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A Bíblia de 1747: conheça a relíquia alemã preservada no sul do Brasil

Trazida por imigrantes, bíblia do século 18 preserva o modelo luterano original, com retratos de Martinho Lutero e a Confissão de Augsburgo

Fotografias da Bíblia de 1747 / Crédito: Divulgação

O Memorial Anneken, em Rolante, no vale do Paranhana, Rio Grande do Sul, guarda uma relíquia de quase trezentos anos: uma Bíblia luterana publicada em 1747, em Nuremberg, na Baviera. Conhecida como “Bíblia de 1747”, exemplar foi adquirido em um sebo, em fevereiro de 2026, e colocado em exposição pela Caminho das Águas, cooperativa gaúcha criada em 1923 e integrante do sistema Sicredi. A peça é considerada a Bíblia luterana mais antiga em exposição no Brasil.

A Bíblia de 1747, que está em exibição em Rolante, foi trazida da Alemanha por imigrantes do século 20. A presença de luteranos no Brasil, no entanto, data de 1824, com a chegada dos primeiros imigrantes germânicos a Nova Friburgo, no Rio, e São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

Calcografia e xilogravura da Bíblia de 1747 / Crédito: Divulgação

Os pioneiros guardavam uma herança secular, com origem no século 16, quando o monge agostiniano alemão e professor universitário Martinho Lutero liderou um movimento religioso que rompeu com o catolicismo. Lutero lecionava em Wittenberg, na Saxônia, quando em 1517 afixou na porta da igreja local um conjunto de reflexões condenando a venda de indulgências.

No século 16, a Igreja Católica concedia o perdão pelos pecados cometidos pelos fiéis ou seus parentes mediante uma recompensa financeira. Lutero contestou a moralidade de tal comércio e seus questionamentos teológicos acabaram por dividir a Igreja e modificar as estruturas sociais e políticas vigentes. Daí surgiriam vários grupos confessionais cristãos, como os luteranos, calvinistas, anglicanos, adventistas e batistas.

No Brasil, os luteranos hoje são representados por duas instituições: IECLB — Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e IELB — Igreja Evangélica Luterana do Brasil.

Gutenberg e os tipos móveis

Até meados do século 15, os livros eram escritos manualmente pelo autor ou por um monge copista que reproduzia a obra. Na década de 1440, Johannes Gutenberg (1396-1468) começou a imprimir os primeiros folhetos com um novo método: a prensa de tipos móveis.

Gutenberg adaptou uma prensa usada na fabricação de vinho e criou tipos móveis metálicos para cada letra do alfabeto, o que permitia a montagem de textos e sua aplicação em folhas de papel soltas, que eram depois juntadas para a composição do livro. Em 1455, ele imprimiu o primeiro livro europeu: a Bíblia. A partir de então, era possível imprimir muitas cópias da mesma obra em um tempo infinitamente menor.

O método de Gutenberg logo se popularizou e se manteve quase inalterado pelos séculos seguintes. Hoje chamamos o estilo de uma letra de fonte. Na época, era o “tipo”. Cada letra era uma pequena peça metálica, feita de uma liga de chumbo, estanho e antimônio.

Dessa forma, o tipógrafo montava as palavras, letra por letra, linha por linha, em uma bandeja chamada “galé”. Montada na galé, a página do livro era transferida para uma forma. Então, a tinta era espalhada ou “batida” sobre os tipos metálicos com as “bolas de tinta”, fabricadas com couro de carneiro e recheadas de lã ou crina de cavalo e montadas sobre um cabo de madeira.

A tinta aplicada era diferente da usada em manuscritos. Na prensa, era usado um pigmento de base oleosa, obtido por meio da queima de óleos vegetais ou resinas — o que resultava em uma fuligem fina e preta — e de óleo de linhaça fervido, que ajudava na secagem por oxidação e não mais por absorção (como nos manuscritos).

Depois de aplicada a tinta, o papel era colocado sobre os tipos por meio de molduras que delimitavam o espaço de impressão e o protegiam de borrões. Finalmente, uma prensa aplicava peso sobre ele, usando a pressão para transferir a tinta para a folha. O maquinário envolvido nas impressões de livros — e também de jornais — sofreu mudanças significativas somente no final do século 19, com a Revolução Industrial. Ainda assim, o método manual se mante até meados do século 20.

