Dom Paulo Evaristo Arns: o arcebispo que lutou contra a Ditadura
Em meio à ditadura militar, o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns foi de frente à repressão ao celebrar missa para estudante morto em tortura

Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu um dos períodos mais conturbados e sombrios de sua história: a ditadura militar. Nessas duas décadas, o país foi marcado por um grande autoritarismo, repressão e violação de direitos humanos, com censura, perseguição política, prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos forçados de diferentes grupos tomados como “inimigos” do regime militar.
Essa resistência foi bastante ampla: envolveu movimentos estudantis, sindicais, culturais (como artistas), intelectuais, e até luta armada. E outra figura que se destacou nesse momento foi Dom Paulo Evaristo Arns, que faleceu há exatos 9 anos, no dia 14 de dezembro de 2016.
Um dos momentos mais emblemáticos da vida de Dom Paulo se deu no dia 30 de março de 1973, quando celebrou na Catedral da Sé, em São Paulo, uma missa em memória do estudante universitário Alexandre Vannucchi Leme, apenas um dos vários que foram presos, torturados e assassinados pelos militares.
Alexandre Vannucchi Leme
Filho de professores, Alexandre nasceu no dia 5 de outubro de 1950 em Sorocaba, no interior de São Paulo, e era o mais velho de seis irmãos. Um aluno exemplar, ele foi aprovado em primeiro lugar no vestibular da USP, onda ingressou no curso de Geologia.
“Foi meu calouro na universidade. Tinha uma inteligência acima da média”, recordou Adriano Diogo, amigo de Alexandre, à BBC. “Se estivesse vivo, seria um grande cientista ou professor”.
Mas a vida do jovem estudante teve um revés terrível no dia 16 de março de 1973, por volta das 11h, quando tinha apenas 22 anos. Ele foi levado por agentes do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), e foi torturado sistematicamente por eles, até morrer no dia seguinte.

Acusação, tortura e morte
Segundo a BBC, a acusação dos militares era de que Alexandre era membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), uma organização de luta armada de esquerda que enfrentou a ditadura militar, e que participou de dois assaltos do grupo, além de fornecer informações que levaram ao roubo de quatro carros e à morte de um comerciante.
No entanto, segundo o jornalista Paulo de Tarso Vannucchi, primo de Alexandre, “no dia e horário de um dos supostos assaltos, Alexandre estava numa mesa de cirurgia. Ia operar apendicite”.
Vale mencionar também que presos políticos que estavam em celas vizinhas à de Alexandre relataram que, durante o interrogatório, o estudante gritou “meu nome é Alexandre Vannucchi Leme. Sou estudante de Geologia. Me acusam de ser da ALN. Eu só disse o meu nome”.
De qualquer forma, o destino foi brutal com Alexandre: ele foi torturado por 13 agentes, que se alternavam em turnos, sob o comendo do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra. Porém, no dia 17, quando um carcereiro conhecido como Peninha foi buscá-lo para mais uma sessão de tortura, o jovem estudante já estava morto em uma poça de sangue.
“Em janeiro de 1973, Alexandre foi submetido a uma cirurgia de apendicite no Hospital Santa Lucinda, de Sorocaba. A tortura que sofreu, muito provavelmente, resultou na ruptura dos pontos e em hemorragia interna”, disse Paulo de Tarso.
E como aconteceu em vários casos de presos políticos durante a ditadura, os militares forjaram duas versões para a morte de Alexandre: uma delas dizia que ele cometeu suicídio, cortando a própria garganta com uma lâmina de barbear; a outra, por sua vez, que ele foi atropelado por um caminhão enquanto tentava fugir da polícia — esta versão, inclusive, foi repercutida pela Folha de S. Paulo na época, com a manchete de “Terrorista morre atropelado no Brás”.
Missa para Alexandre
Na missa em homenagem a Alexandre, cerca de 3 mil pessoas se reuniram para a cerimônia, presidida pelo bispo de Sorocaba, Dom José Melhado Campos, e celebrada por Arns. Vale mencionar que a maioria dos estudantes presentes eram da USP, e inicialmente eles queriam que a missa ocorresse dentro do campus da universidade — mas Dom Paulo Arns acabou convencendo-os de que isso deveria ser feito na catedral, onde estariam seguros.
Em protesto pela morte do colega, os alunos espalharam pela UPS faixar de luto e paralisaram as aulas; porém, a censura que vigorava na época proibiu que os jornais noticiassem a missa. Finalizada a missa, Dom Paulo cumprimentou a mãe de Alexandre, Egle Maria, e pediu que todos saíssem da catedral de braços dados, em grupos de quatro ou cinco pessoas, “para evitar qualquer problema aí fora”.
Esse ato religioso foi considerado o primeiro grande ato público contra a ditadura militar a ser feito após a instauração do brutal AI-5, e a partir daquele dia, Dom Paulo se tornou também um alvo dos militares, tendo até mesmo seu carro seguido em várias ocasiões.

Conflito com o regime
Antes da missa em homenagem a Alexandre, Dom Paulo já costumava conversar por cartas como então ministro da Educação do governo Médici, Jarbas Passarinho. Porém, após a celebração, o religioso buscou por explicações diretamente por telefone.
Alguns minutos depois, Passarinho confirmou a versão do Secretário de Segurança Pública, o general Sérvulo Mora Lima, de que Alexandre foi atropelado durante uma tentativa de fuga. Dom Paulo, por sua vez, não acreditou na história, e rebateu em carta: “não se pune um crime, se existiu, com um crime ainda maior. Houve um tempo em que ter um filho na universidade era motivo de orgulho e tranquilidade. Hoje, é de ansiedade e medo”.
“Alexandre era estudante terrorista. Não foi atingido enquanto estudante, mas enquanto terrorista”, retrucou Jarbas Passarinho. “Essa missa, Senhor Cardeal, poderia ter provocado um rio de sangue! Graças à prudência das autoridades, felizmente, não aconteceu”.
Desfecho
Em dezembro de 2013, 40 anos depois da morte de Alexandre, finalmente a causa de sua morte foi confirmada pela juíza Renata Mota Maciel Dezem, da 2ª Vara de Registros Públicos da Capital: ele morreu devido a lesões provocadas por tortura e maus-tratos sofridos nas dependências do DOI-Codi, e não por um suposto atropelamento.
Dom Paulo Evaristo Arns, por sua vez, morreu poucos anos depois da conclusão do caso de Alexandre, no dia 14 de dezembro de 2016, aos 95 anos, em decorrência de uma broncopneumonia, após passar algum tempo internado para tratar problemas pulmonares. Mas seu nome indiscutivelmente ficou eternizado na história brasileira, sendo reconhecido até hoje por sua história de defesa dos direitos humanos durante a ditadura militar.