Chimpanzés adoram cristais, o que pode explicar relação dos humanos com essas pedras
Novo estudo descreve que chimpanzés são fascinados por cristais, o que pode ajudar a compreender a relação humana com tais pedras ao longo da evolução

Um estudo publicado nesta terça-feira, 3, na revista Frontiers in Psychology investigou a atração de chimpanzés por cristais e sugere que esse fascínio pode ajudar a compreender a relação histórica dos seres humanos com essas pedras. A pesquisa parte da constatação de que cristais, hoje amplamente utilizados na fabricação de armamentos, tecnologias e joias, são valorizados tanto por sua estética quanto por seu valor econômico — um interesse que remonta a pelo menos 780 mil anos, quando hominídeos já coletavam e colecionavam esses minerais sem finalidade aparente.
Para aprofundar a questão, cientistas realizaram dois experimentos com chimpanzés, uma das espécies evolutivamente mais próximas dos humanos modernos. A escolha dos primatas se deve à proximidade evolutiva e à observação prévia de que esses animais também demonstram curiosidade por minerais transparentes. O objetivo foi identificar quais propriedades físicas dos cristais poderiam torná-los especialmente atrativos.
Detalhes do estudo
No primeiro experimento, os pesquisadores colocaram um grande cristal — descrito como um monólito — ao lado de uma rocha comum de tamanho semelhante sobre uma plataforma. Inicialmente, ambos os objetos despertaram interesse dos chimpanzés. Com o passar do tempo, porém, a rocha foi ignorada, enquanto o cristal continuou a ser explorado. Após ser retirado da plataforma, o mineral foi prontamente inspecionado, girado e inclinado em diferentes ângulos pelos animais.
O segundo teste apresentou resultados considerados ainda mais expressivos. Os chimpanzés receberam uma pilha com 20 pedras arredondadas e, em poucos segundos, foram capazes de identificar e selecionar pequenos cristais de quartzo, semelhantes aos coletados por hominídeos. Quando cristais de pirita e calcita foram adicionados ao conjunto, os primatas também conseguiram distinguir as pedras com características cristalinas das demais.
Segundo Juan Manuel Garcia-Ruiz, do Centro Internacional de Física Donostia, na Espanha, os resultados demonstram que chimpanzés e humanos compartilham a capacidade de diferenciar cristais de outras rochas. “Ficamos agradavelmente surpresos com a intensidade e a aparente naturalidade da atração dos chimpanzés por cristais. Isso sugere que a sensibilidade a esses objetos pode ter raízes evolutivas profundas”, disse em comunicado.
A intensidade do interesse foi evidente nos dois experimentos. No primeiro, os pesquisadores observaram que o entusiasmo era maior logo após a exposição inicial aos objetos, diminuindo gradualmente com o tempo — um padrão semelhante ao comportamento humano diante de novidades, repercute a Revista Galileu.
Outro ponto que chamou a atenção foi a possibilidade de que os chimpanzés reconheçam algum tipo de valor nos cristais. Durante o segundo experimento, uma fêmea chamada Sandy carregou pedrinhas de quartzo, pirita e calcita na boca até uma plataforma de madeira, onde as separou das demais pedras. “Ela separou os três tipos de cristais, que diferiam em transparência, simetria e brilho, de todas as pedrinhas. Essa capacidade de reconhecer cristais apesar de suas diferenças nos surpreendeu”, disse García-Ruiz.
O estudo, no entanto, não avaliou se determinados indivíduos demonstraram maior interesse ou reivindicaram tipos específicos de cristais, embora pesquisas futuras devam considerar diferenças de personalidade entre os animais. Garcia-Ruiz também destacou que os atributos responsáveis pela atração podem variar: “alguns podem achar a transparência fascinante, enquanto outros se interessam pelo cheiro e se elas são comestíveis”.
A partir dos testes, a equipe identificou a transparência e a forma como propriedades particularmente marcantes para os chimpanzés. Os pesquisadores sugerem que esse fascínio pode estar relacionado ao contato prévio dos animais testados com seres humanos, o que os teria familiarizado com objetos incomuns no ambiente natural. Por isso, o grupo defende que experimentos futuros incluam chimpanzés não aculturados, a fim de aprofundar a compreensão sobre as origens evolutivas desse comportamento.