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Neto de Rudolf Höss relembra como descobriu que avô era carrasco nazista: “Vergonha”

Kai Höss, neto do oficial nazista Rudolf Höss, descobriu o passado sombrio do avô, e agora espalha a verdade sobre a história infame

Rudolf Höss e Kai Höss / Crédito: Getty Images

Kai Höss, um pastor evangélico de 63 anos, natural de Stuttgart, Alemanha, vivenciou uma revelação devastadora em sua juventude: a descoberta de que seu avô, Rudolf Höss, foi um oficial da SS e o comandante do campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. O impacto dessa revelação ainda ecoa em sua vida, refletindo um profundo sentimento de vergonha que o acompanha desde os dias escolares.

Embora não consiga recordar se estava na sexta ou sétima série no dia em que leu sobre as atrocidades cometidas sob o comando de seu avô, Kai lembra-se claramente da confusão e do terror que tomou conta dele ao perceber que compartilhava o sobrenome com um dos maiores assassinos em massa da história. Ao perguntar à mãe sobre a identidade do comandante, ela confirmou: “Esse é seu avô”. A partir desse momento, uma onda de paranoia e constrangimento o invadiu.

“Fiquei tão chocado que não queria mais voltar para a escola”, compartilha Kai em uma recente entrevista à People. “Achei que todos, meus professores e todos os meus amigos, deviam saber. Fiquei com medo e com muita vergonha.” Essa revelação se tornou uma ferida emocional que permanece aberta até hoje.

Kai expressa que essa herança é um lembrete constante de sua identidade. Em vez de ignorar esse passado sombrio, ele decidiu viajar pelo mundo para compartilhar a história de sua família, falando em sinagogas e centros comunitários judaicos sobre os horrores do Holocausto e enfatizando a importância da memória histórica.

“Não espero mudar o mundo, mas espero poder tocar algumas pessoas e começar a mudar alguns paradigmas”, afirma. Ele acredita que a narrativa pessoal tem o poder de impactar corações e gerar mudanças significativas.

Kai Höss / Crédito: Getty Images

Em suas palestras, Kai frequentemente lê trechos da autobiografia de Rudolf Höss, ‘O Comandante de Auschwitz‘, escrita enquanto ele aguardava execução em uma prisão polonesa. Apesar dos estudantes estarem familiarizados com os dados sobre o Holocausto, suas emoções se tornam palpáveis ao final das apresentações, muitas vezes resultando em lágrimas.

A transformação de Rudolf em um dos mais notórios perpetradores da história ainda intriga seu neto. Segundo Kai, essa metamorfose foi fruto de uma série de fatores complexos que culminaram na ascensão do mal em toda a Alemanha. Ele descreve isso como uma coleção de “pequenas peças de quebra-cabeça” que formaram uma onda devastadora.

Comandante de Auschwitz

Após se voluntariar para lutar na Primeira Guerra Mundial aos 15 anos, Rudolf passou por várias experiências traumáticas, incluindo prisão por homicídio. Com a ascensão do regime nazista, ele rapidamente se destacou nas fileiras do partido e foi designado por Heinrich Himmler para comandar Auschwitz em 1940. Durante seu tempo à frente do campo, Rudolf implementou métodos sistemáticos de exterminação e é responsável pela morte de mais de 950 mil judeus e outros prisioneiros.

Após a derrota da Alemanha nazista, Rudolf foi condenado por crimes contra a humanidade e executado em abril de 1947 diante de alguns dos sobreviventes de suas atrocidades. Antes da execução, ele questionou se seria lembrado como um “monstro”, afirmando, apesar das evidências contrárias, que esperava que as futuras gerações soubessem que o comandante tinha um coração.

Contudo, Kai é cético quanto a essa percepção. “No fim das contas, tudo o que posso dizer é que ele tinha uma escolha“, reflete. “Todos nós temos escolhas. E ele poderia ter dito: ‘Não, não vou matar mais de um milhão de pessoas’. Mas não fez isso. Ele se destacou nisso. Foi meticuloso. Ajudou a colocar tudo em movimento.”

Rudolf Höss preso após a guerra / Crédito: Getty Images

Memória do avô

Ao ler as memórias perturbadoras do avô pela primeira vez aos 16 anos, Kai sentiu uma mistura devastadora entre dor e amor pelas vítimas das ações brutais de Rudolf.

A maneira distante com que seu avô descrevia as mortes dos prisioneiros ainda assombra Kai. Ele relembra um relato horrendo sobre como Rudolf matou uma jovem judia, justificando-se ao afirmar que era melhor para ela morrer nas suas mãos do que cair nas garras dos oficiais subalternos. Essas narrativas são profundamente perturbadoras para ele.

Apesar da gravidade do legado familiar, Hans-Jürgen, pai de Kai e o quarto filho de Rudolf, evitou discutir abertamente o passado sombrio do avô com seu filho. Embora não negasse o Holocausto, considerava-o um assunto encerrado. Atualmente com 88 anos, Hans-Jürgen começa a confrontar as atrocidades cometidas por seu pai. Kai relata que sua mãe também descobriu sobre Rudolf somente anos após seu casamento.

Compreendendo o peso histórico que carrega consigo devido ao passado familiar conturbado — agora exposto em documentários e filmes — Kai optou por transformar sua vergonha em ação positiva. Ele está determinado a ser um defensor da verdade e usa sua plataforma para garantir que as atrocidades cometidas por seu avô nunca sejam esquecidas ou minimizadas.

Através das suas apresentações públicas, Kai observa frequentemente manifestações humanas genuínas que contrastam com a frieza que caracterizava Rudolf. Ele recorda emocionado um evento recente em Budapeste onde uma mulher idosa em cadeira de rodas pediu-lhe um abraço: “Só quero abraçar o neto do homem que assassinou metade da minha família”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.