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Rãs-douradas são reintroduzidas no Panamá após fungo mortal

Espécie extinta na natureza devido a fungo mortal é reintroduzida em recintos monitorados após quase 20 anos de conservação

Rã-dourada panamenha na natureza / Crédito: Divulgação/NZCBI/Brian Gratwicke

Rãs-douradas panamenhas, desaparecidas da natureza desde 2009, começaram a ser reintroduzidas em seu habitat original após quase duas décadas de criação em cativeiro. A iniciativa é conduzida por pesquisadores ligados ao Smithsonian no Panamá e busca avaliar se a espécie, criticamente ameaçada, pode sobreviver novamente em ambiente selvagem diante da ameaça persistente de um fungo mortal.

Os anfíbios amarelos com pintas pretas foram devastados pela quitridiomicose, doença infecciosa causada pelo fungo Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), também conhecido como fungo quitrídio. Acredita-se que o patógeno tenha chegado ao sul da América Central no fim da década de 1980 e, desde então, provocado impactos globais. Em 2019, estimativas apontaram que o Bd esteve associado à extinção de 90 espécies e ao declínio de pelo menos outras 491, sendo frequentemente descrito como a doença da vida selvagem mais devastadora já registrada.

Na tentativa de evitar o desaparecimento definitivo da rã-dourada panamenha, especialistas do Instituto Nacional de Zoológico e Biologia da Conservação do Smithsonian (NZCBI) e do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, em parceria com os zoológicos de Cheyenne Mountain e da Nova Inglaterra, criaram o Projeto de Resgate e Conservação de Anfíbios do Panamá (PARC). Ao longo de cerca de 20 anos, os animais foram mantidos e reproduzidos em cativeiro.

Em agosto de 2025, 100 rãs foram colocadas em recintos externos conhecidos como mesocosmos — estruturas comparadas a pátios ao ar livre — instalados em área natural. “Este projeto foi concebido para observar o que aconteceria se colocássemos esses sapos-dourados de volta em um ambiente selvagem, apenas para entender a dinâmica da doença e como esses sapos recuperam suas toxinas cutâneas”, disse Brian Gratwicke, biólogo da conservação do Instituto Nacional de Zoológico e Biologia da Conservação (NZCBI) do Smithsonian, à Smithsonian Magazine.

Os recintos receberam uma camada espessa de folhas secas e abundância de insetos, permitindo que os anfíbios buscassem alimento, mas permanecessem acessíveis ao monitoramento científico. “Colocamos uma grande camada de folhas secas no fundo, repleta de pequenos insetos e comida, para que os sapos possam procurar alimento”, diz ele. “Isso mantém os sapos dentro, onde podemos encontrá-los novamente, e também afasta alguns predadores.”

Durante 12 semanas de observação, cerca de 70% dos indivíduos morreram em decorrência da quitridiomicose. Os sobreviventes, em sua maioria, foram posteriormente liberados na natureza. Apesar da elevada mortalidade, os pesquisadores consideram os dados obtidos fundamentais para compreender o comportamento da doença e a possível adaptação da espécie. “Este experimento é provavelmente o primeiro em que realmente conseguimos compreender completamente a dinâmica da doença nesses animais.”

O fungo se espalha por esporos transportados pela água ou por outros animais, inclusive humanos. Ao infectar anfíbios, compromete gravemente a pele, essencial para a respiração desses animais. “A bactéria ataca a pele e desenvolve a capacidade de crescer dentro e sobre ela, geralmente causando a descamação da pele do animal”, disse Jason Stajich, microbiologista da Universidade da Califórnia, Riverside, que não está envolvido no projeto do Panamá, à Smithsonian Magazine. “Como os anfíbios respiram pela pele, isso pode prejudicá-los bastante.”

Experiências em outras regiões oferecem indícios de possível adaptação ao patógeno. “Essas populações convivem com esse patógeno há várias gerações, ao longo de várias décadas, e estamos vendo adaptação e evolução em algumas delas”, disse ele à Smithsonian magazine.

Próximos passos

Segundo pesquisadores, compreender os mecanismos de tolerância poderá orientar futuras estratégias de conservação. Por ora, o monitoramento continua. “Estou muito satisfeito com o progresso”, diz Gratwicke. “É realmente importante avançarmos em direção ao nosso objetivo final, que é criar populações saudáveis e prósperas desses animais na natureza. Este experimento é um dos primeiros passos para alcançarmos isso.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.