A Bíblia de 1747

Em 1522, Lutero traduziu o Novo Testamento para o alemão tendo como base uma versão grega, a Novum Instrumentum omne, editada por Erasmo de Roterdã (1466-1536). A primeira versão completa da Bíblia luterana surgiu em 1534 — para a tradução do Antigo Testamento foi usada a versão hebraica da Bíblia.

Diferente da versão católica, porém, a variante luterana retirava sete livros da edição. Lutero considerava esses livros úteis, mas não divinamente inspirados. Um século depois da Reforma, o duque Ernesto I de Saxe-Gota e Saxe-Altenburgo, o Piedoso, pediu que Wolfgang Endter, um renomado impressor bávaro, criasse um projeto de Bíblia de acordo com o modelo luterano. Surgiu, então, a Kurfürstenbibel, a “Bíblia do Príncipe Eleitor”, e uma linhagem de edições que ficariam conhecidas como “Bíblias Ernestinas” — impressas entre 1641 e 1758. Um desses exemplares se encontra em Rolante.

Fotografia da Bíblia de 1747 / Crédito: Divulgação

A Bíblia de 1747 — a versão que está em exposição no Memorial Anneken — conta os sete livros retirados por Lutero e que mais tarde seriam excluídos das novas edições protestantes. Além de um prefácio escrito do teólogo J. Michael Dilherr, a edição tem retratos e breves biografias de Lutero e dos duques de Saxe-Gota e a Confissão de Augsburgo, o texto confessional adotado pela maioria das Igrejas evangélicas luteranas.

Quanto ao papel usado na impressão, a matéria-prima usada na produção de livros no século 18 era o papel de trapo, uma mistura de linho e algodão. Esse tipo de papel era resistente à acidez e à ação do tempo, não ficava quebradiço nem amarelava.

As ilustrações da Bíblia de 1747 merecem um capítulo à parte. Elas foram gravadas utilizando duas técnicas. As ilustrações menores, inseridas no texto, foram feitas em xilogravura. Neste método, as imagens eram desenhadas em um bloco de madeira, como um carimbo, que podia ser montado na mesma bandeja dos tipos metálicos.

A técnica usada nas ilustrações maiores, de página inteira, era a da calcografia. Neste caso, os desenhos eram feitos por um artista em uma chapa de cobre usando o buril, uma ferramenta de aço de ponta afiada. A tinta era então espalhada por toda a chapa. Com toda a superfície limpa, a tinta permanecia depositada nos sulcos deixados pelo buril. Quando o papel era pressionado sobre a chapa, a pressão dos rolos “sugava” a tinta e gravava a imagem.

A xilogravura tem traços mais grossos, enquanto a calcografia, que passou a ser utilizada no século 18, permitia que o artista fizesse linhas muito finas, criando sombras, texturas e expressões faciais realistas. O artista responsável pelas calcografias da Bíblia de 1747 foi Andreas Nunzer.

Depois de impressas e secas, as folhas da Bíblia eram costuradas à mão e encadernadas em uma capa de couro de porco curtido que era colado sobre tabuletas de madeira. A superfície era decorada com desenhos criados com rolos metálicos aquecidos, por meio da técnica de gravação a seco.

Fechos e cantoneiras em latão eram aplicados, conferindo o acabamento final. Além de decorativos, os elementos metálicos eram usados para proteger as quinas da capa do desgaste e para manter o livro fechado, impedindo que as páginas enrugassem com a umidade. A obra podia levar até dois anos para ficar pronta e ser colocada à venda.

Detalhe da Bíblia de 1747 / Crédito: Divulgação

Para além das questões técnicas, religiosas e históricas, a Bíblia de 1747 é um patrimônio cultural inestimável.


Autor: Rodrigo Trespach nasceu em Osório (RS). Historiador, pesquisador e escritor, é autor de vinte livros, entre eles, 1824, Grandes guerras e Verde e Amarelo. É membro do IHGRGS. Em 2022, recebeu a Ordem do Mérito do Livro, da Biblioteca Nacional.