Chimpanzés selvagens adoram frutas alcoólicas, revela novo estudo
Estudo com chimpanzés publicado em 25 de fevereiro na revista Biology Letters ainda destaca que interesse humano pelo álcool pode ter raízes evolutivas

Chimpanzés selvagens têm verdadeira predileção por frutas doces, pegajosas e bem maduras. Em alguns casos, porém, esses alimentos amadurecem além do ponto e começam a fermentar.
Pesquisas anteriores já haviam indicado que, ao consumir essas frutas fermentadas, os chimpanzés ingerem, em média, cerca de 14 gramas de álcool por dia, o equivalente aproximado a 2,5 bebidas humanas quando ajustado ao peso corporal. Agora, um estudo publicado em 25 de fevereiro na revista Biology Letters reforça essa conclusão.
“Encontramos evidências fisiológicas amplas do consumo de álcool por chimpanzés”, afirmou, em comunicado, o autor principal Aleksey Maro, biólogo da Universidade da Califórnia, Berkeley.
Hipótese do macaco bêbado
Como os chimpanzés estão entre os parentes vivos mais próximos dos humanos, os resultados sugerem que o interesse humano pelo álcool pode ter raízes evolutivas. Essa ideia, aponta o portal Smithsonian, está associada à chamada hipótese do “macaco bêbado”. Essa teoria propõe que nossos ancestrais primatas aprenderam a associar o cheiro do álcool à presença de frutas muito calóricas e fáceis de digerir, favorecendo esse comportamento ao longo da evolução.
Os pesquisadores ainda não comprovaram definitivamente a hipótese, pois seria necessário demonstrar que os chimpanzés escolhem por vontade própria frutas com maior teor alcoólico. Ainda assim, os autores consideram que as novas evidências fortalecem a noção de que o consumo humano de álcool pode ter raízes biológicas profundas.
No ano passado, Maro e seus colegas estimaram a ingestão alcoólica dos chimpanzés com base na quantidade de frutas fermentadas que eles comem diariamente e no teor de etanol presente nesses alimentos. Desta vez, a equipe buscou sinais diretos desse consumo no organismo dos animais.
Como o uso de bafômetros é inviável em chimpanzés selvagens, os cientistas recorreram à análise de urina. O trabalho de campo foi realizado no Parque Nacional Kibale, em Uganda, onde funciona o sítio de pesquisa conhecido como Ngogo.
Analisando a urina
Após desenvolver métodos para coletar amostras em folhas e pequenas poças no solo da floresta, os pesquisadores reuniram 20 amostras de urina de 19 chimpanzés diferentes, sendo nove fêmeas e dez machos, com idades entre 10 e 46 anos.
As análises buscaram etilglucuronídeo, substância produzida pelo organismo ao metabolizar álcool. Testes iniciais detectaram o composto em 17 amostras. Em exames mais sensíveis, 10 delas ultrapassaram níveis comparáveis aos observados em humanos após o consumo de uma ou duas doses em 24 horas.
Segundo o coautor Robert Dudley, também da Universidade da Califórnia, Berkeley, esses valores são elevados e provavelmente conservadores, considerando que os animais se alimentam ao longo de todo o dia.
Também constatou-se que os chimpanzés estudados obtinham a maior parte do álcool a partir de uma safra abundante de maçãs-estrela, cuja polpa continha cerca de 0,09% de etanol em peso. Apesar da baixa concentração, a quantidade ingerida era grande: afinal, os animais podem consumir vários quilos dessas frutas em um único dia.
Embora os resultados tragam novas pistas sobre a relação entre primatas e álcool, os cientistas ainda não sabem exatamente como a substância afeta os chimpanzés. Será que ela provoca efeitos psicoativos semelhantes aos observados em humanos? Pode influenciar comportamentos sociais, níveis de agressividade ou até aspectos reprodutivos?
Uma das hipóteses é que o consumo ocasional de frutas fermentadas ajude a reduzir tensões e fortalecer vínculos sociais dentro dos grupos — algo comparável ao papel social que bebidas alcoólicas desempenham entre pessoas.
“Você toma uma taça de vinho no jantar; você conversa com as pessoas”, diz Maro. “Talvez seja daqui que vem a evolução.”