Matérias / Ditadura Militar

Não foi só JK: 5 vítimas emblemáticas da ditadura militar

De ex-presidentes e jornalístas a guerrilheiros, o aparato de repressão da ditadura militar brasileira fez inúmeras vítimas

Pichação "Ditadura Assassina" feita em abril de 1968
Pichação "Ditadura Assassina" feita em abril de 1968 - Arquivo Nacional

A história oficial da ditadura militar brasileira, que se deu entre 1964 e 1985, tem sido constantemente reescrita à medida que novos documentos, laudos e investigações vêm à tona. Recentemente, o debate sobre os crimes de Estado ganhou um novo e impactante capítulo com a conclusão da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) a respeito da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ocorrida em 1976.

O relatório final apontou dezenas de fraudes na perícia da época, desmistificando a histórica versão de “acidente automobilístico” na Rodovia Presidente Dutra e apontando que JK foi, na verdade, alvo de uma conspiração e assassinado pela ditadura militar devido ao seu potencial de liderança política no processo de redemocratização.

Juscelino Kubitschek / Crédito: Getty Images

O reconhecimento formal de que até mesmo um dos presidentes mais populares da história do país foi vitimado de forma violenta pelo aparato repressivo joga luz sobre a extensão da violência de Estado na época. A opressão não se limitou aos campos de batalha ideológicos ou à clandestinidade; ela alcançou lideranças civis, intelectuais, comunicadores e dissidentes políticos de diferentes espectros.

Confira a seguir a trajetória e o trágico fim de cinco figuras fundamentais que ilustram as variadas facetas da repressão e cujos legados permanecem como marcos da luta por memória, verdade e justiça no Brasil:

1. João Goulart

João Goulart / Crédito: Getty Images

Deposto pelo golpe de 1964, o ex-presidente João Goulart viveu seus últimos anos sob a constante e sufocante vigilância das forças de repressão do Cone Sul. Exilado inicialmente no Uruguai e, posteriormente, na Argentina, Jango permaneceu como uma figura central de preocupação para os militares brasileiros, que temiam sua capacidade de articulação política no exterior e sua influência de liderança de massas sobre as frentes de oposição trabalhista no Brasil.

A morte de João Goulart ocorreu em 6 de dezembro de 1976, na cidade argentina de Mercedes, oficialmente registrada como um ataque cardíaco. No entanto, o falecimento aconteceu em um dos períodos mais violentos da Operação Condor — a aliança clandestina entre as ditaduras da América do Sul para rastrear, perseguir e eliminar opositores políticos além de suas próprias fronteiras. Diante disso, a hipótese de que o ex-presidente teria sido envenenado por meio da adulteração de seus remédios cardíacos contínuos ganhou enorme força ao longo das décadas.

Embora o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) tenha apontado que os exames periciais realizados após a exumação de seus restos mortais não foram conclusivos para atestar o envenenamento por vias químicas.

Além disso os documentos históricos provaram de forma inequívoca o cerco sistemático a Jango. A coordenação internacional de inteligência para monitorá-lo e isolá-lo politicamente eliminou qualquer margem de segurança para sua vida, consolidando o ex-presidente como uma das vítimas mais ilustres do exílio e do monitoramento transnacional promovido pelo regime militar.

2. Rubens Paiva

Rubens Paiva
Rubens Paiva – Divulgação/Memórias da Ditadura

O caso do ex-deputado federal Rubens Paiva representa um dos episódios mais brutais de desaparecimento forçado perpetrados pelo Estado brasileiro. Figura fundamental do recente filme ‘Ainda Estou Aqui’, engenheiro de formação e parlamentar cassado logo após o golpe de 1964, Paiva não integrava movimentos de resistência armada; ele mantinha uma rotina civil no Rio de Janeiro, embora utilizasse seus contatos para auxiliar exilados políticos que buscavam canais de comunicação com suas famílias ou rotas de fuga do país.

Em 20 de janeiro de 1971, Rubens Paiva foi detido em sua própria residência por agentes da Aeronáutica, sem qualquer mandado judicial, e levado para as dependências do Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). A partir daquele momento, sua família deu início a uma busca desesperada por informações, enquanto a versão oficial do exército sustentava a farsa de que o ex-deputado havia sido interceptado e resgatado por “terroristas” durante uma transferência de rotina.

A verdade sobre o destino de Paiva só começou a ser formalmente restabelecida décadas mais tarde. Investigações da Comissão da Verdade e depoimentos de ex-militares confirmaram que ele foi submetido a intensas e ininterruptas sessões de tortura que resultaram em sua morte, ocorrida poucas horas após sua prisão.

Seu corpo foi ocultado de forma criminosa pelos agentes de segurança, e a certidão de óbito oficial só foi emitida em 1996. O martírio de Rubens Paiva tornou-se o símbolo jurídico e humanitário da luta contra o silenciamento e a prática estatal de ocultação de cadáveres de opositores políticos.

