Arma invisível do Eixo: Como a propaganda massificou a ilusão da superioridade racial
Muito antes dos primeiros disparos, Alemanha, Japão e Itália utilizaram o controle narrativo para desumanizar minorias

A Segunda Guerra Mundial foi travada com tanques, aviões, navios, submarinos e milhões de soldados espalhados pelos continentes. Mas, antes de tudo isso, houve outra arma igualmente poderosa: a propaganda.
As lideranças da Alemanha nazista, do Japão imperial e da Itália fascista precisavam convencer suas populações de que seus projetos expansionistas eram legítimos. Para isso, construíram uma narrativa comum baseada na ideia de superioridade racial e no direito supostamente natural de dominar outros povos.
Na Alemanha, Adolf Hitler encontrou terreno fértil para difundir suas ideias. O ressentimento provocado pelo Tratado de Versalhes e a hiperinflação criaram um ambiente favorável para o crescimento do nazismo.
O partido nacionalista de extrema-direita prometia recuperar territórios perdidos e expandir as fronteiras alemãs para criar um Lebensraum, o chamado “espaço vital” destinado à etnia ariana, definida pelos nazistas como a “raça superior”. A mensagem encontrou receptividade porque oferecia explicações simples para problemas complexos.
O Führer culpava os judeus pelos problemas econômicos e sociais da Alemanha e defendia a exclusão daqueles que considerava inferiores ou mesmo untermenschen, “sub-humanos”. Essa narrativa levou à privação de cidadania dos judeus, à proibição de casamentos mistos e ao crescimento dos pogrons antissemitas, culminando na Kristallnacht e, posteriormente, no Holocausto. Mas o nazismo não estava sozinho.
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Militarismo e a mitologia imperial no Japão
No Japão, os militares também construíram uma ideologia baseada na superioridade racial. Os generais acreditavam na minzoku no yuetsusei, conceito que defendia a superioridade dos japoneses sobre os demais povos.
Essa crença era reforçada pelo xintoísmo e pela mitologia imperial, que apresentavam o imperador como descendente dos deuses. O projeto foi tão profundamente incorporado à sociedade japonesa que acabou levado ao sistema educacional nacional.
A propaganda estatal foi utilizada de maneira intensa para justificar a expansão geográfica do país e preparar a população para as ações militares que seriam executadas posteriormente.
O conceito do Yamato-damashii, o “espírito japonês”, exaltava a pureza, a coragem e a lealdade da raça nipônica. Ao mesmo tempo, diferenciava os japoneses das demais etnias, consideradas inferiores.
O resultado foi refletido no desprezo demonstrado nos campos de batalha, nos campos de concentração e nos experimentos biológicos realizados com prisioneiros de guerra. A crença na superioridade japonesa também alimentou a ideia de uma missão especial de liderança regional.
Surgiu então o Hakko Ichiu, expressão que significa “os oito cantos do mundo sob o mesmo teto”. Essa concepção funcionava como uma espécie de justificativa moral para o expansionismo japonês e para uma missão hegemônica que seria cumprida sem misericórdia.
As Leis Raciais na Itália Fascista
Na Itália fascista, embora em menor intensidade, a propaganda seguiu caminho semelhante. Influenciado pela aliança com Alemanha e Japão, Benito Mussolini desenvolveu um robusto sentimento de nacionalismo e excepcionalismo italiano.
O Duce sonhava em reviver a glória do Império Romano e da Renascença, apresentando os italianos do norte como herdeiros de uma civilização superior. A propaganda estatal glorificava a descendência italiana e exigia lealdade absoluta ao Estado.
Mussolini repetia constantemente que os italianos eram “descendentes dos Césares”, enquanto exaltava determinados grupos étnicos e desqualificava outros dentro do próprio país.
Em 1938, o regime fascista promulgou o Manifesto da Raça, declarando a existência de uma estirpe italiana pura. Inspirado diretamente nas Leis de Nuremberg da Alemanha nazista, o documento serviu para justificar discriminações e perseguições contra minorias, especialmente os judeus.
Nas colônias africanas, a situação foi ainda mais extrema. O regime implantou uma clara doutrina de segregação racial, considerando os povos locais inferiores e submetendo-os a trabalhos forçados e repressão brutal.
Lógica comum destrutiva do Eixo
Apesar das diferenças culturais e geográficas, Alemanha, Japão e Itália compartilhavam uma mesma lógica. Todos utilizaram a propaganda para transformar nacionalismo em superioridade racial. Todos apresentaram seus povos como excepcionais. Todos convenceram milhões de pessoas de que tinham uma missão histórica superior. E todos usaram essas ideias para justificar conquistas territoriais, perseguições, violência e guerra.
Não existia nenhum argumento válido, lógico, racional, consistente, humano, coerente, sensato, procedente, legítimo, justo ou ético que justificasse aquele conflito. Ainda assim, a propaganda conseguiu convencer multidões do contrário.
Foi dessa forma que três países diferentes, por motivos espantosamente semelhantes, caminharam juntos para a guerra. E foi dessa forma que uma das armas mais poderosas da Segunda Guerra Mundial começou a agir muito antes do primeiro disparo.
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