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Na Copa de 1978, jogador argentino se recusou a jogar por causa da ditadura

Capitão da seleção argentina se recusou a jogar na Copa de 1978 por não compactuar com os feitos da ditadura

O jogador Jorge Carrascosa - Crédito: Domínio público

A Argentina, uma das seleções mais fortes da Copa do Mundo, acaba de conquistar a tão sonhada vaga para as quartas de final do torneio. O jogo corre neste sábado, 11, quando Messi e companhia enfrentam a Suíça. Felizmente para os hermanos, a seleção europeia está longe de ter o mesmo prestígio que o time sul-americano, que conta com três estrelas na camisa — dois a menos que o Brasil, mas ainda uma das seleções mais tradicionais do futebol. No entanto, é preciso dizer que o primeiro dos títulos mundiais da Argentina foi obtido em meio a um cenário conturbado.

Era ano de 1978 e o país de Diego Maradona passava por um de seus momentos mais sangrentos. Ainda assim, foi escolhido para sediar a competição. Na época, Jorge Carrascosa era capitão da seleção. Muito culto e consciente, o lateral-esquerdo respondeu com o silêncio à matança brutal que ocorria em seu país.

”Seleção para mim terminou”, disse o craque.

A mala branca

O ponto, conforme o portal UOL Esportes, era que o jogador possuía uma ética inegociável. Prova disso foi um episódio ocorrido quatro anos antes. Ele, que havia se ferido no Mundial disputado na Alemanha Ocidental, ficou profundamente incomodado quando soube que dirigentes argentinos haviam oferecido uma “mala branca” à seleção da Polônia a fim de que derrotasse a Itália, assim favorecendo a classificação da Argentina.

Inconformado diante daquela situação o atleta não se calou:

Me caiu muito mal. Devo render o máximo sem que me ofereçam nada em troca. Desvirtuou a essência do esporte. Não presto e nunca vou prestar para isso. As pessoas devem diferenciar as coisas boas das ruins.

Aí veio 1978. Aos 29 anos, Carrascosa era o grande capitão da seleção comandada por César Luis Menotti. Ele, que havia feito toda a preparação necessária para a competição, era considerado presença certa entre os titulares. Porém, poucas semanas antes da competição, depois de seu nome aparecer na lista oficial dos convocados enviada à Fifa, o craque comunicou ao treinador que não disputaria o torneio. Menotti insistiu, fez de tudo para convencer Carrascosa a jogar pelo país, mas nada foi capaz de fazê-lo mudar de ideia.

Do silêncio, a resposta

Carrascosa jamais apresentou uma explicação detalhada para sua recusa. Preferiu preservar o silêncio, evitando expor antigos companheiros. Ainda assim, o amigos falaram por ele:

Carrascosa recusou ser cúmplice do golpe militar. Nunca explicou nada por respeito aos companheiros.

Até hoje, parte da sociedade argentina debate o quanto os jogadores daquela seleção sabiam sobre os crimes cometidos pela ditadura.

Deixando os campos

Não tardaria muito até que viesse a aposentadoria definitiva de Carrascosa, aos 31 anos de idade. Ele jogava pelo Huracán e tomou a decisão mesmo tendo dois anos de contrato pela frente.

A vida passa por coisas mais importantes que o futebol”, disse o ex-atleta.

Hoje ele vive em Buenos Aires, capital de seu país, onde trabalha com seguros. É casado e tem duas duas filhas e quatro netas.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.