3. Carlos Marighella

Carlos Marighella / Crédito: Domínio Público

Considerado pelas forças de segurança o “inimigo número um” do regime militar, Carlos Marighella personificou a transição da oposição política institucional para a luta armada clandestina. Ex-deputado constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), Marighella rompeu com as diretrizes pacíficas de sua antiga legenda por acreditar que a derrubada da ditadura só seria possível por meio do enfrentamento direto. Em 1968, fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização de guerrilha urbana responsável por assaltos a bancos e pelo histórico sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick.

Sua capacidade teórica de formulação — sendo autor do internacionalmente conhecido “Minimanual do Guerrilheiro Urbano” — transformou-o no alvo prioritário de caça dos órgãos de inteligência do governo. O cerco ao líder guerrilheiro foi coordenado pelo temido delegado Sérgio Paranhos Fleury, chefe do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo.

A operação que culminou em sua morte ocorreu na noite de 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, na capital paulista. Marighella foi atraído para uma emboscada armada após a prisão e tortura de frades dominicanos que atuavam como interlocutores de apoio logístico da ALN.

Metralhado dentro de um carro por agentes à paisana, Marighella foi morto sem chance de defesa. A propaganda oficial do regime tentou retratar o episódio como um tiroteio intenso, mas exames periciais posteriores demonstraram que se tratou de uma execução sumária, desenhada para eliminar fisicamente a maior liderança da resistência armada no país.

4. Vladimir Herzog

Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura há quase 50 anos
Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura – Acervo Vladimir Herzog

A morte do jornalista Vladimir Herzog, conhecido carinhosamente como Vlado, marcou o início do desgaste definitivo da legitimidade da ditadura militar perante a opinião pública e a classe média urbana brasileira. Diretor de jornalismo da TV Cultura e respeitado intelectual, Herzog foi intimado a prestar esclarecimentos sobre suas supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro, que operava na ilegalidade.

Em 25 de outubro de 1975, agindo como um cidadão que acreditava nas instituições básicas do país, Herzog apresentou-se voluntariamente na sede do DOI-CODI, em São Paulo. Horas depois, o comando do Segundo Exército divulgou uma nota oficial informando que o jornalista havia cometido suicídio em sua cela utilizando uma tira de pano. Para validar o argumento, os militares divulgaram uma fotografia forjada que mostrava Herzog enforcado, mas com os joelhos dobrados e tocando o chão, evidenciando a completa impossibilidade física daquela cena.

Desde a época, essa farsa montada pelo aparato repressivo não convenceu a sociedade civil. A indignação resultou em uma missa ecumênica histórica na Catedral da Sé, liderada por Dom Paulo Evaristo Arns, que reuniu milhares de pessoas em um ato de coragem coletiva e protesto silencioso contra a tortura.

O assassinato de Herzog acelerou a crise interna do regime e fortaleceu o movimento de oposição. Décadas depois, em 2013, o Estado brasileiro foi obrigado a retificar sua certidão de óbito, substituindo a mentira do suicídio pela verdade histórica: morte decorrente de lesões sofridas por tortura.

5. Carlos Lamarca

Carlos Lamarca quando ainda era capitão do exército / Crédito: Arquivo Nacional

Ao lado de Marighella, o ex-capitão do Exército Brasileiro Carlos Lamarca foi uma das figuras mais emblemáticas da resistência armada contra o regime militar. Exímio atirador e instrutor de tiro, Lamarca rompeu com as Forças Armadas em janeiro de 1969, desertando do quartel de Quitaúna, em Osasco, levando consigo um valioso carregamento de metralhadoras e munições para abastecer a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) — outro importante grupo de guerrilha urbana de esquerda que lutou contra a ditadura.

Sua deserção foi encarada pelos generais como uma traição imperdoável e uma afronta direta à honra militar, o que desencadeou uma das maiores caçadas humanas da história republicana brasileira. Lamarca comandou acampamentos de treinamento guerrilheiro na região do Vale do Ribeira, conseguiu escapar de cercos monumentais promovidos pelo Exército e, posteriormente, integrou-se ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), transferindo sua atuação para o Nordeste brasileiro.

O desfecho de sua trajetória ocorreu em 17 de setembro de 1971, no sertão da Bahia, na localidade de Pintada. Debilitado fisicamente por doenças, desnutrição e cansaço extremo devido à fuga constante, Lamarca e seu companheiro de armas, Zequinha Barreto, foram localizados por uma patrulha comandada pelo major Nilton de Albuquerque Cerqueira, na esteira da chamada “Operação Pajussara“. Encurralados sob a sombra de uma árvore, ambos foram executados a tiros.

A eliminação de Lamarca foi celebrada pela cúpula militar como uma vitória estratégica decisiva, sepultando temporariamente os focos organizados de guerrilha e evidenciando a política de extermínio total adotada contra os principais líderes da oposição radicalizada.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.