Chimpanzés travam ‘guerra civil’ mortal em Uganda, descreve estudo
Pesquisadores descrevem conflito raro entre chimpanzés após divisão de grupo, com violência crescente e mortes em comunidade de Uganda

Uma comunidade de chimpanzés no Parque Nacional de Kibale, em Uganda, está envolvida em um conflito violento e prolongado após a divisão de um grupo anteriormente unificado, em um caso descrito por cientistas como uma espécie de “guerra civil”. O fenômeno, considerado raro entre esses primatas, foi detalhado em um estudo publicado na revista Science.
De acordo com os pesquisadores, o conflito teve início quando a comunidade Ngogo — uma das maiores já registradas, com cerca de 200 indivíduos — se fragmentou em dois grupos distintos por volta de 2015. Antes disso, os chimpanzés conviviam em um sistema social flexível, formando subgrupos temporários ao longo do dia, conforme se deslocavam pelo território.
Com o passar do tempo, no entanto, algumas dessas associações se tornaram mais estáveis, como um trio de machos adultos que passou a atuar de forma consistente como núcleo de uma nova facção. A divisão formal do grupo marcou o início de uma mudança significativa nas relações sociais: embora ainda houvesse interação entre membros das duas partes inicialmente, esses laços se romperam completamente em 2018, dando lugar a episódios crescentes de agressão.
“Depois que se dividiram em dois grupos, os chimpanzés de um grupo começaram a atacar e matar os do outro grupo, o que se transformou em um período de violência letal crescente”, afirmou Aaron Sandel, antropólogo da Universidade do Texas em Austin e um dos autores do estudo, ao Live Science.
Os ataques ocorreram principalmente durante patrulhas territoriais e resultaram na morte de vários machos adultos. A partir de 2021, os pesquisadores também passaram a registrar infanticídios com frequência. Segundo Sandel, o número real de vítimas pode ser ainda maior, já que diversos indivíduos desapareceram sem explicação.
Embora conflitos entre grupos distintos de chimpanzés sejam relativamente comuns — geralmente motivados pela disputa por recursos como alimento e território — confrontos internos após a fragmentação de uma comunidade são muito menos frequentes. Um episódio semelhante havia sido observado décadas atrás pela primatóloga Jane Goodall, na Tanzânia, mas com registros mais limitados.
Guerra civil primata?
Ainda não há uma explicação definitiva para o que desencadeou a divisão e a escalada de violência em Ngogo. Os cientistas apontam, porém, uma combinação de fatores que pode ter contribuído para o colapso dos laços sociais. Entre eles estão o tamanho elevado do grupo, a competição por alimento e parceiros reprodutivos, mudanças na liderança — incluindo a substituição de um macho alfa em 2015 — e eventos críticos, como a morte de indivíduos importantes e uma epidemia respiratória que matou 25 chimpanzés em 2017.
“Estou um pouco receoso de chamar isso de guerra civil”, disse Sandel. “Guerra civil significa algo muito específico quando falamos de humanos, e os chimpanzés não têm nações nem nada do tipo, mas há um ponto conceitual importante ao pensar em guerra contra estranhos versus guerra civil. Esses chimpanzés se conhecem.”
Especialistas que não participaram do estudo também avaliam que o termo, embora impreciso, ajuda a ilustrar a natureza do conflito. Para James Brooks, antropólogo evolucionista do Centro Alemão de Primatas, o tamanho da comunidade pode ter sido determinante para sua fragmentação. “Talvez eles não estivessem mais lidando com tanta abundância de recursos e o grupo tenha se tornado grande demais para manter a coesão”, disse ele ao Live Science.
A zoóloga Liran Samuni destacou ainda que a comunidade Ngogo já apresentava níveis elevados de agressividade antes da divisão. “O Parque Nacional de Kibale é considerado um ambiente bastante rico, com os chimpanzés vivendo em altas densidades e por longos períodos. Mas mesmo antes dessa divisão, essa era uma das comunidades de chimpanzés mais violentas em termos de invasão de territórios vizinhos”, afirmou.
O estudo indica que o conflito segue em andamento. Os dados analisados cobrem até 2024, mas novos ataques foram registrados em 2025 e 2026, segundo os pesquisadores.
Para os cientistas, o caso oferece uma perspectiva importante sobre como mudanças nas redes sociais podem gerar divisões profundas e violência coletiva, mesmo sem fatores como ideologia ou identidade cultural. Ao mesmo tempo, eles ressaltam que esse comportamento não é inevitável: espécies próximas, como os bonobos, apresentam padrões sociais mais cooperativos e não costumam se envolver em conflitos letais entre grupos.
“Nosso passado evolutivo não determina nosso futuro”, concluiu Brooks.