Restos de bebê neandertal revelam crescimento semelhante ao dos humanos modernos
Fósseis encontrados na Alemanha mostram que neandertais seguiam padrões de desenvolvimento parecidos com os humanos atuais

Pequenos ossos e dentes de leite encontrados em uma caverna no sudeste da Alemanha estão ajudando cientistas a compreender melhor como os neandertais cresciam antes e logo após o nascimento. Os fósseis, datados entre 90 mil e 50 mil anos atrás, pertencem a indivíduos muito jovens e oferecem uma rara oportunidade de investigar um estágio da vida pouco representado no registro arqueológico.
Como repercutido pela Archaeology News, os restos mortais foram descobertos na caverna Sesselfelsgrotte durante escavações realizadas nas décadas de 1960 e 1970. Apesar da importância potencial do material, os espécimes permaneceram praticamente sem estudos detalhados durante décadas. Apenas cerca de 20 anos atrás os pesquisadores confirmaram que os fósseis pertenciam a neandertais.
Como restos de crianças neandertais são extremamente raros, uma equipe de pesquisadores decidiu reexaminar o material utilizando microtomografia computadorizada de alta resolução, técnica que permite visualizar estruturas internas sem causar danos aos fósseis, em um estudo publicado pela Reaserch Gate.
Desenvolvimento semelhante ao dos humanos modernos

O estudo analisou três espécimes juvenis. Um deles correspondia aos restos esqueléticos de um perinato, termo utilizado para descrever um indivíduo que estava nos estágios finais da gestação ou havia acabado de nascer. Os outros dois espécimes eram dentes molares de leite pertencentes a crianças neandertais.
As imagens revelaram características associadas ao crescimento rápido dos ossos. Entre elas estavam estruturas ósseas entrelaçadas, tecido plexiforme e osteons primários, elementos normalmente observados em esqueletos em desenvolvimento.
Os pesquisadores constataram que a microestrutura óssea do indivíduo era muito semelhante à encontrada em fetos humanos modernos durante o último trimestre da gravidez.
As novas análises também confirmaram estimativas anteriores que sugeriam que o bebê morreu próximo ao nascimento. Segundo os pesquisadores, o desenvolvimento observado corresponde a aproximadamente oito ou nove meses de gestação.
Embora algumas diferenças tenham sido identificadas entre partes específicas do esqueleto, como os ossos longos e a região da mandíbula, o panorama geral indica que os neandertais apresentavam um padrão de crescimento pré-natal amplamente comparável ao dos humanos modernos.
Dentes registram sinais de possível doença metabólica
Além das informações sobre crescimento, os dentes analisados revelaram evidências de problemas de saúde durante a infância.
Nas camadas internas da dentina, tecido localizado abaixo do esmalte dentário, os pesquisadores identificaram áreas de mineralização deficiente conhecidas como dentina interglobular. Esse tipo de alteração surge quando o processo normal de deposição de minerais é interrompido durante a formação dos dentes.
Segundo os cientistas, esses defeitos costumam estar associados a problemas no metabolismo mineral, incluindo deficiência de vitamina D, deficiência de cálcio ou dificuldades na absorção desse mineral.
Embora o estudo não tenha identificado uma causa específica para as anormalidades observadas, os defeitos indicam que essas crianças enfrentaram algum tipo de estresse fisiológico durante uma fase sensível do desenvolvimento.
Como os tecidos afetados se formaram entre o final da gestação e os primeiros dois anos de vida, eles preservam um registro direto das condições enfrentadas durante a primeira infância.
Os espécimes que apresentaram essas alterações têm cerca de 75 mil anos. Caso a interpretação seja confirmada por pesquisas futuras, os fósseis poderão representar a evidência mais antiga conhecida de doença óssea metabólica registrada em uma linhagem humana não moderna.
Os pesquisadores esperam que novas análises ajudem a esclarecer a origem desses defeitos e ampliem o conhecimento sobre a saúde e o desenvolvimento infantil entre os neandertais.
*Sob supervisão de Éric Moreira