O que aconteceu com Elize Matsunaga e como ela vive hoje?
Elize Matsunaga chocou o Brasil após assassinar o marido, Marcos Kitano, em 2012; agora, é figura central de nova produção da Netflix

A trajetória de Elize Matsunaga voltou a ocupar o centro das atenções no debate público impulsionada por uma nova produção audiovisual. Nesta quarta-feira, 22 de julho, a Netflix lança o longa-metragem ‘Elize: Sombras de Uma Mulher’, estrelado por Lorena Comparato e escrito por Raphael Montes e Mariana Torres, com direção de Felipe Vellas.
A produção dramatiza os bastidores e os conflitos psicológicos do relacionamento que culminou no assassinato de Marcos Kitano Matsunaga. A repercussão do filme soma-se ao impacto recente de ‘Tremembé’, série do Amazon Prime Video sobre o cotidiano da penitenciária paulista que conquistou o público em 2025, trazendo à tona a pergunta: como vive Elize Matsunaga após o crime que chocou o país?
O crime em 2012
O caso teve início na noite de 19 de maio de 2012, quando Marcos Matsunaga, herdeiro e diretor executivo da empresa alimentícia Yoki, foi morto no apartamento de luxo onde vivia com a esposa e a filha do casal, na capital paulista.
Segundo o g1, o relacionamento atravessava um período de desgaste devido a suspeitas de infidelidade. Naquela noite, após o empresário retornar com uma pizza, o casal discutiu intensamente. Elize afirmou ter levado um tapa no rosto, sentido-se ameaçada e efetuado um disparo de arma de fogo contra o marido.
Após o disparo, o corpo foi esquartejado e as partes foram acondicionadas em malas e sacos plásticos, posteriormente abandonados em diferentes pontos da Grande São Paulo e na região de Cotia.
Presa semanas depois, Elize confessou o homicídio e a ocultação de cadáver, alegando ter agido sob desespero durante a briga. A acusação, contudo, sustentou a tese de crime planejado por vingança e motivação financeira, destacando o depoimento de uma babá que relatou a compra de uma serra elétrica pela ré na véspera do ato.
O julgamento de Elize ocorreu em 2016, durando sete dias. Na ocasião, a ré declarou que “não estava normal” no momento do crime e expressou arrependimento. A sentença inicial fixou a pena em 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão. Em 2019, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reduziu a condenação para 16 anos e 3 meses de reclusão, considerando a confissão espontânea.
Rotina em Tremembé e abatimento da pena
Durante os anos em que esteve reclusa na Penitenciária Feminina I de Tremembé, conhecida por abrigar detentos de casos de grande repercussão nacional, Elize manteve uma rotina voltada ao trabalho e aos estudos. Ela concluiu cursos profissionalizantes, participou de projetos de incentivo à leitura e atuou na confecção de uniformes e máscaras de proteção durante a pandemia de Covid-19.
O empenho nas atividades internas garantiu a remição de parte da pena. Em 30 de maio de 2022, o Departamento Estadual de Execução Criminal da 9ª Região Administrativa Judiciária (Deecrim), sediado em São José dos Campos, concedeu a progressão para o regime aberto, liberando-a sob condicional.
Liberdade condicional e controvérsias
Longe do cárcere, Elize passou a residir no interior paulista. Na região de Franca, buscou reestabelecer sua renda atuando como motorista de transporte por aplicativo em um veículo Honda Fit.
Para prestar o serviço, adotou o nome de solteira, Elize Araújo Giacomini. Segundo observações do jornalista e escritor Ulisses Campbell, autor da biografia ‘Elize Matsunaga: A Mulher que Esquartejou o Marido’, os passageiros costumavam recebê-la de forma pacífica, registrando avaliações positivas na plataforma.
A rotina de ressocialização, contudo, enfrentou percalços jurídicos em março de 2023. A Polícia Civil de Sorocaba instaurou uma investigação sobre o suposto uso de documentos falsificados por parte de Elize durante um processo seletivo em uma construtora local. A suspeita surgiu porque, ao pleitear a vaga, ela teria apresentado uma certidão de antecedentes de outro funcionário contendo seu nome de solteira, com o intuito de ocultar a condenação.
Detida preventivamente para prestar esclarecimentos no 8º Distrito Policial da cidade, Elize negou as irregularidades e foi liberada no mesmo dia. Seu advogado, Luciano Santoro, reiterou publicamente que a cliente “nem teria qualquer motivo para tanto, já que seu processo não transitou em julgado e ela poderia ter a certidão de antecedentes sem apontamentos”.

Reflexões sobre o passado
A visibilidade renovada sobre o caso, impulsionada pelas produções audiovisuais sobre Tremembé e pela ficção da Netflix — desenvolvida pela Boutique Filmes para debater temas como violência doméstica, desigualdades de classe e relações de poder —, levou a egressa a se manifestar nas redes sociais.
Em declaração em vídeo ao lado de sua equipe jurídica, Elize comentou sobre a nova fase de sua vida e refletiu sobre as consequências de seus atos: “Estou muito feliz por ter vencido, pelas pessoas que me apoiaram e me compreenderam. Infelizmente, não posso consertar o que passou. Estou tendo uma segunda chance, infelizmente, o Marcos não. Mas eu acredito que, na espiritualidade, ele já tenha me perdoado. Peço isso todas as vezes nas orações”.
Na mesma gravação, manifestou gratidão ao seu círculo social e aos seus defensores. “Muito obrigada pelo apoio. Muito obrigada às pessoas que me compreendem, muito obrigada aos meus advogados, à minha família e aos meus amigos”, afirmou. Ao ser questionada pelo advogado se iria “nunca mais voltar pra aquele lugar né, Elize?”, a egressa respondeu: “Nunca mais”.