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Quando um piloto tentou pousar um avião às cegas e levou 70 pessoas à morte

Na década de 1980, um piloto soviético ordenou o fechamento das cortinas da cabine de uma aeronave e tentou pousar às cegas; a atitude levou a um terrível incidente

Queda de avião teria ocorrido após um desafio imprudente na cabine - Crédito: Arquivo do Bureau de Acidentes de Aeronaves

Era 20 de outubro de 1986 e o capitão Alexander Kliuyev pilotava o voo 6502 da companhia aérea soviética Aeroflot, que levava levava 87 passageiros e sete tripulantes em uma viagem regular entre Sverdlovsk — atualmente chamada Ecaterimburgo — e Grozny, com escala prevista no aeroporto de Kuibyshev, no sudoeste da Rússia. Tudo correria bem, não fosse por um atitude questionável do piloto, que decidiu fechar as cortinas da cabine e tentar pousar a aeronave utilizando apenas os instrumentos de navegação — e isso custou a vida de 70 pessoas.

Como destaca o portal All That’s Interesting, aprender a realizar pousos sem referências visuais faz parte da formação de qualquer piloto. Em determinadas condições climáticas, como neblina intensa, os aviadores precisam confiar exclusivamente nos instrumentos da aeronave para concluir a aproximação com segurança. Contudo, esse tipo de procedimento costuma ser realizado durante treinamentos ou quando as condições realmente exigem.

No caso do voo 6502 da Aeroflot nada indicava a necessidade de uma aproximação desse tipo e a aeronave, um Tupolev Tu-134A, estava em perfeitas condições operacionais.

Problemas no pouso

A primeira etapa da viagem transcorreu sem qualquer anormalidade. O problema surgiu durante a aproximação para o pouso. Cerca de dois minutos antes de tocar a pista, Kliuyev ordenou ao engenheiro de voo que fechasse as cortinas posicionadas diante do para-brisa da cabine, eliminando completamente sua visão externa. A partir daquele momento, o comandante passou a depender apenas das informações fornecidas pelos instrumentos. Embora outros integrantes da tripulação tenham presenciado a decisão, ninguém interferiu para impedir a manobra.

Durante a aproximação final, o piloto calculou incorretamente tanto a altitude quanto a velocidade de descida da aeronave. Como consequência, o Tupolev atingiu a pista em velocidade muito superior à adequada para um pouso seguro. O impacto foi tão intenso que provocou o colapso do trem de pouso. Sem controle, o avião saiu da pista, capotou e foi tomado pelas chamas.

Acidente do voo 6502 da Aeroflot em 1986 deixou 70 mortos – Crédito: Arquivo do Bureau de Acidentes de Aeronaves

Infelizmente, de um total de 94 pessoas que estavam a bordo, apenas 24 sobreviveram ao acidente, entre elas o próprio comandante. Já o primeiro-oficial Gennady Zhirnov conseguiu escapar inicialmente, mas inalou grande quantidade de fumaça enquanto ajudava passageiros a deixar os destroços em chamas. Ele morreu durante o trajeto ao hospital após sofrer uma parada cardíaca.

O que a investigação concluiu

A investigação revelou que não havia qualquer motivo operacional para a tentativa de pouso exclusivamente por instrumentos. Segundo as autoridades soviéticas, o comandante simplesmente tomou a decisão sem que houvesse necessidade.

Na época, diversos veículos de imprensa, entre eles o Los Angeles Times, divulgaram que Kliuyev teria realizado a manobra por causa de uma aposta ou desafio. Essa conclusão teria sido sustentada por gravações da cabine e por declarações atribuídas ao próprio piloto durante as investigações. Posteriormente, porém, ele mudou sua versão dos fatos e alegou que o acidente teria sido provocado por um vazamento de combustível e por uma falha em um dos motores.

Apesar disso, a Justiça soviética concluiu que Kliuyev havia violado as normas de segurança da aviação civil. Como punição, ele foi condenado pela Suprema Corte da República Socialista Federativa Soviética Russa a 15 anos de prisão, mas no fim acabou cumprindo apenas seis anos da pena.

Por anos, o governo da União Soviética tentou limitar a divulgação das circunstâncias do acidente o caso seguiu cercado de sigilo. Por isso, muitos detalhes só vieram a público depois que um bombeiro que participou do resgate divulgou fotografias feitas no local da tragédia.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.