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Antigo barco de luxo egípcio é descoberto na costa de Alexandria

Datado da primeira metade do século 1, barco de luxo que servia para celebrações foi descoberto na costa de Alexandria, no Egito

Madeira de barco de luxo egípcio descoberto na costa de Alexandria / Crédito: Divulgação/Fundação Hilti/Franck Goddio e Christoph Gerigk

Recentemente, uma embarcação luxuosa de lazer do Antigo Egito, que corresponde a uma descrição do historiador grego do primeiro século, Estrabão, foi encontrada nas proximidades da costa de Alexandria, gerando grande entusiasmo entre arqueólogos.

Alexandria, famosa por seus palácios, templos e pelo Farol de Alexandria (com 130 metros e uma das sete maravilhas do mundo antigo), foi um dos centros urbanos mais impressionantes da antiguidade. A embarcação descoberta, que remonta à primeira metade do primeiro século, possui 35 metros de comprimento e foi projetada com um pavilhão central e uma cabine luxuosamente decorada. A descoberta em questão ocorreu na ilha submersa de Antirhodos, que fazia parte do antigo Portus Magnus de Alexandria.

Estrabão visitou a cidade egípcia entre 29 e 25 a.C. e descreveu essas embarcações como “luxuosamente equipadas e usadas pela corte real para excursões; e a multidão de foliões que desce de Alexandria pelo canal para os festivais públicos; pois todos os dias e todas as noites os barcos estão lotados de pessoas que tocam flauta e dançam sem restrições e com extrema licenciosidade”.

Descoberta

A escavação foi realizada pelo Instituto Europeu de Arqueologia Subaquática (IEASM), sob a direção de Franck Goddio, professor visitante de arqueologia marítima na Universidade de Oxford.

Em entrevista ao The Guardian, Goddio expressou seu entusiasmo: “É extremamente emocionante porque é a primeira vez que um barco desse tipo é descoberto no Egito. […] Esses barcos foram mencionados por diferentes autores antigos, como Estrabão, e também foram representados em algumas iconografias — por exemplo, no mosaico de Palestrina, onde se vê um barco semelhante, porém muito menor, com nobres caçando hipopótamos. Mas [um barco de verdade] nunca havia sido descoberto antes”.

Diferentemente do mosaico que retrata um barco de aproximadamente 15 metros, a embarcação encontrada é significativamente maior. As madeiras bem preservadas indicam que ela tinha cerca de 7 metros de largura e provavelmente necessitava da força de mais de 20 remadores para navegar, conforme descrito em comunicado.

A embarcação estava localizada a apenas 7 metros abaixo da superfície da água e a 1,5 metros sob os sedimentos. Inicialmente, Goddio pensou que poderia haver duas embarcações sobrepostas devido ao tipo peculiar de construção. Ele observou: “A proa é plana […] e a popa é arredondada […] para permitir a navegação em águas muito rasas”.

Fotogrametria 3D do barco de luxo / Crédito: Divulgação/Fundação Hilti/Franck Goddio e Christoph Gerigk

Os projetos mais ambiciosos de Goddio têm sido realizados ao largo da costa do Egito, especialmente no porto oriental de Alexandria e na Baía de Abu Qir. Desde 1992, ele tem explorado extensas áreas em parceria com o Ministério das Antiguidades do Egito.

Em 2000, as ruínas da antiga cidade de Thonis-Heracleion e partes da cidade de Canopus foram descobertas na Baía de Abu Qir, sendo consideradas uma das maiores descobertas arqueológicas dos tempos recentes. Entre os tesouros recuperados estão duas colossais estátuas de uma rainha e um rei ptolomaicos.

No ano de 2019, Goddio e sua equipe encontraram um naufrágio nas águas ao redor de Thonis-Heracleion cujos detalhes inusitados correspondiam à descrição feita por outro historiador grego antigo, Heródoto.

A mais recente descoberta está situada a menos de 50 metros do local do Templo de Ísis, onde Goddio já realizava escavações.

Teorias

O arqueólogo acredita que a embarcação pode ter afundado durante a destruição catastrófica desse templo em torno do ano 50 d.C., quando uma série de terremotos e ondas gigantes fez com que o Portus Magnus e partes da antiga costa afundassem no mar, engolindo palácios e outros edifícios.

Outra hipótese sugere que o barco poderia ser uma barca sagrada associada ao templo. Goddio afirmou: “Poderia ter sido parte da cerimônia naval da navigatio iside, quando uma procissão em celebração à deusa Ísis encontrava uma embarcação ricamente decorada — o Navigium — que representava a barca solar de Ísis, senhora do mar”.

Gravações em grego foram encontradas na carlinga central e ainda aguardam decifração. Ainda no início da pesquisa sobre o naufrágio, essa descoberta promete revelar novos conhecimentos sobre “a vida, a religião, o luxo e o prazer nas vias navegáveis ​​do antigo Egito romano”, conforme destacou Goddio.

Os últimos resultados científicos das escavações no templo de Ísis foram recentemente publicados pelo Centro Oxford para Arqueologia Marítima. O professor Damian Robinson, diretor do centro, comentou sobre a nova descoberta: “É um tipo de embarcação nunca antes encontrado. Embora possamos ler sobre barcos com cabine em textos antigos e vê-los em registros artísticos, é fenomenal ter a confirmação arqueológica”.

Vale mencionar que o naufrágio permanecerá no fundo do mar. Goddio enfatizou: “Estamos seguindo a regulamentação da Unesco, que considera melhor deixar os restos submersos”. Apenas uma pequena porcentagem da área foi explorada até agora, e as escavações devem ser retomadas em breve.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.