A Sombra do Comandante: conheça a história por trás do documentário
'A Sombra do Comandante' conta duas histórias reais que se relacionam aos horrores de Rudolf Höss e do campo de extermínio nazista de Auschwitz

Neste sábado, 18 de outubro, chega ao catálogo da Netflix o documentário ‘A Sombra do Comandante‘, lançado originalmente em 2024. Dirigido por Daniela Volker, ele explora duas histórias reais relacionadas aos horrores de Auschwitz, embora de lados completamente opostos: Hans-Jurgen Höss e Anita Lasker-Wallfisch.
Conforme repercute a Jewish Exponent, Anita, hoje com 100 anos, é uma violoncelista judia-alemã, que sobreviveu no campo de extermínio nazista de Auschwitz tocando na banda do local. Já Hans-Jurgen é um dos filhos de Rudolf Höss, o comandante de Auschwitz — e responsável pela morte de quase 1 milhão de judeus —, que tinha apenas 3 anos quando o local foi construído, e 7 quando foi libertado.
Legado de Höss
Um oficial alemão da SS nazista, Rudolf Höss serviu durante quase dois anos como comandante do campo de concentração de Auschwitz. Ele quem foi o responsável pela implementação das câmaras de gás, e estima-se que ele tenha sido o responsável pela morte de cerca de 950 mil judeus. Sua história chegou ao fim em 16 de abril de 1947, quando ele foi executado por seus crimes de guerra no próprio campo, a pedido dos prisioneiros sobreviventes.
No documentário, quem é apresentado como uma das histórias centrais é Hans-Jurgen Höss, filho de Rudolf, e seu filho — e neto do comandante nazista — Kai, um pastor evangélico alemão, que pressiona o pai a encarar o papel do avô no Holocausto.
“Posso falar sobre o trauma na minha família, como, por termos suprimido a verdade, meu pai e eu nunca falávamos sobre isso em casa“, conta Kai Höss no documentário. “Mas ainda assim tem efeitos muito negativos. E é isso que acontece quando coisas terríveis não são discutidas e você não as supera, e de alguma forma tenta fingir que nada aconteceu. Nunca foi negado em minha casa, mas simplesmente mantivemos isso em segredo”.
Ao longo da produção, Hans-Jurgen — que inicialmente afirma não conseguir imaginar o pai “fazendo mais do que papelada” em Auschwitz — lê a autobiografia de Rudolf, escrita por ele enquanto estava preso e aguardando a execução, pela primeira vez. E com isso descobre, também, a extensão de seu envolvimento no extermínio de judeus.
Hans fica chocado com o nível de detalhes com que o pai descreveu o assassinato em massa que supervisionou, em contraste com a banalidade com que escrevia sobre a vida com a esposa e os filhos vivendo ao lado do campo. Porém, até esse momento, Hans ainda não compreende completamente os horrores de Auschwitz — ele diz inclusive que foi lá que “passou a melhor parte de sua vida” —, até, também na produção, visitar o campo pela primeira vez e ver as câmaras de gás.

Além disso, o filme também mostra o reencontro de Hans com sua irmã mais velha, Inge-Brigitt — que faleceu desde que o documentário foi filmado —, após passarem 55 anos afastados. Ele chega a sugerir que eles poderiam ter lidado melhor com o trauma que compartilham se tivessem se reencontrado antes.
No entanto, ela, que era ex-modelo da Balenciaga e viveu discretamente por décadas nos Estados Unidos, afirma que não se preocupa com a história da família. Quando questionada se nega a responsabilidade do pai pelos horrores que ocorreram em Auschwitz, ela responde “não, por que? Era assim mesmo. Era o Terceiro Reich. Foi há muito tempo. Tudo isso é história, eu acho. O que posso fazer? O que posso dizer?”
Maya e Anita
Maya Lasker-Wallfisch, filha de Anita, é outra figura central no documentário. Ela é psicoterapeuta e autora de ‘Carta a Breslau’, em que conta a história de sua família — e se muda de Londres para Berlim durante o filme, o que adiciona atritos à relação já tênue que tinha com a mãe, buscando resgatar um pedaço de sua história familiar.
Quando Maya oferece à mãe a oportunidade de conhecer Hans e Kai, filho e neto de Rudolf Höss, no campo de Auschwitz, Anita a princípio resiste, mas apenas devido ao local. “Não tenho nada contra conhecer o filho de Höss“, disse ela, que hoje está com 100 anos. “Sou bastante deficiente. Mas se ele quiser vir à minha casa…”

Então, o documentário acompanha Hans e Kai Höss ao lado de Maya Lasker-Wallfisch para visitar Auschwitz juntos. E lá, pela primeira vez, Hans entendeu a extensão dos horrores cometidos pelo pai: “É horrível ver o que ele fez aqui, porque o conhecíamos como uma pessoa diferente”, disse.
“Só podemos esperar que isso não aconteça novamente e que tenhamos aprendido com isso”, acrescenta Hans. Porém, seu filho ressaltou que estava claro que a sociedade ainda não aprendeu: “Caso contrário, não haveria antissemitismo agora”.
Por fim, Hans e Kai viajaram até a Inglaterra para visitar os Lasker-Wallfisch — que, inclusive, Hans ressalta ser a primeira sobrevivente do Holocausto que ele encontrou —, com quem tomam um café. “Acho que o importante é que o filme também mostre uma saída. Reconciliação, esperança, perdão, amor, tentar novamente, graça”, afirma Kai, por fim. “Quando Anita nos convidou para sua casa, foi muito fofo. Eu realmente gostei. Foi uma bênção poder dar um abraço nessa senhora, mesmo eu não estando por perto quando tudo aconteceu”.