A Odisseia: Nolan usou navio viking que navega de verdade no filme
Embarcação viking usada no filme de Christpher Nolan reflete anacronismo histórico, mas não peca em veracidade de capacidade de navegação

O filme “A Odisseia”, dirigido por Christopher Nolan e que estreou nos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 16, utilizou um navio totalmente funcional durante suas filmagens em alto-mar. Em vez de recorrer exclusivamente a efeitos visuais ou cenários, a produção escolheu o Draken Harald Hårfagre, uma embarcação construída em tamanho real com técnicas tradicionais da engenharia naval viking.
Segundo Emanuel Persson, CEO e diretor de expedição do navio, a utilização da embarcação conferiu autenticidade às cenas gravadas no mar. “Há algo a bordo que não pode ser facilmente falsificado: o peso do carvalho, o som do cordame, o movimento da vela, a tripulação trabalhando em conjunto com vento e água reais”, afirmou ao site Artnet.
A experiência também foi destacada pela atriz Zendaya, intérprete da deusa Atena no longa. Em um vídeo de bastidores, ela ressaltou o impacto de atuar em uma embarcação real. “Como atriz, é um luxo estar em um espaço tão imersivo”, disse. “Não preciso fingir que estou em um barco. Estou no barco. Estamos em alto mar”.
As gravações, no entanto, também apresentaram desafios para o elenco. Em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, Christopher Nolan revelou que, durante as filmagens realizadas na costa da Escócia, em julho de 2025, parte dos atores coadjuvantes sofreu com o forte balanço das águas e chegou a vomitar durante as cenas. Apesar do desconforto enfrentado por alguns integrantes da equipe, o diretor foi informado de que as condições de navegação permaneciam seguras e decidiu prosseguir com as filmagens.
Além das dificuldades provocadas pelo mar, os atores precisaram participar de um treinamento específico para operar a embarcação. Matt Damon, que interpreta Odisseu, explicou que todo o elenco passou por um período de preparação para aprender a remar corretamente e ajudar na movimentação do navio.
“Fomos para um acampamento de remo. Tínhamos que mover de verdade esse navio de cem toneladas. Não é um trabalho de atuação comum. Você está interpretando um papel, mas também desempenhando uma função real no navio, ajudando a movimentá-lo”, declarou o ator à Associated Press (AP).
Anacronismo
Embora tenha sido inspirado em embarcações da Era Viking, o Draken Harald Hårfagre representa, no filme, um navio de guerra da Grécia Antiga. A escolha constitui um anacronismo histórico, já que os vikings viveram cerca de dois milênios após o período em que se passa a narrativa atribuída a Homero, ambientada no fim da Idade do Bronze. A produção também adota outras licenças criativas, como diálogos em linguagem contemporânea e sotaques americanos entre os personagens.
A construção do Draken começou em 2010, na Noruega, por iniciativa do empresário do setor de petróleo e gás Sigurd Aase, que desejava concretizar o projeto de um grande navio inspirado na tradição marítima viking. A embarcação foi produzida em madeira de carvalho utilizando a técnica de sobreposição de tábuas, método preservado pela construção naval norueguesa, repercute a Revista Galileu.
Com mais de 35 metros de comprimento, cerca de 8 metros de largura, 50 remos e um mastro de 24 metros de altura, o navio foi lançado ao mar em 2012. Em 2016, realizou sua primeira travessia do Atlântico, passando pela Islândia, Canadá e Estados Unidos.
Durante as filmagens de “A Odisseia”, a tripulação compartilhou seus conhecimentos de navegação com os atores e insistiu para que o Draken fosse tratado como uma embarcação operacional, e não apenas como parte do cenário.
“Do nosso ponto de vista, o mais importante era que o Draken fosse tratado como uma embarcação real”, afirmou Persson. “Ela tem sua própria personalidade, limitações e pontos fortes. Quando você respeita isso, obtém algo muito mais poderoso do que mera decoração.”
Para o diretor de expedição, a participação do navio no longa também pode despertar maior interesse pela tradição marítima escandinava e pela engenharia naval desenvolvida pelos vikings.
“O filme pode ser a primeira vez que milhões de pessoas veem Draken, mas por trás dessa imagem existe uma jornada muito maior”, acrescenta Persson. “Quando você está no convés de Draken, entende imediatamente que atravessar o mar em um navio viking não era uma ideia abstrata. Era frio, úmido, perigoso, belo e profundamente humano.”
Após participar das atividades relacionadas ao lançamento do filme, incluindo uma viagem encerrada em Oslo, na Noruega, o Draken Harald Hårfagre deverá retomar suas expedições pelas águas da Escandinávia e do Atlântico Norte.