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Defensor dos perseguidos: a atuação de Dom Angélico durante a ditadura militar

Figura de destaque na ditadura, Dom Angélico viveu uma vida dedicada ao evangelho e à defesa dos pobres e perseguidos

Angélico Sândalo Bernardino em 2019 - Crédito: Divulgação/Youtube/Rede TVT

Dom Angélico figura entre as grandes lideranças da Igreja progressista brasileira, ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno. Nascido em Saltinho, no interior do estado de São Paulo, o religioso viveu uma vida dedicada ao evangelho e à defesa dos pobres e perseguidos, sendo uma das vozes mais firmes da resistência à ditadura militar.

Sua história é contada em ‘Dom Angélico: Um abraço de quebrar os ossos’, biografia de autoria de Camilo Vannuchi recém-publicada pela Autêntica Editora em parceria com o Instituto Vladimir Herzog. O autor conversou com o Aventuras na História, comentando aspectos e momentos importantes sobre a vida dessa personalidade tão emblemática.

Defesa dos perseguidos

“Política é igual feijão: só funciona na pressão”, assim dizia Angélico Sândalo Bernardino que, bem antes de se tornar bispo, já era engajado na defesa dos perseguidos da ditadura. Como destaca Vannuchi, tudo começou ainda na década de 1960:

Dom Angélico foi sensibilizado para a truculência do regime militar quando ainda era padre em Ribeirão Preto, período em que Madre Maurina foi torturada naquela cidade, em 1969, supostamente porque um grupo de resistência à ditadura se reunia numa sala do orfanato (de freiras) que ela dirigia. Um ano antes, em meio às manifestações estudantis que tomaram o país em 1968, ele já havia testemunhado o ataque da cavalaria aos estudantes, abrindo a catedral para que os jovens pudessem se abrigar ali do gás lacrimogêneo e dos ataques de cassetetes das tropas.”

Já em 1974, foi convidado por Dom Paulo Evaristo Arns para integrar a Arquidiocese de São Paulo como bispo auxiliar. No mesmo ano de sua posse, Dom Angélico co-celebrou o ato ecumênico em intenção de Vladimir Herzog, na Catedral da Sé, ao lado de Dom Paulo, do rabino Henry Sobel e do pastor Jaime Wright.

Dois meses e meio depois de Herzog ter sido assassinado no DOI-Codi, aconteceu exatamente a mesma coisa, e com a mesma versão falsa de suicídio, com um operário da Zona Leste chamado Manoel Fiel Filho. Nessa ocasião, Dom Angélico celebrou sozinho a missa de sétimo dia, solidarizando-se com a família e reconhecendo que ele não tinha se matado, mas sido morto. Repetiria o mesmo acolhimento e a mesma denúncia em 1979, quando a repressão matou outro operário, Santo Dias, na Zona Sul”, conta o autor.

No fim daquela década, enquanto atuava como bispo auxiliar em São Miguel Paulista, Dom Angélico também assumiu a coordenação da Pastoral Operária de São Paulo. Era o auge das grandes greves que dariam origem ao “novo sindicalismo” entre 1979 e 1980. Nesse contexto, Dom Angélico se tornou uma das vozes mais firmes e corajosas na resistência à ditadura e na defesa dos perseguidos.

Dando voz aos silenciados

Pouca gente sabe que Dom Angélico tinha formação jornalística e carteirinha do Sindicato dos Jornalistas. Isso moldou profundamente sua atuação. Percebendo que a grande imprensa representava apenas “o pensamento dos patrões”, Dom Angélico estimulou a criação de jornais de bairro, escritos e editados pelos próprios moradores, “com linguagem simples, coloquial, fácil de ler, e que estampavam questões importantes para aquele público”. O mais conhecido deles, diz o autor, foi o Grita Povo, de São Miguel Paulista, onde jovens jornalistas iniciantes produziam reportagens sobre temas ignorados pelos grandes jornais, como a luta por creches, postos de saúde ou asfalto.

Dali saíram profissionais como Gilberto Nascimento e o fotógrafo Douglas Mansur, hoje nomes importantes do jornalismo. Em sua passagem posterior pela Vila Brasilândia, na Zona Norte, ele repetiu a fórmula, mostrando que a comunicação podia ser usada para organização popular. Também dirigiu o jornal O São Paulo, da Arquidiocese, que enfrentou censura do regime militar por seu caráter combativo.

Enfrentando as autoridades

Além das grandes ações públicas, há episódios menos lembrados que revelam sua personalidade direta e firmemente comprometida com o povo. Em 1977, após um acidente fatal em Artur Alvim, quando mais de 20 pessoas morreram na colisão entre um trem e um ônibus, Dom Angélico tomou uma decisão radical: cancelou todas as missas de domingo e convocou a população a se sentar nos trilhos com ele até que medidas de segurança fossem instaladas.

“Diante da falta de resposta das autoridades, que não se prontificaram sequer a colocar uma cancela com sinais visuais e sonoros para evitar que automóveis avançassem sobre os trilhos no instante da passagem do trem, Dom Angélico decretou que as missas de domingo estariam canceladas e que era para todos os católicos irem se sentar nos trilhos juntamente com ele – e que o povo só se levantaria quando as medidas de segurança fossem implementadas”, contou o biógrafo. O gesto surtiu efeito e cancelas foram colocadas no local.

Outro episódio ocorreria na década seguinte. Em 1987, após a PM ferir famílias em uma ocupação no Itaim Paulista, Dom Angélico acusou o governador Orestes Quércia de ter tomado “uma atitude canalha”. Quércia respondeu dizendo que não iria atacar Dom Angélico por ter “medo de ir pro inferno”. A queda de braço terminou com conquistas reais. Afinal, destaca Vannuchi, “a Assembleia Legislativa aprovou um incremento de 1% no ICMS a fim de bancar a construção de moradias populares e o governo reestruturou o órgão responsável por projetos de moradia – e que, em seguida, foi batizado de Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU).”

Esses episódios evidenciam um bispo que não se escondia atrás de discursos ou cerimônias, que se impunha diante das autoridades governamentais até conseguir mudanças concretas. Seu legado é, segundo o autor do livro, “a convicção de que não existe evangelização nem atitude verdadeiramente cristã que não coloque como prioridade o enfrentamento das injustiças, da miséria, da fome e da desigualdade. E que lugar de bispo – e de padre, rabino ou pastor – deveria ser sempre do lado de sua gente, nas mesmas trincheiras”.

Como dizia o bispo, “quem não reza vira bicho, e quem não luta vira bicho-preguiça.”

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.