Os esforços por trás da viagem da Tapeçaria de Bayeux da França ao Reino Unido
Obra medieval que retrata a conquista normanda será levada da França ao Reino Unido em operação inédita e altamente protegida

A histórica Tapeçaria de Bayeux, uma das mais importantes obras ligadas à Idade Média europeia, será transportada da França para o Reino Unido em uma operação cercada de sigilo e marcada por rigorosos protocolos de conservação. O empréstimo do artefato, que retrata a conquista normanda da Inglaterra em 1066, exigiu anos de preparação e uma estrutura especialmente desenvolvida para garantir a integridade da peça durante a travessia do Canal da Mancha.
Segundo Catherine Pégard, ministra da Cultura da França, o transporte foi planejado para eliminar qualquer risco às fibras do bordado. Embora detalhes sobre a logística da operação não tenham sido divulgados por questões de segurança, a ministra afirmou que a tapeçaria viajará instalada em um suporte construído sob medida e acomodada em um contêiner especialmente projetado para absorver vibrações.
“Nada foi deixado ao acaso”, disse Pégard durante uma reunião realizada para marcar o empréstimo histórico da obra.
De acordo com a ministra, o sistema foi desenvolvido a partir de extensos estudos científicos e técnicos. “Toda e qualquer vibração que possa representar um risco para as fibras da tapeçaria será absorvida. O recipiente é resultado de conhecimento científico e técnico e foi testado e comprovado”, afirmou.
Além da proteção contra impactos, o contêiner contará com controle de umidade e trilhos equipados com amortecedores para sustentar a peça durante o deslocamento. “Nunca na história da movimentação de um objeto como este foram realizados tantos testes. Tudo foi pensado”, acrescentou Pégard.
Empréstimo raro
A Tapeçaria de Bayeux mede cerca de 70 metros de comprimento por 50 centímetros de altura e retrata a invasão normanda da Inglaterra liderada por Guilherme, o Conquistador. Entre as cenas representadas está a derrota do rei Haroldo na Batalha de Hastings, episódio que encerra a narrativa bordada.

A obra ficará exposta no Museu Britânico a partir de 10 de setembro e permanecerá em cartaz até 11 de julho de 2027. O empréstimo tornou-se possível após o fechamento do museu que tradicionalmente abriga a tapeçaria, em Bayeux, no norte da França, que passará por reformas e pela construção de um novo edifício dedicado ao artefato.
Ao longo de quase mil anos de existência, a tapeçaria foi deslocada poucas vezes. Um dos episódios mais conhecidos ocorreu entre 1803 e 1804, quando Napoleão Bonaparte determinou sua transferência para Paris. Durante a Segunda Guerra Mundial, a peça também foi removida de Bayeux pelos ocupantes alemães e levada posteriormente ao Museu do Louvre.
Representando o lado britânico nas negociações, o ex-embaixador do Reino Unido na França e enviado especial do governo britânico, Lord Peter Ricketts, procurou tranquilizar autoridades e especialistas franceses sobre a segurança da obra.
“Sim, é claro que devolveremos a tapeçaria, sã e salva”, declarou. “E garantiremos integralmente a proteção desta preciosa obra enquanto ela estiver conosco.”
No Museu Britânico, a tapeçaria será apresentada em uma vitrine desenvolvida especialmente para a exposição. A obra será exibida em toda a sua extensão e acompanhada por manuscritos iluminados e outros objetos históricos provenientes de instituições britânicas e europeias, com o objetivo de contextualizar seu significado histórico.
Como parte do acordo, peças importantes do acervo britânico, incluindo os tesouros de Sutton Hoo e as peças de xadrez de Lewis, serão emprestadas a museus da Normandia, repercute o The Guardian.
Apesar da celebração em torno do intercâmbio cultural, o empréstimo gerou críticas entre conservadores e especialistas em patrimônio. Parte deles teme que a movimentação possa comprometer um artefato considerado frágil e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco.
Pégard reconheceu as preocupações, mas defendeu a decisão. “Algumas pessoas perguntam se temos o direito de mover este objeto precioso, fundamental para a nossa história, e eu as compreendo. Para os conservadores, a primeira missão é conservar, mas esta é uma obra que vive através dos olhos de quem a vê.”
A ministra também destacou o significado simbólico da iniciativa. Segundo ela, o empréstimo “permitiria ao povo inglês contemplar em seu próprio solo o ato que marcou o nascimento de sua nação”.
Vale mencionar ainda que a origem exata da tapeçaria permanece incerta. Acredita-se que tenha sido encomendada na década de 1070 pelo bispo Odo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme, o Conquistador, e produzida por artesãs inglesas. A obra reúne dezenas de cenas, centenas de figuras humanas e animais, embarcações, construções e detalhes que ajudam a contar um dos episódios mais marcantes da história medieval europeia.
Ao comentar o fascínio contínuo exercido pela tapeçaria, Ricketts resumiu o sentimento britânico em relação ao episódio retratado. “Por que tanto fascínio por uma batalha que perdemos?”, questionou. “Porque ela é fundamental para a nossa história nacional.”