Vítor Soares / Estados Unidos

Como o horário de verão permanente causou pânico nos EUA?

Implementado durante a crise do petróleo para reduzir o consumo de energia, o horário de verão permanente perdeu apoio em poucos meses

Tempo horário de verão ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Getty Images

O horário de verão é adotado por cerca de um terço dos países do mundo e segue sendo tema de debate em diferentes regiões. Nos Estados Unidos, a mudança dos relógios ocorre desde 1966, quando o governo federal padronizou o sistema em quase todo o país. No entanto, uma tentativa de tornar o horário de verão permanente na década de 1970 acabou sendo abandonada poucos meses após entrar em vigor.

A medida foi implementada em janeiro de 1974, em meio à crise internacional do petróleo. O governo norte-americano buscava alternativas para reduzir o consumo de energia depois que países árabes membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) impuseram um embargo às exportações de petróleo para os Estados Unidos em resposta ao apoio americano a Israel durante a Guerra do Yom Kippur. Com o aumento dos preços dos combustíveis, autoridades passaram a adotar medidas de economia energética, incluindo a redução dos limites de velocidade nas rodovias.

Nesse contexto, o horário de verão permanente foi apresentado como uma forma de diminuir o consumo de eletricidade e combustíveis. A ideia não era inédita. A Alemanha havia sido o primeiro país a adotar oficialmente o sistema em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, e os Estados Unidos seguiram o exemplo dois anos depois, com a aprovação da Lei do Horário Padrão de 1918. Após o fim do conflito, porém, a medida foi revogada.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o país voltou a adotar o horário de verão durante todo o ano, período conhecido como “War Time”, entre 1942 e 1945. Encerrada a guerra, estados e municípios passaram a decidir individualmente se manteriam ou não o sistema, situação que gerou diferenças de horários entre localidades e dificuldades para setores como transporte e radiodifusão.

A padronização só ocorreu em 1966, com a aprovação da Lei do Horário Uniforme, que estabeleceu datas nacionais para o início e o fim do horário de verão nos estados que optassem por aderir ao sistema.

Caos com o horário de verão

A nova experiência começou oficialmente em 6 de janeiro de 1974. No mês anterior, o Congresso aprovou a legislação que determinava a adoção do horário de verão durante quase dois anos, proposta sancionada pelo presidente Richard Nixon. Pesquisas realizadas à época indicavam amplo apoio popular, com cerca de 79% dos americanos favoráveis à mudança.

Os primeiros dias, entretanto, foram marcados por problemas operacionais. Companhias aéreas precisaram reorganizar seus horários, enquanto passageiros perderam voos devido às alterações no funcionamento dos relógios.

As críticas aumentaram nas semanas seguintes por causa dos impactos nas manhãs de inverno. Em diversas regiões do país, o nascer do sol passou a ocorrer apenas por volta das 8h30, obrigando crianças e adolescentes a se deslocarem para a escola ainda no escuro. Autoridades e veículos de imprensa passaram a recomendar o uso de lanternas, roupas com faixas refletivas e deslocamentos em grupo para aumentar a segurança dos estudantes.

Casos de atropelamentos registrados em alguns estados ampliaram a preocupação pública. Em Connecticut, quatro adolescentes foram atingidos por veículos no trajeto para a escola logo após a entrada em vigor da medida. Na Flórida, oito estudantes morreram atropelados nas semanas seguintes, intensificando o debate sobre os efeitos da mudança.

Embora o Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos tenha informado posteriormente que não havia sido identificado aumento estatisticamente significativo nas mortes de estudantes em comparação com o mesmo período do ano anterior, a percepção de insegurança contribuiu para a rápida queda da popularidade da política.

Em fevereiro de 1974, pouco mais de um mês após o início da experiência, apenas 42% dos americanos ainda apoiavam o horário de verão permanente, segundo levantamento do National Opinion Research Center.

Apesar das críticas, parte da população defendia a medida por proporcionar mais horas de luz natural durante o fim da tarde, benefício considerado positivo principalmente por trabalhadores que encerravam suas atividades após o pôr do sol durante o inverno.

O cenário político também influenciou o desfecho da iniciativa. Após a renúncia de Richard Nixon em decorrência do escândalo de Watergate, o Congresso passou a discutir o encerramento antecipado da experiência. Embora estimativas apontassem economia de aproximadamente 100 mil barris de petróleo por dia entre janeiro e abril de 1974, parlamentares concluíram que a rejeição popular superava os benefícios obtidos.

O presidente Gerald Ford sancionou a legislação que restabeleceu o horário padrão durante o inverno a partir de outubro de 1974. Desde então, os Estados Unidos mantêm o sistema de alternância entre horário padrão e horário de verão, embora propostas para adotar um modelo permanente continuem sendo debatidas no Congresso. Enquanto defensores argumentam que a medida pode estimular atividades econômicas e ampliar o período de luz natural no fim do dia, críticos apontam possíveis impactos sobre o sono, a saúde e até mesmo o consumo de energia.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.