode ter ajudado o império pré-inca de Wari, no Peru, a conquistar elite estrangeira e consolidar poder, diz estudo

Pesquisadores propõem que o crescimento da civilização pré-inca conhecida como Wari pode ter sido impulsionado pelo consumo de uma cerveja misturada com substâncias psicoativas, segundo um novo estudo.
Os Wari, que prosperaram entre aproximadamente 600 e 1000 d.C., são reconhecidos por suas práticas funerárias envolvendo múmias, sacrifícios humanos e pela produção de objetos elaborados em ouro, prata e bronze. Eles construíram cidades como Huari e Pikillaqta, que abrigavam templos e residências para a elite, e controlaram vastas regiões do Peru, assim como partes da Argentina e do Chile.
No estudo, publicado na revista La Revista de Arqueología Americana na última segunda-feira, 6 de outubro, os autores sugerem que os governantes Wari utilizavam substâncias psicoativas misturadas à cerveja para facilitar a expansão de seu império. Os pesquisadores explicam que o efeito prolongado dessa bebida poderia durar semanas, promovendo encontros comunitários onde a bebida era consumida. Embora o corpo elimine rapidamente os psicoativos, seus efeitos podem persistir por dias ou até semanas.
As análises revelaram que sementes da planta Anadenanthera colubrina, conhecida como vilca, foram encontradas em sítios Wari, especialmente próximos a restos de cerveja feita da planta Schinus molle. A mistura da vilca, conhecida por seus efeitos alucinógenos, com a cerveja teria “reduzido, mas prolongado o efeito”, conforme afirma Justin Jennings, curador de Arqueologia Sul-Americana no Museu Real de Ontário e coautor do artigo, em e-mail ao Live Science.
No texto científico, os autores observam que estudos anteriores sobre substâncias psicoativas similares indicam que usuários tendem a apresentar “maior abertura e empatia“. Essas características seriam altamente desejáveis em um sistema político Wari que dependia de interações amistosas entre pessoas que anteriormente eram estranhas ou até inimigas.
A bebida psicoativa seria consumida em festivais comunitários realizados em áreas fechadas nas residências dos oficiais Wari. Os pesquisadores afirmam que essa experiência compartilhada teria enriquecido o evento social.
“Quando os hóspedes chegavam aos complexos Wari, reuniam-se em pátios que só acomodavam confortavelmente algumas dezenas de pessoas”, destacaram os pesquisadores. “Com exceção de um pedaço de céu, eles ficavam isolados do resto do mundo em um espaço interno com paredes altas — este era o lugar onde passavam horas juntos bebendo, comendo, conversando e rezando. As horas que os participantes passaram juntos devem ter sido uma experiência coletiva inesquecível que criou laços fortes entre os participantes“.
A utilização regular da cerveja psicoativa e seus efeitos duradouros desempenharam um papel crucial na consolidação do poder político no Império Wari, afirmou Jacob Keer, pesquisador independente e coautor do estudo. Os efeitos psicológicos duradouros resultantes do consumo ocasional da cerveja vilca poderiam estabelecer um novo padrão cognitivo, promovendo uma maior abertura e empatia entre os participantes dos banquetes.
No contexto de um império em expansão, onde a violência e a animosidade eram comuns, os efeitos persistentes [do consumo] podem ter sido essenciais para a legitimação e consolidação dos Wari”, escreveram os autores.
Controvérsias
No entanto, acadêmicos não envolvidos na pesquisa apresentaram reações mistas às conclusões do estudo. Patrick Ryan Williams, diretor da Escola de Evolução Humana e Mudança Social da Universidade Estadual do Arizona, comentou que a equipe apresentou uma “hipótese interessante”, mas alertou para a incerteza quanto à inclusão real da vilca na cerveja.
“Não estou convencido, no entanto, de que a descoberta de sementes de vilca em uma área onde a cerveja molle era consumida constitua evidência de que a vilca tenha sido incluída como ingrediente na cerveja”, disse Williams. Ele complementa que isso seria como encontrar cocaína no chão de uma boate e assumir que a droga foi colocada nas bebidas.
Williams ainda ressaltou: “Quando um traço químico de vilca for encontrado nos poros cerâmicos de copos, estarei mais aberto à premissa apresentada aqui.”
A arqueóloga Mary Glowacki, presidente do Grupo de Pesquisa Arqueológica Pré-Colombiana, classificou o artigo como “instigante”, embora tenha observado que muitas sociedades andinas antigas utilizavam substâncias intoxicantes – incluindo vilca – para negociações políticas. Ela questionou se o uso de psicodélicos pelos Wari era realmente diferente do praticado por outros grupos na região.