Tapeçaria de Bayeux: Macron enfrenta críticas por emprestar obra-prima ao Reino Unido
Obra de arte de quase mil ano será enviada para exposição no Reino Unido, mas empréstimo vem gerando revolta entre especialistas

A Tapeçaria de Bayeux, uma obra-prima com quase mil anos de história, está no centro de uma polêmica crescente. Especialistas franceses alertam que o transporte deste valioso artefato cultural pode resultar em danos irreparáveis, enquanto uma petição pedindo ao presidente Emmanuel Macron que reverta a decisão de emprestar a peça ao Reino Unido já acumula mais de 60.000 assinaturas.
No último mês de julho, Macron anunciou que a tapeçaria, que mede 70 metros e retrata a vitória de Guilherme, o Conquistador, sobre o rei Harold II na Batalha de Hastings em 1066, seria exibida no Museu Britânico a partir de setembro de 2026. Nicholas Cullinan, diretor do museu, descreveu a tapeçaria como “um dos artefatos culturais mais importantes e únicos do mundo”, simbolizando um milênio de história compartilhada entre França e Reino Unido.
Transporte contestado
No entanto, especialistas em conservação e restauradores que trabalharam na tapeçaria afirmam que sua fragilidade a torna praticamente impossível de ser transportada. Didier Rykner, diretor editorial do site La Tribune de l’Art e organizador da campanha contra o empréstimo, critica a decisão política de Macron, alegando que ignorou os conselhos unânimes dos especialistas.
Não sou contra o empréstimo de artefatos culturais, sempre tive apreço pelo Reino Unido”, declarou Rykner ao The Guardian. “Mas essa é uma decisão puramente política. Esta é uma obra extraordinária, um documento histórico único e um artefato sem equivalente em qualquer lugar — e que os especialistas concordam amplamente não pode viajar. Não é complicado entender isso.”
A proposta de emprestar a tapeçaria ao Reino Unido foi inicialmente levantada por Macron em 2018, após pedidos anteriores da Inglaterra que foram negados por Paris. A ideia visava fortalecer os laços culturais entre as duas nações em meio às tensões causadas pelo Brexit.
Recentemente, as relações entre os países melhoraram, especialmente após as saídas dos primeiros-ministros Boris Johnson e Liz Truss do cargo. Informações indicam que o rei Charles também apoiou pessoalmente a iniciativa. Contudo, o acordo para o empréstimo ignora advertências acumuladas ao longo das décadas sobre a condição da tapeçaria.
A tapeçaria
Desde 1983, a tapeçaria está abrigada em um museu projetado especificamente para sua preservação, mas fechará para reformas nos próximos meses. Especialistas alertam que a obra foi severamente danificada pelo tempo e pelo método inadequado de exibição. Curadores que trabalharam no artefato expressaram sua incredulidade com os planos de transporte e enfatizaram que qualquer movimento seria arriscado.
“Ficamos estupefatos quando soubemos disso. É o oposto do que havíamos preparado”, disse um dos profissionais de conservação. Outro especialista acrescentou que transportar a tapeçaria em seu estado atual representa um risco extremo, especialmente porque seu forro estabilizador já foi removido.
Estudos anteriores indicaram a necessidade urgente de restauração completa da tapeçaria e recomendaram enfaticamente contra seu transporte por longas distâncias. Um relatório elaborado por oito especialistas em têxteis antigos identificou mais de 24.000 manchas e milhares de outras deficiências na peça.
Apesar das preocupações expressas pelos especialistas, o governo francês pouco respondeu às críticas. Macron minimizou os avisos, afirmando que “encontramos os melhores especialistas do mundo” para discutir as dificuldades do empréstimo, mas decidiram seguir em frente assim mesmo.