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Fóssil brasileiro pode reescrever o que se sabe sobre a evolução dos crocodilos

Pesquisa com fóssil gaúcho do Triássico sugere que o crescimento lento dos crocodilos modernos pode ser uma característica evolutiva recente; entenda!

Fóssil do Dynamosuchus collisensis / Crédito: Divulgação/Rodrigo Müller

Uma pesquisa conduzida por cientistas brasileiros pode alterar a compreensão estabelecida sobre a evolução dos crocodilos. A partir da análise microscópica de ossos fósseis encontrados no Rio Grande do Sul, o estudo indica que o crescimento lento e o metabolismo reduzido observados nos crocodilos atuais podem não ser características ancestrais profundas, mas sim aquisições evolutivas mais recentes.

Tradicionalmente, os crocodilos modernos são associados a um desenvolvimento prolongado e a taxas metabólicas inferiores às de aves e mamíferos. Durante quase dois séculos, esse padrão foi interpretado como traço antigo da linhagem crocodiliana. No entanto, a investigação liderada por pesquisadores do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sugere um cenário distinto para seus parentes remotos.

O foco da pesquisa foi Dynamosuchus collisensis, espécie que viveu há cerca de 231 milhões de anos, no período Triássico. Seus fósseis foram escavados no sítio paleontológico de Várzea do Agudo, no Rio Grande do Sul. O animal integra os Ornithosuchidae, um dos ramos mais basais de Pseudosuchia — grupo que engloba os crocodilos atuais e seus parentes extintos. O trabalho foi liderado pelo biólogo Brodsky Dantas Macedo de Farias, pesquisador de pós-doutorado no Museu Nacional, sob supervisão de Marina Bento Soares, professora do Departamento de Geologia e Paleontologia da instituição. Os resultados foram publicados em 4 de fevereiro na revista Royal Society Open Science.

Descobertas

Para reconstruir o ritmo de crescimento do espécime, a equipe utilizou a paleohistologia, técnica que examina cortes microscópicos de ossos fossilizados. “Essa é uma ferramenta fundamental para entender como os animais cresciam e a idade individual de espécies extintas, nos ajudando a preencher importantes lacunas sobre a vida de vertebrados que viveram há milhões de anos”, aponta Farias, em comunicado enviado à imprensa.

As análises envolveram lâminas do úmero, do fêmur e de uma costela. A microestrutura revelou ossos altamente vascularizados, associados à deposição rápida de tecido — padrão típico de crescimento acelerado na juventude. Foram identificadas três marcas anuais de crescimento no úmero e quatro no fêmur. “Isso nos permite estimar que o exemplar tinha pelo menos quatro anos quando morreu”, explica Soares.

A ausência de um “sistema fundamental externo”, estrutura que indica desaceleração definitiva do crescimento, reforça a hipótese de que o indivíduo ainda não havia atingido maturidade esquelética. A interpretação é corroborada pela presença de suturas neurocentrais abertas nas vértebras, sinal de que os arcos neurais não estavam completamente fundidos aos centros vertebrais, repercute a Revista Galileu.

Embora juvenil, o animal já alcançava aproximadamente dois metros de comprimento. Diferentemente dos crocodilos atuais — que apresentam crescimento mais lento, deposição óssea menos vascularizada e ciclos bem definidos —, o Dynamosuchus collisensis mantinha crescimento acelerado contínuo até o momento da morte.

Segundo os autores, o padrão aproxima os ornithosuchídeos de outros grandes arcossauros do Triássico que exibiam fases prolongadas de crescimento rápido. Caso se confirme que essa característica seja ancestral entre os crocodilomorfos, o desenvolvimento lento observado nos crocodilos modernos teria surgido posteriormente na história evolutiva do grupo. A conclusão pode representar uma revisão significativa do entendimento sobre a fisiologia e as estratégias de vida desses répteis, tema que seguirá sendo investigado em estudos futuros.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.